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terça-feira, 18 de março de 2008

COMO ENTRA E VIVER NO REINO DE DEUS - Quando Jesus deixa de ser apenas Salvador e passa a governar verdadeiramente nossa vida



COMO ENTRAR E VIVER NO REINO DE DEUS

Quando Jesus deixa de ser apenas Salvador e passa a governar verdadeiramente nossa vida

 

                     “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.”
Romanos 14:17

 

Muito se fala sobre o Reino de Deus. A expressão está presente em músicas, sermões, livros, conferências e conversas cristãs, mas existe uma pergunta que não pode ser evitada: será que compreendemos realmente o que significa viver debaixo do Reino de Deus?

Podemos conhecer a terminologia do Reino sem nos submetermos ao Rei. Podemos frequentar uma igreja, conhecer a linguagem cristã, ter anos de caminhada religiosa e, mesmo assim, conservar áreas da vida em que continuamos governando a nós mesmos.

Talvez seja exatamente aí que se encontra um dos grandes desafios da vida cristã. Não basta conhecer informações sobre o Reino. É necessário permitir que o governo de Deus alcance nossos pensamentos, prioridades, relacionamentos, recursos, decisões, desejos e projetos. O Reino não é apenas uma doutrina que aprendemos; é uma realidade à qual nos submetemos.

Paulo escreveu em Romanos 14:17 que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”. No contexto, o apóstolo estava tratando de conflitos relacionados a alimentos e práticas entre os cristãos, mostrando que o Reino não pode ser reduzido a questões exteriores. Seu centro está no governo de Deus manifestando justiça, paz e alegria através do Espírito Santo.

Por isso, para compreendermos como entrar e viver no Reino, precisamos primeiro entender o que o Reino realmente é.

 

O Reino de Deus é o Governo de Deus

Quando falamos de reino, falamos inevitavelmente de autoridade, governo e soberania. Todo reino possui um rei, e o Reino de Deus possui um Rei absoluto: Jesus Cristo.

Isso significa que o Reino não pode ser compreendido apenas como um lugar para onde iremos depois da morte. A esperança futura faz parte da mensagem bíblica, mas Jesus também anunciou a chegada do governo de Deus à história. Onde Cristo é reconhecido como Rei e sua vontade é obedecida, o Reino começa a manifestar sua realidade.

Essa compreensão muda profundamente nossa maneira de enxergar a fé cristã. Jesus não veio apenas para melhorar determinadas áreas de nossa existência. Ele não deseja ser acrescentado à nossa vida como mais uma prioridade entre muitas outras. Ele reivindica o senhorio sobre tudo aquilo que somos.

No Novo Testamento, uma das palavras utilizadas para Senhor é “Kyrios”, expressão que comunica autoridade, domínio e senhorio. Ao mesmo tempo, Paulo e outros escritores frequentemente se apresentam como “douloi” de Cristo, servos que pertencem ao seu Senhor. Essa linguagem nos lembra de que o Evangelho não nos coloca no centro; coloca Cristo no centro.

A grande pergunta, portanto, deixa de ser simplesmente: “Jesus faz parte da minha vida?” e passa a ser: “Jesus governa a minha vida?”

 

O Reino não é Construído ao Redor dos Nossos Desejos

Uma das grandes tentações da religião contemporânea é transformar o Evangelho em uma mensagem centrada quase exclusivamente nos benefícios que Deus pode proporcionar. Podemos falar tanto sobre prosperidade, realização, portas abertas, conquistas e satisfação pessoal que, pouco a pouco, o Rei deixa de ocupar o centro e nós ocupamos seu lugar.

Naturalmente, Deus cuida dos seus filhos, supre necessidades e nos permite apresentar-lhe nossos desejos. O problema começa quando nossa relação com Ele passa a existir somente para servir aos nossos projetos.

O Reino funciona na direção oposta. No Reino, não perguntamos apenas: “O que Deus pode fazer por mim?” Aprendemos também a perguntar: “O que o Rei deseja fazer através de mim?”

Jesus ensinou em Mateus 6:33:

“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça.”

Essa ordem reorganiza nossas prioridades. O Reino vem primeiro. Nossa vontade precisa aprender a curvar-se diante da vontade daquele que é Rei.

Isso não significa perder identidade ou personalidade. Significa encontrar nossa verdadeira identidade debaixo do governo daquele que nos criou.

 

Como Entramos no Reino?

Aqui precisamos de enorme clareza. Ninguém entra no Reino porque conseguiu alcançar um nível elevado de obediência, renúncia ou santidade por esforço próprio. Se essa fosse a condição, ninguém conseguiria entrar.

Jesus disse a Nicodemos:

“Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.”
João 3:3

O acesso ao Reino começa com uma obra de Deus em nós. Precisamos nascer de novo. Precisamos arrepender-nos. Precisamos crer em Jesus.

Marcos 1:15 registra o início da pregação de Cristo:

“O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.”

Observe a relação: Reino, arrependimento e fé.

Portanto, não entramos no Reino porque nos tornamos bons o suficiente; entramos porque Cristo nos salva e nos introduz debaixo do governo de Deus. Depois disso, nossa obediência torna-se evidência de uma vida que foi alcançada pela graça.

 

A Obediência Revela Quem Realmente Governa

Jesus fez uma declaração extremamente séria em Mateus 7:21:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”

Essa passagem não está ensinando salvação por obras. Está confrontando uma profissão de fé que não possui correspondência na vida.

É possível chamar Jesus de Senhor sem permitir que Ele governe. É possível utilizar linguagem cristã enquanto nossas decisões continuam sendo determinadas por orgulho, interesses pessoais, dinheiro, reconhecimento ou desejos que nunca submetemos a Deus.

Por isso, a obediência possui tanta importância. Ela revela aquilo que confessamos acreditar. Se chamamos Jesus de Senhor, então sua vontade precisa possuir autoridade sobre a nossa.

A questão não é se nunca falharemos. Todos nós estamos em processo de transformação. A questão é se existe em nosso coração uma disposição genuína de dizer: “Senhor, quando minha vontade entrar em conflito com a tua, eu quero aprender a escolher a tua.”

Essa é uma das marcas de alguém que vive sob o Reino.

 

O Reino Estava no Meio Deles e Eles Não Conseguiam Perceber

Em Lucas 17:20-21, alguns fariseus perguntaram a Jesus quando viria o Reino de Deus. Ele respondeu que o Reino não viria de modo que pudesse ser observado como um espetáculo político e declarou que “o reino de Deus está dentro de vós”, expressão que também pode ser traduzida como “o reino de Deus está entre vós” ou “no meio de vós”.

Essa última compreensão é especialmente significativa porque Jesus estava falando com fariseus. O Rei estava diante deles, e mesmo assim eles não conseguiam reconhecer o Reino.

Isso continua sendo um perigo. Podemos procurar manifestações extraordinárias enquanto ignoramos Cristo. Podemos correr atrás de novas revelações enquanto negligenciamos aquilo que Ele já revelou. Podemos ficar fascinados por movimentos, líderes e experiências enquanto deixamos de nos perguntar se Jesus realmente está ocupando o centro.

“Onde o Rei está presente e seu governo é reconhecido, o Reino está se manifestando.”

Por isso, o discernimento cristão não consiste em perseguir toda novidade espiritual. Precisamos examinar aquilo que ouvimos à luz das Escrituras e manter Cristo no centro.

 

Não Devemos Confundir O Reino de Deus Com Reinos de Homens

Existe uma diferença profunda entre liderança no Reino e domínio humano.

Jesus ensinou que, entre as nações, governantes exercem domínio sobre outros, mas declarou aos discípulos: “Não é assim entre vós”. No Reino, grandeza é expressa por serviço.

Por isso, precisamos ser cuidadosos quando homens constroem estruturas em que sua própria personalidade se torna maior do que Cristo, quando exigem uma submissão que pertence somente ao Senhor ou quando utilizam autoridade espiritual para controlar consciências.

“Nenhum líder humano possui o direito de ocupar o lugar de Jesus.”

Pastores, mestres, profetas, evangelistas, apóstolos e demais líderes são servos. Todos estão debaixo do mesmo Rei.

Autoridade espiritual saudável não cria pessoas dependentes de homens; ajuda pessoas a amadurecerem em sua dependência de Cristo.

Da mesma forma, conhecimento teológico, títulos acadêmicos ou eloquência não transformam automaticamente alguém em referência segura. Conhecimento pode ser uma grande bênção quando acompanhado de humildade, mas torna-se perigoso quando alimenta orgulho.

No Reino, quanto mais recebemos, mais temos responsabilidade de servir.

 

O Reino Não é Uma Plataforma Para Nossa Glória

Uma das grandes tentações do ministério é começar servindo a Deus e, pouco a pouco, transformar a obra em construção de nossa própria reputação.

Podemos desejar reconhecimento, influência, posição, títulos e visibilidade sem perceber que estamos reconstruindo um reino pessoal dentro daquilo que deveria pertencer exclusivamente a Cristo. Por isso, os começos humildes precisam ser valorizados.

Zacarias 4:10 pergunta: “Quem despreza o dia dos humildes começos?” Deus frequentemente inicia grandes processos em lugares pequenos, através de pessoas anônimas e aparentemente insignificantes.

Quem aprendeu a honrar aquilo que Deus fez quando ninguém estava olhando terá mais condições de permanecer humilde quando mais pessoas começarem a olhar.

O Reino não precisa de celebridades espirituais. Precisa de servos fiéis.

 

O Jovem Rico e o Confronto Entre Dois Reinos

Talvez uma das melhores histórias para compreendermos esse assunto esteja em Marcos 10:17-31.

Um homem aproxima-se de Jesus e pergunta: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”

Jesus conversa com ele sobre os mandamentos, e o homem afirma que os observa desde a juventude. Exteriormente, parecia alguém admirável. Possuía moralidade, respeito pela Lei e desejo espiritual.

Marcos registra algo belíssimo: “E Jesus, fitando-o, o amou.”

Tudo o que acontece depois precisa ser interpretado à luz dessa frase. Jesus não o confrontou porque o desprezava. Confrontou-o porque o amava.

Então disse: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me.”

Jesus atingiu exatamente o ponto onde aquele homem ainda possuía seu próprio reino.

O problema não era simplesmente possuir bens. A Bíblia apresenta pessoas ricas que serviram a Deus fielmente. O problema era que os bens possuíam aquele homem. Jesus revelou quem realmente ocupava o trono.

 

O Reino Confronta Nossos Ídolos Particulares

Nem todos nós seríamos confrontados exatamente da mesma maneira que o jovem rico. Para alguns, a grande dificuldade pode ser dinheiro. Para outros, posição, reputação, relacionamento, ministério, reconhecimento, carreira ou controle.

É possível até transformar o próprio chamado em ídolo. Podemos amar tanto aquilo que fazemos para Deus que começamos a amar o ministério mais do que o Deus do ministério.

Por isso, a pergunta não é simplesmente: “Tenho muitas propriedades?” A pergunta é: “Existe alguma coisa que eu não entregaria a Jesus caso Ele colocasse o dedo sobre ela?” É aí que descobrimos onde nosso reino pessoal ainda resiste ao Reino de Deus.

O jovem rico recebeu um convite extraordinário: “Vem e segue-me.” Mas Marcos diz que ele saiu triste. A tristeza apareceu porque dois reinos entraram em conflito, e naquele momento ele decidiu preservar o seu.

 

O Camelo e o Fundo da Agulha

Depois que o homem foi embora, Jesus declarou: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” (Marcos 10:23). E acrescentou: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.”

Algumas interpretações populares afirmam que havia em Jerusalém uma pequena porta chamada “fundo da agulha” pela qual um camelo poderia passar depois de ajoelhar-se e ser descarregado. Não precisamos dessa explicação para compreender Jesus, e não há evidência histórica sólida que exija essa leitura.

A imagem é deliberadamente radical. Um camelo não atravessa o fundo de uma agulha.

Os discípulos entenderam exatamente a força da declaração, porque perguntaram assustados: “Então, quem pode ser salvo?” E Jesus respondeu: “Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.” (Marcos 10:27)

Aqui está o coração da mensagem. Ninguém consegue entrar no Reino confiando em sua própria capacidade. Precisamos da graça.

 

O Caminho do Reino é Estreito Porque Não Cabem Dois Senhores

Jesus também falou sobre a porta estreita e o caminho apertado em Mateus 7:13-14. Não precisamos interpretar essa imagem como se literalmente tivéssemos de abandonar todos os bens materiais para atravessar uma passagem invisível. O princípio é mais profundo. No Reino, não conseguimos conservar dois tronos.

Jesus disse em Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores.” É exatamente isso que torna o discipulado tão confrontador.

Queremos Jesus e controle. Jesus e nossas condições. Jesus e nossos ídolos. Jesus e nossa própria soberania. Mas Cristo não aceita ser apenas uma influência dentro de um reino que continua pertencendo a nós. Ele é Rei.

 

Perder A Vida Para Encontrar A Vida

Finalmente, Jesus apresenta uma das afirmações mais paradoxais do Evangelho:

“Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á.”
Mateus 16:25

Aqui encontramos talvez a expressão mais profunda do Reino. Para viver debaixo do governo de Cristo, precisamos abandonar a pretensão de sermos senhores absolutos de nossa própria existência.

Isso não significa desprezar a vida. Significa entregá-la àquele que conhece perfeitamente o propósito para o qual fomos criados.

O paradoxo do Evangelho é maravilhoso: quando tentamos preservar nossa vida longe do governo de Cristo, acabamos perdendo aquilo que realmente importa; quando a entregamos a Ele, descobrimos a vida que fomos criados para viver.

 

Entrar no Reino é Receber O Rei

Então, como acessamos o Reino de Deus?

A resposta bíblica não começa em nossa capacidade, mas em Cristo. Entramos pela graça. Pelo arrependimento. Pela fé. Pelo novo nascimento produzido pelo Espírito. E, tendo sido recebidos, aprendemos diariamente a viver debaixo do senhorio daquele que nos salvou.

Isso significa permitir que Jesus governe nossa família, nossos relacionamentos, nossas finanças, sexualidade, ministério, palavras, pensamentos, projetos e futuro. Não porque estamos tentando comprar nossa entrada no Reino, mas porque já reconhecemos quem é o Rei.

Talvez a pergunta mais importante desta reflexão não seja: “Você conhece o Reino de Deus?” Talvez seja: Quanto da sua vida já está verdadeiramente debaixo do governo do Rei?

Há áreas que ainda pertencem a um pequeno reino pessoal? Existe alguma coisa que você protege da autoridade de Cristo? Você chama Jesus de Senhor apenas com os lábios ou sua vontade realmente começa a curvar-se diante da vontade dele?

Essas perguntas não existem para produzir condenação, mas para levar-nos novamente ao centro do Evangelho.

Jesus continua chamando: “Vem e segue-me.” E esse chamado continua sendo um convite para sairmos do governo de nós mesmos e descobrirmos a liberdade extraordinária de viver sob o governo daquele que nos amou e entregou a própria vida por nós.

Porque o Reino de Deus não é primeiramente a construção de um lugar onde nossos sonhos governam. É a realidade gloriosa de um povo que encontrou seu verdadeiro Rei.

Deus te abençoe!

Pastor Sérgio Luis

 

 


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