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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 


SOU FILHO, NÃO ESCRAVO

 

É possível estar na casa do Pai, conhecer sua linguagem, servir em sua presença e ainda viver interiormente como escravo. A filiação só transforma nossa vida quando deixa de ser uma doutrina conhecida e se torna uma identidade vivida.

 

“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.”   Romanos 8:14-15

 

Existem verdades bíblicas que conhecemos intelectualmente por muitos anos sem necessariamente experimentá-las em toda a sua profundidade. Uma delas é a verdade da filiação.

Sabemos dizer que Deus é nosso Pai, repetimos que somos filhos e até cantamos sobre isso, mas a maneira como pensamos, reagimos, servimos, lidamos com nossos erros e nos relacionamos com outras pessoas pode revelar que, apesar da linguagem de filhos, ainda carregamos dentro de nós uma mentalidade de escravos.

Paulo declara em Romanos 8 que aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus e que não recebemos um espírito de escravidão para vivermos novamente dominados pelo medo. Recebemos o Espírito de adoção, e é através dele que clamamos: “Aba, Pai.”

Essa não é apenas uma mudança de vocabulário. É uma mudança de identidade. Deus não nos chama para permanecermos diante dele como empregados inseguros, tentando provar o tempo todo que merecemos permanecer na casa. Ele nos chama para um relacionamento de filhos.

O problema é que podemos pertencer à casa e continuar vivendo como se fôssemos estranhos. Podemos estar próximos do Pai, mas não desfrutar do seu amor. Podemos servi-lo todos os dias e ainda acreditar que precisamos conquistar aquilo que ele já decidiu nos dar por graça. Podemos obedecer dominados pelo medo de sermos rejeitados, em vez de obedecer porque fomos amados. E, quando isso acontece, a vida cristã se torna pesada, cansativa e marcada por cobranças que o próprio Pai nunca colocou sobre nós.

 

É Possível Estar Na Casa E Não Viver Como Filho

Jesus apresenta essa realidade de maneira impressionante em Lucas 15.

Normalmente, quando pensamos na parábola do filho pródigo, nossa atenção se volta imediatamente para o filho mais novo, aquele que pediu sua herança, deixou a casa, desperdiçou tudo e terminou vivendo uma situação humilhante. Ele precisou reconhecer seus erros, arrepender-se e decidir voltar.

Quando retorna, porém, encontra algo que talvez não esperasse. O pai não o recebe como empregado. Corre ao seu encontro, abraça-o, beija-o, manda trazer novas vestes, coloca sandálias nos seus pés e um anel em seu dedo, e prepara uma grande celebração. O filho imaginava que talvez conseguisse um lugar entre os trabalhadores. O pai, entretanto, restaura sua identidade.

Essa parte da parábola é maravilhosa, mas existe outro filho na história. Um filho que nunca deixou fisicamente a casa e, ainda assim, estava muito distante do coração do pai.

O irmão mais velho estava no campo quando ouviu música e dança. Ao descobrir que seu irmão havia voltado e que o pai preparara uma celebração, ficou indignado. Recusou-se a entrar. Quando o pai saiu para conversar com ele, sua resposta revelou aquilo que estava escondido havia muitos anos: “Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos.”

Observe sua linguagem. Ele não fala como filho. Fala como funcionário.

Ele contabiliza anos de serviço. Conta ordens cumpridas. Compara recompensas. Avalia aquilo que fez e aquilo que acredita não ter recebido. Está dentro da casa, mas interpreta sua relação com o pai como uma relação de mérito e pagamento.

Então o pai responde com uma das declarações mais profundas da parábola: “Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.”

O problema nunca foi falta de provisão na casa. O problema estava na mentalidade do filho.

Ele possuía acesso, mas não vivia como alguém que possuía acesso. Estava cercado pela abundância do pai, mas enxergava apenas aquilo que imaginava estar faltando.

Quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa com Deus?

 

Quando A Mentalidade De Escravo Contamina Nossa Relação Com Deus

Uma das primeiras evidências de um coração escravizado é a maneira como lidamos com nossos erros.

Quando pecamos, em vez de corrermos para Deus em arrependimento, fugimos dele em medo. Pensamos que precisamos permanecer afastados por algum tempo até nos sentirmos novamente dignos de voltar. Começamos a imaginar que Deus não ouvirá nossas orações, que desistiu de nós ou que precisa nos punir antes de nos receber.

Esse comportamento revela que ainda não compreendemos plenamente o coração do Pai.

Arrependimento verdadeiro não nos afasta de Deus. Ele nos conduz de volta para seus braços. Quando reconhecemos nosso pecado, confessamos e nos quebrantamos diante dele, encontramos graça para recomeçar. Deus não trata o pecado com indiferença, mas também não rejeita o filho que volta quebrantado.

A mentalidade de escravo também aparece na justiça própria. Tornamo-nos extremamente exigentes conosco e com os outros. Cobramos perfeição de nós mesmos e, quando falhamos, mergulhamos em culpa. Depois usamos a mesma medida para julgar as pessoas ao nosso redor. Um erro passa a definir completamente alguém. Uma falha apaga todas as virtudes. Um pecado confessado parece nunca ser suficientemente perdoado aos nossos olhos.

Foi exatamente isso que aconteceu com o irmão mais velho. Ele não conseguiu enxergar a restauração do irmão. Só conseguia enxergar o passado.

O pai dizia: “Ele estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado.” O irmão dizia: “Ele desperdiçou teus bens.” Um celebrava a restauração. O outro preservava a acusação.

Essa diferença revela muito sobre o coração. Quem entende a graça começa também a olhar as pessoas com misericórdia. Isso não significa ignorar o pecado, fingir que erros não aconteceram ou abandonar responsabilidade. Significa acreditar que arrependimento, restauração e recomeço são realmente possíveis.

 

O Escravo Vive Cobrando; O Filho Aprende A Desfrutar

Outra característica muito forte do coração escravizado é a ingratidão.

A pessoa começa a enxergar sua vida principalmente a partir do que ainda não possui. Recebe algo de Deus, mas rapidamente perde a alegria porque outra coisa continua faltando. Uma porta se abre, mas ela continua pensando na porta que permanece fechada. Uma oração é respondida, mas imediatamente outra necessidade toma todo o espaço.

Assim, nunca existe descanso. Foi isso que aconteceu com o filho mais velho. Ele estava na casa. Tinha relacionamento com o pai. Possuía acesso a tudo. Mas dizia: “Nunca me deste...” E o pai responde: “Tudo o que é meu é teu.”

Talvez Deus tenha nos dado muito mais do que temos conseguido perceber.

A mentalidade de escravo transforma até mesmo o relacionamento com Deus em uma espécie de contabilidade espiritual. Começamos a pensar: “Eu fiz isso para Deus, portanto ele precisa fazer aquilo por mim.” Servimos, jejuamos, ofertamos, trabalhamos, ajudamos pessoas e, sem perceber, criamos uma expectativa de pagamento.

Quando algo não acontece como esperávamos, ficamos frustrados. “Depois de tudo que fiz...” “Depois de tantos anos servindo...” “Depois de ser tão fiel...” Essa é exatamente a linguagem do irmão mais velho.

Um filho pode pedir ao Pai. Pode apresentar suas necessidades, seus sonhos e suas dores. Mas existe uma diferença enorme entre pedir com confiança e cobrar como credor.

Deus não é nosso devedor. Tudo aquilo que recebemos dele é graça.

Isso também transforma nossa relação com as pessoas. Quem vive cobrando Deus geralmente também vive cobrando os outros. Cobra atenção, reconhecimento, carinho, reciprocidade e gratidão de maneira tão intensa que nenhum relacionamento consegue suportar esse peso.

Quando compreendemos profundamente que somos amados pelo Pai, começamos a libertar as pessoas da obrigação de preencher aquilo que somente Deus pode preencher em nós.

 

Você Não Precisa Provar Seu Valor Servindo

Existe ainda uma escravidão muito comum dentro da vida cristã: acreditar que nosso valor diante de Deus depende daquilo que fazemos para ele.

Há pessoas que não sabem simplesmente ser filhos. Elas só sabem trabalhar. Servem em tudo. Assumem responsabilidades. Aceitam novas tarefas.  Nunca descansam.

Sentem culpa quando não estão produzindo alguma coisa para o Reino. E, lentamente, o serviço deixa de ser fruto do amor e começa a se tornar fonte de identidade.

Isso é perigoso. Porque, quando não conseguem mais realizar aquilo que faziam, começam a se sentir inúteis.

Se o ministério para, a identidade entra em crise. Se alguém assume sua função, aparece insegurança. Se não recebem reconhecimento, sentem-se rejeitadas. Se alguma coisa sai diferente do planejado, o perfeccionismo produz irritação e frustração.

Mas Deus não ama você por causa do seu ministério. Ele não ama você porque você prega. Não ama você porque serve. Não ama você porque ocupa uma posição. Não ama você porque trabalha muito.

Você serve porque é amado. Você não é amado porque serve.

Essa ordem precisa permanecer muito clara dentro de nós. Fomos chamados primeiro para sermos filhos. O serviço vem depois, como consequência de uma vida que conhece o amor do Pai.

Quando esse princípio é invertido, transformamos o Reino em um sistema de escravidão espiritual. Mas quando a filiação volta ao lugar certo, servir deixa de ser peso e se transforma em prazer.

 

Saia Da Casa Do Escravo E Entre Na Alegria Dos Filhos

Existe uma pergunta que precisa acompanhar este artigo: em que áreas da minha vida eu ainda penso como escravo?

Talvez seja na culpa. Talvez na comparação. Talvez na necessidade de aprovação. Talvez na cobrança exagerada sobre si mesmo. Talvez na dificuldade de perdoar. Talvez na ingratidão. Talvez na ideia de que Deus abençoa mais algumas pessoas porque as ama mais. Talvez no serviço excessivo usado para tentar conquistar valor.

Se você identificou alguma dessas áreas, isso não precisa produzir condenação. Pode produzir libertação. Porque o Pai continua dizendo: “Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.”

Você não precisa viver do lado de fora da festa. O irmão mais velho estava tão preso à sua própria justiça que não conseguia participar daquilo que alegrava o coração do pai.

Não permita que isso aconteça com você. Celebre a graça. Celebre quando alguém volta. Celebre restaurações. Celebre respostas de oração. Celebre aquilo que Deus faz na vida de outras pessoas.

Não transforme a bênção do outro em prova de que Deus esqueceu você. O Pai não possui filhos preferidos. Possui filhos amados.

Sua identidade não precisa nascer da comparação. Você pode descansar na certeza de que pertence à casa.

Talvez por muito tempo você tenha vivido tentando conquistar uma posição que já recebeu em Cristo. Talvez esteja cansado porque transformou sua relação com Deus em desempenho. Então pare. Volte para o abraço do Pai.

Ouça novamente Romanos 8: Você não recebeu espírito de escravidão para viver novamente dominado pelo medo. Recebeu o Espírito de adoção.

Você pode chamar Deus de Pai. Pode aproximar-se. Pode arrepender-se quando errar. Pode pedir ajuda. Pode receber amor. Pode descansar. Pode servir sem tentar provar seu valor. Pode alegrar-se com outros filhos. Pode viver em liberdade. Essa é a vida que Deus deseja para nós.

Por isso, guarde esta declaração: Eu não sou um empregado tentando conquistar meu lugar na casa. Eu sou filho.

Não preciso viver assustado diante do Pai. Não preciso negociar amor. Não preciso comprar aceitação através do serviço. Não preciso competir com outros filhos. Não preciso acreditar que meus erros cancelaram para sempre minha identidade.

Posso voltar. Posso me arrepender. Posso ser restaurado. Posso viver aquilo que Deus preparou para aqueles que pertencem à sua família.

A casa continua aberta. O Pai continua presente. Seus braços continuam estendidos. E sua voz continua dizendo: “Filho, tudo o que é meu é teu.”

Talvez a maior libertação de que você precisa hoje não seja sair de alguma circunstância externa. Talvez seja abandonar definitivamente uma mentalidade que o manteve preso durante anos.

Então receba esta verdade: Sou Filho, Não Escravo.

Viva como filho. Ore como filho. Sirva como filho. Arrependa-se como filho. Descanse como filho. E permita que o amor do Pai transforme completamente a maneira como você enxerga Deus, a si mesmo e as pessoas ao seu redor.

Deus te abençoe!

Pastor Sérgio Luis

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 


QUANDO A VIDA PERGUNTA...

A BÍBLIA RESPONDE

Respostas bíblicas para as perguntas que as pessoas mais fazem

 

SE DEUS É BOM, POR QUE COISAS RUINS ACONTECEM?

 

Existem perguntas que fazemos por curiosidade. Outras, fazemos porque precisamos de informação. Mas existem perguntas que nascem da dor. São perguntas que surgem quando alguma coisa acontece e simplesmente não conseguimos conciliar aquilo que estamos vivendo com aquilo que acreditamos sobre Deus.

É exatamente nesse lugar que nasce esta série: Quando a Vida Pergunta... A Bíblia Responde.

A vida faz perguntas. Perguntamos quando estamos diante de um hospital. Perguntamos diante de uma sepultura. Perguntamos quando recebemos um diagnóstico inesperado. Perguntamos quando alguém que amamos vai embora. Perguntamos diante de uma traição. Perguntamos quando oramos e aquilo que esperávamos não acontece.

E não queremos construir nossas respostas apenas com opiniões humanas, frases motivacionais ou explicações superficiais.

Queremos descobrir o que Deus já nos revelou em Sua Palavra.

E talvez uma das perguntas mais difíceis de todas seja esta: Se Deus é bom, por que coisas ruins acontecem?

Se Deus é amor, por que existe sofrimento? Se Deus é poderoso, por que Ele não impede determinadas tragédias? Se Deus está no controle, por que tantas coisas parecem estar fora de controle?

Essas não são apenas perguntas de ateus ou céticos. Cristãos também fazem essas perguntas.

Jó perguntou. Davi perguntou. Jeremias perguntou. Habacuque perguntou. Os discípulos perguntaram. Marta e Maria também perguntaram.

A Bíblia não apresenta homens e mulheres de fé como pessoas que nunca tiveram perguntas. Pelo contrário, ela nos mostra pessoas que, mesmo tendo perguntas, decidiram continuar buscando a Deus.

E João 11 nos apresenta uma história extraordinária para começarmos nossa série.

Lázaro estava enfermo. Suas irmãs, Marta e Maria, mandaram avisar Jesus: “Senhor, está enfermo aquele a quem amas.”

Observe a maneira como elas apresentam a situação. Elas não disseram apenas: “Lázaro está doente.” Elas disseram: “Aquele a quem amas está doente.”

E imediatamente surge uma tensão. Como alguém amado por Deus pode sofrer?

Talvez essa seja exatamente a dificuldade de muitas pessoas.

“Se Deus me ama, por que estou vivendo isso?” “Se Deus ama minha família, por que permitiu isso?” “Se Deus estava comigo, por que não impediu?”

E João 11 começa nos ensinando algo fundamental: Ser amado por Deus não significa estar isento das dores deste mundo.

Jesus amava Lázaro. Jesus amava Marta. Jesus amava Maria. Mesmo assim, Lázaro adoeceu. Portanto, o sofrimento não pode ser automaticamente interpretado como ausência do amor de Deus.

Talvez você esteja passando por algo difícil e tenha pensado: “Deus se esqueceu de mim.” “Deus me abandonou.” “Deus não me ama mais.”

Mas João 11 mostra exatamente o contrário. Lázaro estava sofrendo e continuava sendo amado. Marta estava sofrendo e continuava sendo amada. Maria estava chorando e continuava sendo amada.

“A presença da dor não significa a ausência do amor de Deus.”

Você pode estar atravessando um vale e ainda assim ser profundamente amado por Deus. Você pode estar chorando e ainda assim ser amado. Pode estar enfrentando uma crise e ainda assim ser amado. Pode não compreender o que está acontecendo e ainda assim continuar sendo amado.

 

Vivemos Em Um Mundo Que Não É Mais Como Deus O Criou

Para entendermos por que coisas ruins acontecem, precisamos voltar ao começo da Bíblia.

Quando Deus criou o mundo, o sofrimento não fazia parte daquilo que Ele declarou ser bom.

Gênesis 1 apresenta Deus olhando para Sua criação e declarando repetidamente: “E viu Deus que isso era bom.” Finalmente, depois da criação do ser humano, Deus contemplou tudo quanto havia feito e declarou que era muito bom.

Não havia morte. Não havia doença. Não havia violência. Não havia injustiça. Não havia hospitais. Não havia cemitérios. Não havia famílias destruídas. Não havia lágrimas de despedida. Então precisamos perguntar: O que aconteceu?

Gênesis 3 apresenta a entrada do pecado na história humana. O ser humano escolheu viver independentemente de Deus, e essa ruptura produziu consequências.

Em Romanos 5:12, Paulo afirma o seguinte:

[...] assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.

Portanto, precisamos compreender uma verdade fundamental: Deus criou um mundo bom, mas o pecado introduziu desordem, corrupção e morte na experiência humana.

Nós vivemos em uma criação quebrada. Romanos 8 apresenta uma criação que geme. A natureza geme. Os seres humanos gemem.

Toda a criação carrega as marcas da queda. Doenças existem. Corpos envelhecem. Acidentes acontecem. Catástrofes acontecem. Pessoas morrem.

Isso não significa que Deus deixou de ser bom. Significa que o mundo em que vivemos não é mais exatamente como Deus originalmente o criou.

E aqui encontramos algo importante: a Bíblia não termina em Gênesis 3. Deus não abandonou Sua criação. Desde o momento da queda, começa a história da redenção.

 

Muito Do Sofrimento Humano Também É Produzido Pelas Escolhas Humanas

Existe outro aspecto que precisamos considerar. Deus criou seres humanos capazes de tomar decisões reais. Mas escolhas reais produzem consequências reais.

Grande parte do sofrimento que vemos no mundo não acontece porque Deus desejou aquilo, mas porque pessoas fizeram escolhas pecaminosas.

Guerras são iniciadas por pessoas. Violências são praticadas por pessoas. Traições são cometidas por pessoas. Famílias podem ser destruídas pelas decisões de pessoas. Injustiças são praticadas por pessoas. Abusos são cometidos por pessoas.

Alguém pode perguntar: “Por que Deus permitiu que aquela pessoa fizesse isso comigo?” Essa pergunta é extremamente dolorosa. Mas precisamos lembrar que Deus não criou seres humanos como máquinas programadas. Ele nos concedeu capacidade real de decisão.

E, infelizmente, pessoas podem usar essa liberdade para amar ou para ferir. Para construir ou destruir. Para obedecer ou pecar. Isso não significa que Deus seja indiferente ao mal. Pelo contrário, a Bíblia apresenta um Deus que julga o pecado e que um dia estabelecerá plenamente Sua justiça.

 

Nem Todo Sofrimento É Consequência De Um Pecado Específico

Aqui precisamos ter muito cuidado. Quando alguma coisa ruim acontece, existe uma tendência religiosa perigosa de tentar descobrir imediatamente qual pecado causou aquilo.

Os discípulos fizeram exatamente isso. Em João 9 encontraram um homem cego de nascimento e perguntaram a Jesus: Quem pecou para que esse homem nascesse cego? Ele ou seus pais? Jesus rejeitou aquela interpretação simplista.

É verdade que algumas escolhas erradas produzem sofrimento. Se alguém toma decisões irresponsáveis, poderá experimentar consequências dessas decisões.

A Bíblia ensina o princípio da semeadura e da colheita. Mas outra coisa completamente diferente é afirmar que todo sofrimento revela algum pecado específico cometido por quem está sofrendo.

O livro de Jó desmonta essa ideia. Os amigos de Jó olharam para seu sofrimento e concluíram: “Você deve ter feito alguma coisa.” Mas eles estavam errados.

Por isso precisamos aprender uma lição pastoral muito importante: Quando encontramos alguém sofrendo, nossa primeira pergunta não deveria ser: “O que você fez para isso acontecer?” Talvez a pergunta devesse ser: “Como posso caminhar com você enquanto você atravessa isso?”

Jesus não nos chamou para sermos investigadores da dor dos outros. Ele nos chamou para amar.

 

Deus Não Tem Medo Das Nossas Perguntas

Lázaro morreu. Jesus finalmente chegou a Betânia. Marta foi ao Seu encontro e disse: “Senhor, se estiveras aqui, não teria morrido meu irmão.” Depois Maria chega e praticamente repete a mesma frase.

Imagine o peso dessas palavras. “Jesus, o Senhor poderia ter impedido.” “Jesus, o Senhor poderia ter chegado antes.” “Jesus, por que o Senhor demorou?”

Essa é uma das frases mais humanas da Bíblia.

Quantas vezes nós também pensamos: “Deus, o Senhor poderia ter evitado isso.” “O Senhor poderia ter curado.” “O Senhor poderia ter protegido.” “O Senhor poderia ter mudado aquela situação.” “Então por que não fez?”

Observe algo maravilhoso. Jesus não repreende Marta e Maria. Ele permite que elas expressem sua dor. Isso nos ensina: Deus não tem medo das nossas perguntas.

Fé não significa fingir que não estamos sofrendo. Fé não significa dizer que compreendemos quando não compreendemos. Fé não é esconder nossas lágrimas atrás de uma aparência religiosa. Fé é continuar indo para Jesus mesmo quando ainda carregamos perguntas.

Você pode conversar com Deus sobre aquilo que não entende. Pode dizer: “Senhor, isso está doendo.” “Senhor, eu não entendo.” “Senhor, por que aconteceu dessa maneira?” Os Salmos estão cheios de orações assim.

“A verdadeira fé não nega aquilo que sentimos. Ela leva aquilo que sentimos para a presença de Deus.”

 

Jesus Chorou

Então chegamos a uma das menores frases da Bíblia e, ao mesmo tempo, uma das mais profundas: “Jesus chorou.”

Jesus sabia que Lázaro seria ressuscitado. Ele sabia o que faria poucos minutos depois. Mesmo assim: Jesus chorou.

Isso nos revela algo extraordinário sobre Deus. Deus não observa friamente nosso sofrimento.

Jesus revela perfeitamente o caráter do Pai. E quando Jesus encontra uma família destruída pela morte, Ele não chega oferecendo apenas uma aula sobre sofrimento. Ele chora.

Há momentos em que precisamos de respostas. Mas existem momentos em que precisamos simplesmente saber que Deus não é indiferente às nossas lágrimas.

Talvez você ainda não tenha compreendido por que determinada coisa aconteceu. Mas pode saber uma coisa: Deus não é indiferente à sua dor.

 

A Cruz Prova Que Deus Entrou Em Nosso Sofrimento

Quando perguntamos onde Deus está no sofrimento humano, o cristianismo oferece uma resposta absolutamente extraordinária: Deus entrou no nosso sofrimento.

Jesus não permaneceu distante. Ele entrou na história. Sentiu fome. Sentiu cansaço. Foi rejeitado. Foi traído. Foi abandonado. Foi humilhado. Foi ferido. Foi crucificado.

Quando olhamos para a cruz, não encontramos um Deus indiferente ao sofrimento. Encontramos Deus entrando na história humana para nos resgatar.

Jesus sabe o que significa sofrer. Sabe o que significa ser rejeitado, ser traído e sentir dor. Por isso podemos levar nossas lágrimas até Ele. O Deus para quem oramos conhece a dor.

 

Deus Pode Redimir Aquilo Que Ele Não Causou

Romanos 8:28 é muitas vezes mal compreendido. Paulo não disse: “Todas as coisas são boas.”

Algumas coisas não são boas. Uma traição não é boa. Um abuso não é bom. Uma injustiça não é boa. Uma doença não precisa ser chamada de boa. A morte é chamada pela Bíblia de inimigo.

O texto ensina que Deus pode agir em todas as coisas para cumprir Seus propósitos. Isso é diferente. Deus não precisa chamar o mal de bem para conseguir produzir algo bom apesar daquele mal.

José experimentou isso. Seus irmãos o venderam como escravo. Foi pecado. Foi traição. Foi maldade.

Anos depois, José declarou: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem.”

Observe: José não disse: “Vocês fizeram algo bom.” Ele disse: “Vocês intentaram o mal.”

Mas Deus entrou naquela história. E aquilo que homens haviam planejado para destruição foi redimido por Deus. Essa é uma notícia poderosa.

Talvez tenham feito alguma coisa terrível contra você. Talvez você carregue marcas de experiências que jamais gostaria de ter vivido.

Deus não precisa chamar aquilo de bom. Mas aquilo também não precisa possuir a palavra final sobre sua história. Deus ainda escreve histórias de redenção.

 

Nós Enxergamos Apenas Uma Parte Da História

Imagine alguém recebendo um livro de quatrocentas páginas e abrindo somente na página 173. Naquela página, o personagem principal está chorando. Talvez alguém tenha morrido. Talvez tudo pareça perdido.

Se aquela pessoa conhecer somente aquela página, poderá pensar: “Essa história termina muito mal.” Mas ela ainda não leu o restante do livro.

Muitas vezes estamos julgando toda a história de Deus olhando somente para a página que estamos vivendo agora.

Nós vemos a página. Deus conhece o livro inteiro.

Isso não significa que devemos usar essa verdade para diminuir a dor de alguém. Mas significa que precisamos reconhecer nossa limitação.

Existem coisas que hoje não compreendemos. Talvez algumas nunca sejam plenamente compreendidas nesta vida. A fé cristã não promete que receberemos explicação para absolutamente tudo. Ela nos oferece algo maior:

“Mesmo quando não sabemos todas as respostas, podemos conhecer aquele que permanecerá conosco enquanto as respostas não chegam.”

 

Jesus Não Veio Apenas Explicar A Morte — Ele Veio Derrotá-La

Voltamos ao sepulcro de Lázaro. Jesus manda retirar a pedra. Então chama: “Lázaro, vem para fora!” E Lázaro sai. Mas antes disso Jesus havia feito uma declaração ainda mais importante: “Eu sou a ressurreição e a vida.”

Perceba. Jesus não disse apenas: “Eu posso realizar uma ressurreição.” Ele disse: “Eu sou a ressurreição.”

Nossa esperança não está apenas naquilo que Jesus pode fazer. Nossa esperança está em quem Jesus é. E a ressurreição de Lázaro aponta para uma realidade muito maior. Sofrimento, pecado e morte não terão a palavra final. Essa é a grande esperança cristã.

Jesus nunca prometeu que nada ruim aconteceria nesta vida. Ele mesmo disse que no mundo enfrentaríamos aflições. A promessa cristã é ainda maior: Nenhuma dessas coisas terá a última palavra sobre aqueles que estão em Cristo.

Apocalipse apresenta o dia em que Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima. Não haverá mais morte. Não haverá mais luto. Não haverá mais pranto. Não haverá mais dor.

Veja a grande história da Bíblia:

·         Criação. Deus criou tudo bom.

·         Queda. O pecado entrou no mundo.

·         Redenção. Cristo entrou na nossa história, morreu e ressuscitou.

·         Restauração. Um dia todas as coisas serão feitas novas.

A Bíblia começa com uma criação sem morte. E termina apresentando uma nova criação onde a morte foi definitivamente derrotada.

 

Então, Se Deus É Bom, Por Que Coisas Ruins Acontecem?

Talvez agora possamos reunir aquilo que aprendemos.

Vivemos em um mundo afetado pela queda. Muitos sofrimentos são produzidos pelas escolhas humanas. Nem todo sofrimento é consequência de um pecado específico cometido pela pessoa que sofre.

Deus permite que apresentemos a Ele nossas perguntas. Deus não é indiferente às nossas lágrimas. Em Cristo, Deus entrou no sofrimento humano. Deus consegue redimir situações que Ele mesmo não causou. Nossa compreensão é limitada e nem sempre entenderemos tudo nesta vida. E finalmente: o sofrimento não terá a última palavra. Jesus terá.

 

Mas Talvez A Pergunta Mais Importante Seja Outra

Começamos perguntando: “Se Deus é bom, por que coisas ruins acontecem?” Mas talvez precisemos terminar fazendo outra pergunta: “Quando coisas ruins acontecerem, para onde eu vou correr?”

Você pode permitir que a dor o afaste de Deus. Ou pode fazer como Marta e Maria. Elas estavam feridas. Tinham perguntas. Não entendiam o que Jesus havia feito. Mas continuaram indo em direção a Ele.

Talvez você esteja vivendo algo que não consegue explicar. Talvez carregue uma pergunta que ninguém conseguiu responder. Talvez alguma coisa tenha acontecido e mudado completamente sua história.

Você não precisa fingir que entendeu tudo. Mas também não precisa atravessar isso sozinho. Jesus continua dizendo: “Eu sou a ressurreição e a vida.”

Nossa esperança não está na promessa de uma vida sem problemas. Nossa esperança está em uma Pessoa que venceu a morte.

 

Conclusão

Esta série se chama: QUANDO A VIDA PERGUNTA... A BÍBLIA RESPONDE.

E hoje a vida perguntou: “Se Deus é bom, por que coisas ruins acontecem?”

A Bíblia não nos oferece uma resposta superficial. Ela nos apresenta uma grande história.

Um mundo criado bom. Um mundo quebrado pelo pecado. Um Salvador que entrou nesse mundo. Uma cruz onde Deus enfrentou o pecado. Um túmulo vazio onde Cristo derrotou a morte.

E uma promessa: um dia todas as coisas serão restauradas.

Se Deus fosse indiferente ao sofrimento humano, não haveria cruz. Se Deus tivesse abandonado a humanidade, não haveria Salvador. Se a morte tivesse vencido, ainda haveria um corpo no túmulo.

Mas o túmulo está vazio. Cristo ressuscitou.

Por isso existe esperança mesmo quando existem perguntas. Talvez você não saiba por que determinada coisa aconteceu. Mas pode saber quem estará ao seu lado enquanto atravessa aquilo que aconteceu.

Talvez hoje Deus não esteja dando a você todas as explicações que gostaria de receber. Talvez Ele esteja oferecendo algo ainda mais precioso: Sua presença.

O salmista não disse: “Ainda que eu nunca passe pelo vale...” Ele disse: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.”

A promessa não é ausência de vale. A promessa é presença no vale.

E quando finalmente chegarmos ao último capítulo da história, descobriremos que aquilo que parecia ser o fim era apenas uma página.

Porque, para quem está em Cristo, a última palavra não será sofrimento. A última palavra não será doença. A última palavra não será decepção. A última palavra não será sepultura. A última palavra será vida.

Porque Jesus declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida.”

 

Chamado Final

Talvez alguém esteja perguntando hoje:

“Deus ainda está comigo?” Corra para Cristo.

Talvez você esteja ferido. Corra para Cristo.

Talvez esteja decepcionado. Corra para Cristo.

Talvez não entenda o que aconteceu. Corra para Cristo.

Não esconda sua dor de Deus. Entregue-a a Ele.

E talvez haja alguém que nunca entregou verdadeiramente sua vida a Jesus.

O Evangelho não promete uma existência sem sofrimento neste mundo. O Evangelho promete algo infinitamente maior: perdão dos pecados, reconciliação com Deus, presença de Cristo durante esta vida e vida eterna quando esta vida terminar.

Hoje você pode entregar sua história — inclusive suas perguntas, suas feridas e suas lágrimas — nas mãos de Jesus.

Porque talvez você ainda não consiga compreender tudo o que aconteceu. Mas pode confiar naquele que morreu por você, ressuscitou por você e prometeu fazer novas todas as coisas.

 

“Quando a vida levantar suas perguntas, não precisamos construir respostas apenas a partir daquilo que pensamos ou sentimos. Podemos voltar para a Palavra, porque, quando a vida pergunta, a Bíblia responde.”

 

Deus te abençoe!

Pastor Sérgio Luis