A PATERNIDADE QUE GERA CURA — PARTE 3
Filhos curados revelam o coração do Pai
Nas duas primeiras partes desta série, percorremos um caminho
importante. Primeiro, vimos que a paternidade de Deus alcança nossa identidade
e nos conduz da sensação de orfandade para a consciência de que, em Cristo,
fomos recebidos como filhos. Depois, avançamos para a comunhão com o Pai,
compreendendo que não fomos chamados apenas para saber que somos filhos, mas
para viver como filhos, em dependência, obediência, oração, intimidade e
presença. Agora chegamos a uma terceira questão: o que acontece conosco
quando começamos verdadeiramente a ser curados pela paternidade de Deus?
A resposta não pode terminar apenas em nós. A cura que vem do Pai
precisa alcançar nossa maneira de tratar pessoas, construir relacionamentos,
exercer autoridade, criar filhos, discipular, liderar, perdoar, corrigir,
afirmar e amar. Uma das grandes evidências de que estamos sendo curados não
é apenas conseguir falar sobre nossas feridas sem tanta dor, mas deixar de
reproduzir nos outros aquilo que um dia nos feriu.
Existem pessoas que foram profundamente machucadas por seus pais e,
mesmo sem perceber, acabam repetindo padrões semelhantes em seus próprios
relacionamentos. Nem sempre repetem exatamente os mesmos comportamentos; às
vezes, reproduzem as consequências daquilo que viveram. Quem cresceu sob
rejeição pode tornar-se excessivamente defensivo. Quem recebeu pouco afeto pode
ter dificuldade para demonstrá-lo. Quem foi criado debaixo de cobranças pode
tornar-se alguém que cobra demais. Quem viveu abandono pode desenvolver medo de
vínculos profundos. Quem nunca foi ouvido pode não saber ouvir.
Por isso, a cura produzida pelo Pai não consiste apenas em tratar a
lembrança daquilo que aconteceu. Ela precisa também alcançar aquilo que
aconteceu dentro de nós por causa daquilo que vivemos.
“Deus não deseja somente aliviar nossa dor; deseja transformar nossa
maneira de viver.”
Nossas feridas não podem se tornar herança para outras pessoas
Uma das verdades mais difíceis de reconhecer é que pessoas feridas podem
ferir. Nem sempre porque desejam fazer o mal, mas porque aprenderam a
sobreviver de determinada maneira. Alguém que cresceu em uma casa onde emoções
nunca eram expressas pode ter aprendido que demonstrar fraqueza era perigoso.
Tornou-se forte, independente e resistente, talvez porque isso fosse necessário
para atravessar aquela fase da vida. Anos depois, porém, aquilo que um dia
serviu como mecanismo de proteção pode tornar-se um obstáculo para
relacionamentos saudáveis.
Essa pessoa pode amar profundamente o cônjuge e os filhos e, ainda
assim, não conseguir demonstrar. Pode sentir, mas não falar. Pode preocupar-se,
mas não abraçar. Pode desejar proximidade e não saber construí-la. Em outros
casos, alguém cresceu debaixo de um pai autoritário e prometeu a si mesmo que
jamais seria como ele. Entretanto, diante de conflitos, percebe que palavras,
tons de voz e reações semelhantes começam a aparecer.
Reconhecer isso pode ser doloroso, mas também pode ser o início de uma
transformação profunda, porque aquilo que reconhecemos diante de Deus pode ser
tratado por Ele. Nossa história pode explicar algumas de nossas reações, mas
não precisa determinar definitivamente como continuaremos vivendo.
Em Cristo, ciclos podem ser interrompidos e novas formas de
relacionamento podem ser aprendidas.
O Pai não nos cura apenas do que recebemos, mas também do que aprendemos
a repetir
Efésios 5:1-2 apresenta uma verdade extraordinária:
“Sede, pois, imitadores de Deus, como
filhos amados; e andai em amor.”
A ordem é importante. Paulo não diz que devemos imitar Deus para nos
tornarmos filhos, mas que, por sermos filhos amados, somos chamados a refletir
seu caráter.
Isso muda profundamente a maneira como compreendemos transformação. A
vida cristã não é uma tentativa desesperada de conquistar a aprovação de Deus,
mas o processo pelo qual filhos recebidos pela graça começam a aprender a viver
como o Pai deseja. Não tentamos parecer com Deus para conseguir um lugar em sua
família; aprendemos a parecer com Ele porque fomos recebidos nela.
Por isso, chega um momento em que já não basta perguntar por que nosso
pai agiu de determinada maneira ou por que determinadas coisas aconteceram
conosco. Precisamos também perguntar: “Pai, como o Senhor deseja me ensinar
a viver de maneira diferente?”
A cura não consiste apenas em olhar para trás e compreender nossa
história, mas também em permitir que Deus transforme nossa maneira de viver
daqui para frente.
Quem recebe a afirmação do pai começa a aprender a afirmar
Uma das cenas mais marcantes dos Evangelhos acontece no batismo de
Jesus.
Mateus 3:17 registra:
“Este é o
meu Filho amado, em quem me comprazo.”
O texto possui uma importância única na identidade e na missão de
Cristo, mas também revela algo precioso sobre o coração do Pai: Ele fala,
afirma, expressa amor e declara prazer no Filho.
Isso nos leva a pensar em quantas pessoas passaram anos esperando ouvir
palavras de afirmação que nunca vieram. “Eu amo você”, “tenho orgulho de você”,
“você é importante para mim”, “estou com você”. A ausência dessas palavras pode
deixar marcas profundas, especialmente quando a criança cresce sem saber se é
realmente vista, valorizada ou aceita.
O problema é que pessoas que sofreram com a falta de afirmação podem
crescer e repetir o mesmo silêncio. Sentem amor, mas não expressam. Reconhecem
qualidades, mas não dizem. Têm orgulho, mas permanecem caladas. A cura do Pai
começa também a nos ensinar uma nova linguagem, na qual as palavras deixam de
ser instrumentos de crítica constante e passam a ser usadas para construir,
encorajar e transmitir segurança.
Provérbios 18:21 afirma que “a morte e a vida estão no poder da
língua.” Isso significa que aquilo que dizemos pode ferir profundamente,
mas também pode cooperar para restaurar. Pode ser que alguém não tenha ouvido
tudo o que gostaria de ter ouvido durante sua infância, mas isso não significa
que sua boca precise continuar reproduzindo o mesmo silêncio. Uma geração pode
começar a mudar quando alguém decide falar aquilo que antes nunca foi dito.
Quem conhece a presença do Pai aprende a ser presente
Na segunda parte desta série, vimos que a paternidade de Deus não é
apenas uma doutrina, mas relacionamento e presença.
Em João 14:18, Jesus declarou: “Não vos deixarei órfãos.”
A promessa do Espírito Santo revela que Deus não nos recebe em sua
família para depois nos abandonar. Sua presença acompanha seus filhos.
Essa verdade possui uma aplicação profunda para nossos relacionamentos,
especialmente dentro de casa. Existe diferença entre prover e estar presente.
Muitos pais trabalham duramente para sustentar suas famílias, e isso é honroso
e necessário, mas filhos não precisam apenas de provisão. Precisam de atenção,
conversa, tempo, escuta e proximidade.
É possível pagar contas, oferecer uma boa educação e ainda assim estar
emocionalmente distante. É possível viver debaixo do mesmo teto sem conhecer
verdadeiramente aquilo que se passa no coração de um filho. É possível amar
sinceramente e, ainda assim, não conseguir transmitir presença.
A paternidade de Deus nos ensina que relacionamento envolve proximidade.
Se o Pai decidiu estar conosco, precisamos avaliar se as pessoas que amamos
conseguem perceber que também estamos com elas. Às vezes, a presença que faltou
em nossa história precisa começar a existir através de nós.
Filhos curados não transformam amor em recompensa
Algumas pessoas cresceram aprendendo que o amor precisava ser
conquistado. Quando acertavam, eram elogiadas; quando decepcionavam,
experimentavam silêncio, rejeição ou distância. Assim, aprenderam pouco a pouco
que seriam amadas enquanto correspondessem às expectativas.
Quando essa lógica entra na vida espiritual, a relação com Deus também
começa a ser marcada pelo desempenho. A pessoa ora com confiança quando sente
que está vivendo bem, mas se afasta quando falha. Imagina que precisa primeiro
compensar seus erros antes de aproximar-se novamente do Pai.
O Evangelho rompe essa lógica. Romanos 5:8 declara: “Mas Deus prova o
seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo
nós ainda pecadores.” Deus não esperou que nos tornássemos dignos para nos
amar.
Isso não significa ausência de correção. Hebreus 12 mostra que o Pai
disciplina aqueles que ama. A diferença está em compreender que disciplina não
é rejeição e que correção não significa abandono. Um pai saudável consegue
dizer “isso está errado” sem transmitir “você não é mais amado”. Essa distinção
é extremamente importante para pessoas que aprenderam a associar correção à
perda do amor.
A paternidade de Deus nos ensina que é possível corrigir sem humilhar,
confrontar sem destruir e estabelecer limites sem retirar segurança relacional.
A cura nos ensina a estabelecer limites sem cultivar vingança
Quando falamos sobre cura da paternidade, precisamos evitar dois
extremos. O primeiro é viver aprisionado ao ressentimento; o segundo é
acreditar que perdão exige retornar imediatamente a qualquer relacionamento,
mesmo quando ele continua sendo abusivo ou destrutivo.
Perdoar não significa considerar correto aquilo que foi feito. Também
não significa negar a gravidade da ferida, eliminar consequências ou permitir
que alguém continue nos machucando.
“Perdoar
significa entregar a Deus o direito de vingança e recusar-se a permitir que o
mal continue governando nosso coração.”
Existem situações em que a reconciliação pode acontecer. Em outras, será
necessário tempo. Alguns relacionamentos poderão ser reconstruídos lentamente
e, em determinados casos, limites claros serão indispensáveis. Há situações
graves em que manter certa distância pode ser necessário para preservar
integridade e segurança.
A maturidade está em aprender a amar sem ingenuidade, a perdoar sem
negar a verdade e a estabelecer limites sem alimentar ódio. Filhos curados não
precisam escolher entre submissão destrutiva e vingança; podem aprender um
caminho marcado por verdade, graça e sabedoria.
Quem recebe misericórdia começa a distribuir misericórdia
Em Mateus 18, Jesus conta a história de um homem que recebeu o perdão de
uma dívida enorme, mas depois recusou-se a perdoar alguém que lhe devia muito
menos. A parábola confronta nossa tendência de desejar misericórdia para nós
mesmos e justiça implacável para os outros.
O Evangelho não permite que permaneçamos dessa maneira. Quando começamos
a compreender a dimensão da misericórdia que recebemos, alguma coisa precisa
mudar na forma como tratamos pessoas. Isso não significa relativizar o pecado
ou ignorar responsabilidades, mas lembrar que nós também dependemos diariamente
da graça.
Pessoas que estão sendo curadas começam a perder o prazer de humilhar,
não precisam vencer todas as discussões e deixam de utilizar os erros do
passado como instrumentos de controle. A consciência da graça recebida começa a
produzir graça no relacionamento com os outros. A cura da paternidade não nos
torna pessoas frágeis ou sem firmeza, mas pessoas capazes de unir verdade e
misericórdia.
O Pai nos ensina a escutar
Uma das necessidades mais profundas do coração humano é ser ouvido.
Muitas pessoas cresceram tentando falar e encontrando respostas como “isso não
é nada”, “pare de chorar”, “você está exagerando” ou “não tenho tempo para
isso”. Com o passar dos anos, aprenderam a guardar aquilo que sentiam.
Entretanto, a Bíblia apresenta Deus como aquele que ouve. O Salmo 116:1
declara: “Amo o SENHOR, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas.”
Deus não é indiferente ao clamor de seus filhos, e essa realidade também
precisa ensinar-nos algo sobre a maneira como tratamos as pessoas.
Pais precisam ouvir filhos. Cônjuges precisam aprender a escutar um ao
outro. Líderes precisam ouvir aqueles que cuidam. Amigos precisam oferecer
espaço para que sentimentos sejam expressos. Nem sempre ouvir significa
concordar, nem sempre significa possuir uma solução imediata, mas muitas vezes
a presença de alguém que realmente escuta já faz parte do processo de cura.
O Pai nos cura para que não exerçamos autoridade como quem nos feriu
Feridas paternas frequentemente estão ligadas ao uso errado da
autoridade. Algumas pessoas cresceram debaixo de controle excessivo, outras
foram humilhadas, manipuladas ou intimidadas. Assim, aprenderam que autoridade
significa força, imposição e medo.
Jesus apresenta um modelo diferente. Em Marcos 10:42-45, ao falar sobre
a maneira como governantes exercem domínio, Ele declara aos discípulos: “Mas
entre vós não é assim.” No Reino de Deus, autoridade não existe para
esmagar, mas para servir.
Essa verdade possui implicações importantes para pais, pastores,
líderes, professores e qualquer pessoa que exerça influência. Autoridade cristã
não deve produzir medo constante, nem utilizar manipulação como instrumento de
controle. Também não deve exigir lealdade cega ou transformar pessoas em
ferramentas para projetos pessoais.
Jesus demonstrou sua autoridade servindo. Por isso, filhos curados
precisam aprender que poder e influência não existem para compensar
inseguranças interiores. Existem para cuidar, formar, orientar e servir.
Filhos curados podem tornar-se pais diferentes
Paulo escreveu aos coríntios:
“Porque,
ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo,
muitos pais.”
A declaração de 1 Coríntios 4:15 mostra que a paternidade também possui
uma dimensão espiritual.
Nem todos serão pais biológicos, mas todos podemos influenciar pessoas.
Podemos acompanhar, discipular, afirmar, corrigir, encorajar, proteger e
formar. Dentro da família de Deus, pessoas que nunca tiveram uma referência
paterna saudável podem encontrar relacionamentos maduros nos quais cuidado,
verdade, equilíbrio e graça estejam presentes.
Nenhuma pessoa deve ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao Pai
celestial, mas Deus pode utilizar relacionamentos saudáveis como instrumentos
de restauração. É possível, portanto, que alguém profundamente ferido pela
paternidade humana, depois de ser tratado pelo Pai, torne-se instrumento de
cura para outras pessoas. Aquilo que parecia ser apenas uma história de dor
pode tornar-se parte de um testemunho de redenção.
Chega um momento em que precisamos deixar de perguntar apenas o que
fizeram conosco
Perguntar o que aconteceu conosco é importante. Existem dores que
precisam ser reconhecidas, acontecimentos que precisam ser nomeados e
injustiças que não devem ser minimizadas. Entretanto, chega um momento no
processo de cura em que não podemos permanecer apenas olhando para aquilo que
perdemos.
Deus começa então a conduzir-nos para outra pergunta: o que faremos
agora com aquilo que recebemos dele? Essa mudança é importante porque,
enquanto permanecemos concentrados apenas naquilo que nos faltou, o passado
continua ocupando grande espaço na definição do nosso presente.
Pode ser que alguém nunca tenha recebido afirmação, mas pode aprender a
afirmar. Pode ter crescido sem presença e tornar-se presente. Pode ter
conhecido dureza e aprender ternura. Pode ter experimentado rejeição e passar a
criar ambientes de acolhimento. Pode ter sido marcado por palavras destrutivas
e decidir que sua boca será instrumento de vida.
“A cura
começa a alcançar maturidade quando aquilo que recebemos do Pai começa a
alcançar outras pessoas através de nós.”
Não somos condenados a repetir nossa história
Algumas pessoas carregam um medo silencioso de repetir aquilo que
viveram. Perguntam-se se um dia acabarão se tornando iguais àqueles que as
feriram ou se reproduzirão em seus filhos aquilo que receberam dos próprios
pais.
Essa preocupação pode ser real, mas não precisa tornar-se sentença.
Paulo escreve em 2 Coríntios 5:17: “E, assim, se alguém está em Cristo, é
nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”
Isso não significa que todas as consequências emocionais desaparecem
automaticamente, nem que não haverá luta. Também não elimina a necessidade de
reconhecer padrões, buscar ajuda, confessar pecados e reaprender
comportamentos. Significa, porém, que nosso passado já não possui autoridade
absoluta para determinar nosso futuro.
O Espírito Santo trabalha em nós, a Palavra reorganiza nossa maneira de
pensar e relacionamentos saudáveis podem ensinar-nos novas formas de viver. Aos
poucos, padrões antigos podem perder força. Quando percebemos algo do passado
aparecendo em nossas reações, não precisamos negar nem justificar. Podemos
reconhecer, levar a Deus, pedir perdão quando necessário e recomeçar.
Pedir perdão também é uma forma de paternidade saudável
Alguns pais imaginam que pedir perdão aos filhos enfraquece sua
autoridade. Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário. Quando um
pai consegue dizer “eu errei”, “não deveria ter falado daquela maneira” ou
“perdoe-me”, está ensinando algo extremamente importante.
Ele demonstra que autoridade não significa infalibilidade, que humildade
não diminui ninguém e que arrependimento faz parte da vida cristã. Nenhum pai
será perfeito, mas pode ser ensinável, reconhecer quando erra e permitir que
Deus continue transformando sua maneira de relacionar-se com os filhos.
Filhos não precisam de pais que aparentem nunca falhar. Precisam de pais
que não utilizem sua autoridade para fingir que nunca falham.
A cura da paternidade precisa alcançar nossa casa
Às vezes é mais fácil demonstrar maturidade fora de casa. Podemos ser
pacientes com pessoas da igreja, gentis com conhecidos e atenciosos com
visitas. Entretanto, é no cotidiano da família que nossos padrões mais
profundos aparecem.
Por isso, a cura da paternidade precisa alcançar a mesa, a conversa, o
casamento, a maneira como corrigimos os filhos, o tom de voz que utilizamos, o
tempo que dedicamos, a forma como reagimos diante dos erros e nossa capacidade
de pedir perdão.
Não adianta falar sobre o amor do Pai em público e construir dentro de
casa um ambiente de medo. Não adianta ensinar graça e viver dominado pela
cobrança. Não adianta pregar reconciliação e recusar diálogo. Nossa casa
precisa tornar-se um dos primeiros lugares onde a transformação produzida pelo
Evangelho se torna visível.
Filhos curados não são filhos perfeitos
Também precisamos evitar uma nova forma de cobrança. Ao compreender tudo
isso, alguém pode começar a pensar que agora precisa acertar sempre ou
tornar-se completamente diferente de uma vez. Essa expectativa novamente nos
coloca no terreno do desempenho.
A cura é um processo. Há padrões construídos durante décadas que não
desaparecerão em poucos dias. Algumas reações podem voltar, algumas feridas
podem novamente doer e determinadas conversas continuarão sendo difíceis. Isso
não invalida aquilo que Deus está fazendo.
A diferença é que antes talvez repetíssemos determinados comportamentos
sem percebê-los. Agora começamos a reconhecê-los. Antes justificávamos nossas
reações; agora aprendemos a confessá-las. Antes responsabilizávamos apenas os
outros; agora permitimos que Deus trabalhe também em nós.
Maturidade não significa ausência de processo, mas disposição contínua
para ser transformado.
A cura pode alcançar gerações que ainda nem nasceram
Existe algo profundamente belo quando uma pessoa decide interromper um
ciclo. Alguém que cresceu em um ambiente marcado por violência pode construir
uma casa de paz. Quem conheceu abandono pode tornar-se presença constante. Quem
nunca recebeu afeto pode aprender a abraçar. Quem cresceu ouvindo palavras
destrutivas pode decidir abençoar seus filhos.
Talvez a geração seguinte nunca compreenda completamente aquilo que foi
necessário para que essa mudança acontecesse, e isso não é um problema. Uma das
maiores vitórias da cura é justamente quando os filhos não precisam conhecer as
mesmas dores para entender o valor daquilo que receberam.
Deus pode usar uma pessoa para interromper padrões que atravessaram
décadas. A história não precisa continuar sempre da mesma maneira. A
restauração de uma pessoa pode mudar profundamente aquilo que será transmitido
às próximas gerações.
Filhos curados revelam o Pai
Jesus declarou em Mateus 5:16:
“Assim
brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas
obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”
O destino das boas obras é a glória do Pai.
Nossa transformação, portanto, não termina em nós. Quando alguém
encontra em nossa vida graça, fidelidade, verdade, misericórdia, presença,
perdão e amor, deveria conseguir perceber algo daquele que está nos formando.
É por isso que a cura da paternidade também possui uma dimensão
missionária.
Pessoas precisam encontrar cristãos cuja vida torne o caráter do Pai
mais compreensível. Pais que amem, líderes que sirvam, homens e mulheres que
sejam presentes, irmãos que caminhem em aliança e pessoas que saibam corrigir
sem destruir, perdoar sem negar a verdade e amar sem controlar.
Essas vidas tornam-se testemunhos do Pai.
A cura que recebemos precisa transbordar
Pode ser que você tenha chegado a esta série pensando principalmente
naquilo que precisava receber. Isso é legítimo.
Existem feridas que precisam ser cuidadas, ausências que precisam ser
choradas e histórias que precisam ser revisitadas diante de Deus. Entretanto, o
Pai não deseja apenas curar nossa dor; deseja transformar nossa história em
fonte de vida para outras pessoas.
Na primeira parte desta série, a pergunta era: “Quem sou diante de
Deus?” Em Cristo, descobrimos que nossa identidade não precisa permanecer presa
à orfandade.
Na segunda parte, perguntamos como devemos viver sabendo que Deus é
nosso Pai e vimos que filhos são chamados à comunhão, dependência, oração,
obediência e missão.
Agora a pergunta é diferente: o que nossa cura produzirá na vida das
pessoas que estão ao nosso redor?
A paternidade que gera cura não termina quando a dor diminui ou quando
conseguimos falar sobre o passado com mais serenidade. Ela também não termina
quando compreendemos intelectualmente que Deus é Pai. A cura continua enquanto
aquilo que recebemos dele começa a transformar nossa maneira de viver e
alcançar outras pessoas.
Curados para começar uma história diferente
Talvez não seja possível mudar a história que recebemos. Não podemos
voltar à infância, reconstruir todos os momentos perdidos ou ouvir determinadas
palavras exatamente quando precisávamos ouvi-las. Alguns abraços não
aconteceram, algumas conversas não poderão ser refeitas e certos momentos não
retornarão.
Entretanto, existe algo que pode mudar: a história que continuará depois
de nós.
Uma pessoa pode ter recebido rejeição e aprender a transmitir aceitação.
Pode ter vivido frieza e começar a oferecer afeto. Pode ter conhecido ausência
e tornar-se presença. Pode ter crescido debaixo de medo e construir segurança.
Pode ter ouvido palavras destrutivas e decidir que sua boca será instrumento de
vida. Pode ter aprendido controle e passar a exercer autoridade através do
serviço.
Isso não significa negar o passado. Significa reconhecer que o passado
não precisa ter a palavra final.
A redenção torna-se visível quando Deus não apenas cura aquilo que
aconteceu conosco, mas transforma nossa vida de maneira que aquilo que
aconteceu conosco deixe de determinar aquilo que acontecerá através de nós.
Quando o Pai cura um filho, talvez esteja fazendo muito mais do que
restaurando uma única pessoa. Pode estar interrompendo uma sequência de feridas
que atravessaria gerações. Pode estar restaurando uma família, formando uma
maneira diferente de exercer paternidade, construindo outra forma de liderar e
preparando alguém para tornar-se instrumento de cura na vida de muitas pessoas.
Por isso, a cura pode parecer profundamente pessoal no início, mas seus
frutos podem chegar muito mais longe. Filhos curados podem construir famílias
diferentes, formar discípulos diferentes, exercer autoridade de maneira
diferente e interromper ciclos que pareciam destinados a continuar.
Acima de tudo, filhos curados podem revelar ao mundo algo do coração do
Pai.
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis

