VENCENDO A APOSTASIA
Como reconhecer o processo de afastamento e permanecer fiel a Cristo
“Por que,
pois, se desvia este povo de Jerusalém com uma apostasia contínua? Persiste no
engano e não quer voltar.”
Jeremias 8:5
A apostasia é um assunto sério demais para ser tratado apenas como uma
realidade distante, relacionada exclusivamente às pessoas que algum dia
professaram a fé cristã e depois declararam publicamente não acreditar mais.
Nas Escrituras, o afastamento de Deus geralmente aparece como um
processo. Antes de existir abandono visível, muitas vezes já houve afastamento
interior; antes de alguém rejeitar publicamente a verdade, seu coração pode ter
começado a resistir silenciosamente a ela. Pequenas concessões tornam-se
hábitos, convicções começam a ser relativizadas, a consciência perde
gradativamente sua sensibilidade e, pouco a pouco, aquilo que antes seria
imediatamente reconhecido como incompatível com a vontade de Deus passa a
encontrar justificativas dentro de nós.
Jeremias 8:5-12 apresenta um diagnóstico impressionante desse processo.
O profeta não está falando a uma nação que jamais conheceu Deus. Judá possuía
história com o Senhor, conhecia sua Lei, tinha sacerdotes, profetas, estruturas
religiosas e memória de grandes acontecimentos espirituais. Mesmo assim, o povo
havia se afastado. Isso nos ensina que experiências passadas não substituem
fidelidade presente. Uma pessoa pode ter conhecido dias extraordinários com
Deus, possuir profundo conhecimento bíblico, ter servido durante muitos anos e
ainda assim precisar guardar constantemente seu coração para não se afastar
daquele que um dia decidiu seguir.
O que mais chama a atenção na denúncia de Jeremias não é simplesmente
que o povo havia errado. Todos nós podemos tropeçar e necessitamos
continuamente da graça de Deus. O problema aparece na expressão utilizada pelo
profeta: eles persistiam no engano e “não queriam voltar”.
Existe uma grande diferença entre quem cai e deseja levantar-se e quem
começa a construir argumentos para permanecer onde caiu. Enquanto existe
arrependimento, ainda há um coração respondendo à voz de Deus. O grande perigo
começa quando passamos a chamar resistência de convicção, desobediência de
liberdade e afastamento de amadurecimento espiritual.
Por isso, estudar as causas da apostasia de Judá não deveria nos levar
principalmente a apontar para os outros. O texto nos convida a olhar para
dentro e perguntar se determinados processos que destruíram aquela geração
poderiam também começar a encontrar espaço em nós.
A grande questão não é apenas saber quem está se afastando da fé, mas
examinar continuamente se o nosso próprio coração continua rendido a Cristo.
Quando
deixamos de examinar nossos próprios caminhos
Jeremias declara no versículo 6:
“Eu escutei e ouvi; não falam o que é reto; ninguém há que se arrependa
da sua maldade, dizendo: Que fiz eu?”
Essa pequena pergunta — “Que fiz eu?” — revela uma das primeiras
coisas que aquele povo havia perdido: a capacidade de considerar honestamente
suas próprias ações.
Em praticamente todas as áreas da vida reconhecemos a necessidade de
avaliação. Se tomamos uma estrada errada e percebemos que estamos nos
distanciando do destino, procuramos fazer o retorno. Quando uma decisão
profissional começa a produzir consequências ruins, normalmente paramos para
reconsiderá-la. Se um comportamento prejudica nossa saúde, procuramos modificar
hábitos. Estranhamente, porém, podemos deixar de exercer esse mesmo senso de
responsabilidade quando se trata da vida espiritual. Percebemos que alguma
coisa está nos afastando de Deus, mas continuamos; notamos que determinados
ambientes enfraquecem nossas convicções, mas insistimos em frequentá-los;
reconhecemos que uma prática está roubando nossa comunhão, mas passamos a
justificá-la em vez de abandoná-la.
Jeremias descreve o povo seguindo seu próprio caminho como um cavalo
que se lança impetuosamente para a batalha. A imagem é forte porque
apresenta movimento e determinação sem discernimento. Uma pessoa pode estar
avançando com grande velocidade e, ainda assim, estar indo na direção errada.
Pode estar extremamente envolvida, ativa e cheia de convicção e, mesmo assim,
precisar parar e perguntar se a direção de sua vida continua correspondendo à
vontade do Senhor.
Provérbios 6:27-28 pergunta se alguém pode carregar fogo junto ao
peito sem que suas roupas se queimem ou caminhar sobre brasas sem que seus pés
sejam chamuscados. Paulo apresenta o mesmo princípio em Gálatas 6:7 ao
declarar que Deus não se deixa escarnecer e que tudo aquilo que o homem
semear, isso também colherá.
A Bíblia nos chama a assumir responsabilidade por nossas escolhas,
porque existem decisões que inevitavelmente produzem consequências. É por isso
que uma das grandes proteções contra o afastamento é conservar um coração que
aceita ser examinado.
Davi orou no Salmo 139 pedindo que Deus sondasse seu coração,
conhecesse seus pensamentos e lhe mostrasse se havia nele algum caminho mau.
Essa oração exige humildade, porque pressupõe admitir que talvez haja em nós
coisas que ainda não conseguimos perceber claramente. A pessoa que deixa de
perguntar “Senhor, o que precisa mudar em mim?” torna-se muito mais vulnerável
a construir uma vida na qual todos os problemas estão sempre nos outros.
Vencer a apostasia começa, portanto, com a disposição de permanecer
corrigível diante de Deus. Não se trata de viver em permanente culpa ou
suspeita sobre si mesmo, mas de manter a consciência aberta à Palavra e ao
Espírito Santo.
Enquanto conseguimos parar, reconhecer, arrepender-nos e mudar de
direção, estamos respondendo à graça daquele que continua nos chamando para
perto.
Quando
possuímos a Bíblia, mas deixamos de ser governados por ela
Jeremias prossegue utilizando uma comparação muito interessante. Ele
afirma que a cegonha conhece seus tempos determinados e que outras aves
reconhecem seus períodos de migração, mas o povo de Deus não reconhecia
corretamente o juízo do Senhor. A própria criação seguia a ordem
estabelecida por Deus, enquanto pessoas que haviam recebido sua revelação
viviam como se não soubessem qual caminho deveriam seguir.
Esse quadro continua profundamente atual. Talvez nunca tenhamos tido
tanto acesso à Bíblia quanto temos hoje. Podemos carregar dezenas de versões
das Escrituras dentro de um telefone, ouvir a Bíblia em áudio, utilizar
comentários, cursos, aplicativos e uma quantidade praticamente interminável de
conteúdo cristão. Entretanto, possuir acesso à Palavra não significa
necessariamente viver debaixo de sua autoridade. Podemos saber onde encontrar
um versículo sem permitir que aquele versículo determine nossas escolhas.
Em Jeremias 8:8, a situação era ainda mais grave. O povo dizia: “Somos
sábios, e a lei do SENHOR está conosco”, mas o profeta denuncia que a falsa
pena dos escribas havia transformado a Lei em mentira. O problema, portanto,
não era somente ausência de conhecimento. Havia também distorção daquilo que
Deus havia revelado. Continuavam utilizando a linguagem da fé e falando sobre a
Lei, mas o conteúdo havia sido manipulado.
Esse talvez seja um dos tipos mais perigosos de engano espiritual,
porque nem toda mentira religiosa aparece declarando guerra aberta contra a
Bíblia. Algumas se apresentam carregando versículos. É possível retirar uma
frase de seu contexto, construir uma doutrina sobre textos isolados ou começar
com uma conclusão que desejamos defender e somente depois procurar passagens
que aparentemente a sustentem. A presença de linguagem bíblica não garante
fidelidade bíblica.
É por isso que Atos 17:11 elogia os bereanos. Eles receberam a
mensagem com interesse, mas examinavam diariamente as Escrituras para verificar
se aquilo que estavam ouvindo realmente correspondia à verdade. Não eram
resistentes à Palavra; exatamente porque a valorizavam, examinavam aquilo que
lhes era ensinado. Da mesma maneira, Paulo orientou Timóteo a manejar
corretamente a Palavra da verdade.
A Igreja torna-se vulnerável ao afastamento quando a Bíblia permanece
presente nos cultos, mas perde sua autoridade nas decisões. Podemos colocá-la
sobre o púlpito e, ao mesmo tempo, deixar que nossa vida seja governada pela
cultura, pela conveniência, pelas emoções ou pelos interesses pessoais. Podemos
defender verbalmente a autoridade das Escrituras enquanto selecionamos apenas
aquilo que estamos dispostos a obedecer.
Uma fé saudável exige mais do que familiaridade com a Palavra. Exige
submissão. Precisamos lê-la não apenas para encontrar confirmação para aquilo
que já pensamos, mas também com disposição para permitir que ela confronte
nossas ideias. Quando a Bíblia diz algo diferente daquilo que desejávamos
ouvir, a pergunta fundamental passa a ser quem terá a palavra final.
“O grande perigo começa quando deixamos de ajustar nossa vida às
Escrituras e começamos a tentar ajustar as Escrituras à nossa vida.”
Quando
outros desejos começam a disputar o lugar que pertence a Deus
No versículo 10, Jeremias identifica outra raiz do problema:
“Desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à ganância; e, desde o
profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade.”
A crise havia alcançado também aqueles que deveriam conduzir
espiritualmente o povo. Isso nos mostra que apostasia não é apenas um problema
de interpretação doutrinária. Muitas vezes, existe por trás do abandono da
verdade um coração que deseja algo que não pretende entregar.
A cobiça possui essa capacidade. Paulo adverte em 1 Timóteo 6:10 que o
amor ao dinheiro é raiz de todos os tipos de males e acrescenta que, por causa
dessa cobiça, alguns se desviaram da fé. Não é difícil perceber a relação.
Quando permanecer fiel a Cristo começa a custar aquilo que valorizamos mais do
que Ele, descobrimos onde nossa lealdade realmente está.
O encontro de Jesus com o jovem rico ilustra isso de maneira muito
clara. Aquele homem conhecia os mandamentos, possuía uma vida moralmente
respeitável e demonstrava interesse pela vida eterna. Entretanto, quando Jesus
tocou exatamente na área que governava seu coração, ele se retirou
entristecido. O problema não era simplesmente possuir bens, pois as Escrituras
apresentam pessoas que possuíam recursos e serviam fielmente a Deus. O problema
era que suas riquezas haviam assumido uma posição que ele não estava disposto a
entregar.
A cobiça, porém, é muito mais ampla do que dinheiro. Podemos ser
dominados pelo desejo de reconhecimento, influência, prestígio, poder, prazer,
segurança ou controle. Até mesmo coisas ligadas ao ministério podem tornar-se
concorrentes de Cristo. Uma pessoa pode começar desejando servir e, com o
passar do tempo, tornar-se dependente de aplausos, posições ou reconhecimento.
Pode continuar falando sobre Deus enquanto, silenciosamente, seu coração passou
a viver para proteger a própria imagem.
Colossenses 3:5 chama a avareza de idolatria justamente porque o
problema fundamental do ídolo não é sua forma exterior, mas o lugar que ocupa.
Tudo aquilo que se torna indispensável para nossa identidade, segurança ou
felicidade a ponto de não estarmos dispostos a entregá-lo a Deus corre o risco
de assumir uma posição que não lhe pertence.
Por isso, uma das perguntas que precisamos fazer diante do perigo do
afastamento é se alguma coisa começou a tornar-se mais preciosa do que a
fidelidade a Cristo. Em algumas situações, não abandonamos Deus porque deixamos
de acreditar intelectualmente nele, mas porque encontramos algo que desejamos
manter mesmo sabendo que é incompatível com sua vontade.
Quando
preferimos mensagens confortáveis à verdade que transforma
Jeremias chega então a uma das denúncias mais fortes do texto:
“Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando
não há paz”. Jeremias
8:11
A nação estava espiritualmente enferma, mas aqueles que deveriam
ajudá-la ofereciam um diagnóstico tranquilizador. Em vez de confrontar o pecado
e chamar ao arrependimento, anunciavam segurança.
Esse é um perigo permanente para qualquer geração. Existe uma enorme
diferença entre consolar alguém com a verdade e tranquilizá-lo através de uma
mentira. A graça de Deus consola profundamente, mas nunca precisa esconder
nossa verdadeira condição para fazê-lo. O mesmo Jesus que acolheu pecadores
também os chamou a uma vida nova.
A expressão “curam superficialmente” é especialmente significativa.
Algumas feridas exigem tratamento profundo. Quando apenas cobrimos os sintomas
sem enfrentar a causa, o problema permanece. Espiritualmente, isso acontece
quando transformamos a mensagem cristã apenas em uma maneira de fazer as
pessoas se sentirem melhores sem conduzi-las à transformação.
Podemos falar sobre promessas e nunca falar sobre arrependimento,
anunciar bênçãos sem mencionar obediência e apresentar um Cristo que resolve
problemas sem explicar que Ele também é Senhor. O resultado pode ser uma fé
extremamente confortável, mas incapaz de confrontar aquilo que está destruindo
nosso relacionamento com Deus.
Paulo perguntou aos gálatas:
“Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?” Gálatas
4:16
A pergunta continua atual porque a verdade nem sempre será agradável no
primeiro momento. João 8:31-32 mostra Jesus dizendo que aqueles que
permanecessem em sua Palavra conheceriam a verdade e que a verdade os
libertaria. Essa verdade liberta, mas algumas vezes precisa primeiro revelar as
prisões que preferiríamos não reconhecer.
Por isso, não deveríamos avaliar o valor de uma mensagem simplesmente
pelo conforto emocional que ela produz. Existem palavras que nos incomodam
justamente porque estão alcançando áreas que precisam mudar. A pergunta mais
importante não é apenas “essa mensagem me agradou?”, mas “essa mensagem é fiel
às Escrituras e está me conduzindo a Cristo?”.
O problema de Judá foi encontrar vozes dispostas a dizer aquilo que o
povo desejava ouvir. Séculos depois, Paulo advertiria Timóteo sobre um tempo em
que as pessoas não suportariam a sã doutrina e procurariam mestres segundo seus
próprios desejos. Ainda existiria interesse por mensagens e mestres; o problema
seria o critério utilizado para escolhê-los. Em vez de buscar a verdade,
procurariam confirmação para suas preferências.
Quando a
consciência começa a perder a sensibilidade diante do pecado
Jeremias 8:12 apresenta talvez o estágio mais alarmante do processo:
“Cometeram abominação e de maneira nenhuma se envergonham, nem sabem que
coisa é envergonhar-se.”
O povo já não possuía apenas comportamentos errados; havia perdido a
sensibilidade diante deles.
Existe uma diferença entre pecar e fazer paz com o pecado. Um discípulo
de Jesus pode tropeçar, falhar e até atravessar momentos graves de fraqueza.
Entretanto, quando o Espírito Santo o confronta, ainda existe um chamado ao
arrependimento. O grande perigo aparece quando a consciência começa a ser
progressivamente silenciada e aquilo que antes nos incomodava passa a não
produzir reação alguma.
O pecado frequentemente trabalha assim. Primeiro, a consciência alerta.
Se resistimos, procuramos uma justificativa. Depois de algum tempo, aquilo que
precisava ser justificado começa a ser relativizado. Mais adiante, torna-se
normal e, eventualmente, podemos chegar ao ponto de defendê-lo. Foi exatamente
essa inversão que Isaías denunciou ao falar daqueles que chamavam o mal de bem
e o bem de mal.
Essa advertência precisa ser aplicada primeiro a nós mesmos. É fácil
enxergar a decadência moral da sociedade e difícil perceber quando começamos a
renomear determinadas atitudes dentro do próprio ambiente cristão. Orgulho pode
ser apresentado como personalidade forte, ganância como ambição saudável,
manipulação como autoridade espiritual, falta de perdão como prudência e dureza
como zelo pela verdade. A mudança de vocabulário não altera a natureza do
coração.
Conservar sensibilidade diante do pecado não significa viver em
constante condenação. Pelo contrário, quem conhece a graça pode reconhecer suas
falhas sem precisar escondê-las.
O Evangelho nos dá liberdade para confessar porque sabemos que existe
perdão em Cristo. A pessoa que precisa proteger sua imagem a qualquer custo
dificilmente consegue arrepender-se profundamente; aquela que descansa na graça
pode trazer sua vida para a luz.
A proximidade com Deus preserva essa sensibilidade. Quanto mais
conhecemos sua santidade, mais compreendemos que o pecado não é apenas quebra
de uma regra religiosa, mas algo que fere nosso relacionamento com aquele que
nos ama. É justamente por isso que o arrependimento cristão não é apenas medo
das consequências; é tristeza por termos escolhido algo contrário ao coração do
Pai.
A apostasia
visível geralmente começou muito antes
Quando reunimos os elementos apresentados por Jeremias, percebemos uma
progressão. O povo deixa de examinar seus caminhos, perde a relação correta com
a Palavra, permite que a cobiça e outros desejos controlem o coração, passa a
preferir mensagens agradáveis e, finalmente, perde a sensibilidade moral. O
abandono visível é apenas a consequência externa de um processo que já estava
acontecendo interiormente.
Isso nos ajuda a compreender que não deveríamos tratar a apostasia
apenas como algo que acontece com “outras pessoas”.
Paulo escreve em 1 Coríntios 10:12:
“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”
Essa advertência não pretende produzir insegurança constante, mas
sobriedade. A pessoa que acredita ser incapaz de se desviar pode justamente
tornar-se menos vigilante.
A pergunta saudável não é passar a vida tentando descobrir quem ao nosso
redor é um verdadeiro ou falso cristão. Precisamos olhar primeiro para nossa
própria caminhada. Meu amor por Cristo continua vivo? A Palavra ainda possui
autoridade sobre minhas decisões? Continuo sensível à correção? Existem áreas
que estou tentando esconder? Minha fé está amadurecendo ou apenas mantendo uma
aparência?
Essas perguntas não são sinais de falta de fé. Podem ser instrumentos de
cuidado espiritual. A perseverança envolve uma vida que continua respondendo à
graça e permitindo que Deus trabalhe em áreas que precisam ser corrigidas.
O
conhecimento das Escrituras nos protege contra o engano
Uma das grandes proteções contra a apostasia é desenvolver
relacionamento profundo com a Palavra. Quando Jesus foi tentado no deserto,
respondeu repetidamente com aquilo que estava escrito. Ele não negociou a
verdade com o tentador.
Quanto menos conhecemos as Escrituras, mais dependentes ficamos da
interpretação de outras pessoas. E quanto mais dependentes somos de
personalidades religiosas para saber aquilo que devemos acreditar, mais
vulneráveis podemos ficar à manipulação e ao engano.
Isso não significa que não precisamos de pastores, mestres ou outros
líderes. Efésios 4 mostra exatamente a importância desses ministérios. A
questão é que líderes saudáveis não desejam produzir uma comunidade incapaz de
abrir a Bíblia sem sua presença. Pelo contrário, ajudam cada discípulo a
crescer no conhecimento da Palavra e a desenvolver discernimento.
Os bereanos ouviram até mesmo Paulo e conferiram aquilo que ele
ensinava. Se eles puderam examinar a mensagem de um apóstolo à luz das
Escrituras, nenhuma liderança contemporânea deveria exigir uma credulidade que
o próprio Novo Testamento não exige.
Por isso, precisamos recuperar práticas simples e profundamente
importantes: ler textos inteiros, conhecer contextos, comparar passagens,
estudar com humildade, orar por iluminação e aprender junto com irmãos maduros.
Uma fé construída apenas sobre frases de redes sociais, pequenos vídeos
e versículos isolados pode parecer forte enquanto não é testada, mas
dificilmente possui raízes suficientes para enfrentar ventos doutrinários.
Permanecer
fiel significa amar a verdade mais do que nossas preferências
Em algum momento da nossa caminhada, a Palavra de Deus confrontará
alguma coisa que desejamos. Isso é inevitável. Se Jesus é realmente Senhor,
chegará o momento em que sua vontade será diferente da nossa.
É exatamente aí que o discipulado se torna real.
Seguir Cristo não significa concordar com Ele apenas quando aquilo que
ensina corresponde ao que já pensávamos. Significa permitir que Ele corrija
nossos pensamentos, desejos e decisões. Uma das grandes evidências do senhorio
de Jesus aparece quando podemos dizer: “Eu desejava uma coisa, mas sua Palavra
mostrou outra; por isso, escolherei sua vontade.”
Quando fazemos o movimento contrário e começamos a reinterpretar
constantemente a verdade para que ela nunca confronte nossos desejos, entramos
num terreno perigoso. A verdade deixa de governar nossa vida e nossas
preferências passam a governar nossa interpretação da verdade.
O cristianismo não nos chama para abandonar o pensamento, mas para
submetê-lo a Cristo. Não significa que todas as questões bíblicas sejam simples
nem que cristãos sinceros jamais discordem sobre assuntos secundários.
Significa apenas que, quando a vontade de Deus está claramente revelada, não
devemos procurar uma interpretação apenas porque ela oferece permissão para
aquilo que já decidimos fazer.
Uma das grandes proteções contra a apostasia, portanto, é cultivar amor
pela verdade mesmo quando ela nos confronta.
“Quem ama apenas as partes da Bíblia que confirmam seus desejos ainda
não aprendeu plenamente a amar a Palavra.”
Vencer a
apostasia exige permanência em Cristo
Depois de tudo aquilo que Jeremias denuncia, surge inevitavelmente a
pergunta: como permanecer firme? A resposta cristã não está simplesmente em
aumentar nossa força de vontade ou desenvolver medo constante de cair. Está em
aprofundar nossa permanência em Cristo.
Jesus declarou em João 15:4:
“Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós.”
A vida cristã não é definida apenas pelo início. Existe um chamado para
continuar, criar raízes, permanecer ligado à Videira e receber dela a vida
necessária para produzir fruto.
Permanecer em Cristo envolve permanecer em sua Palavra, cultivar uma
vida de oração, caminhar em comunhão com o Corpo, manter o coração sensível à
correção e tratar seriamente aquilo que tenta nos afastar dele. Não fazemos
essas coisas para conquistar a salvação, mas porque compreendemos a seriedade e
a preciosidade da vida que recebemos.
Hebreus 3:12-13 apresenta uma advertência muito pertinente:
“Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós
perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário,
exortai-vos mutuamente cada dia [...] a fim de que nenhum de vós seja
endurecido pelo engano do pecado.”
Observe que o autor associa o cuidado pessoal à comunhão. Não fomos
chamados para perseverar isoladamente. Precisamos de irmãos que possam
conversar conosco, orar conosco e, quando necessário, dizer aquilo que talvez
não estejamos conseguindo dizer a nós mesmos.
Relacionamentos superficiais dificilmente produzem esse tipo de cuidado.
Precisamos de comunhão na qual alguém possa perguntar como realmente está nosso
coração e na qual possamos responder sem necessidade de manter aparências. O
isolamento favorece o autoengano; a comunhão madura pode trazer luz para áreas
que sozinhos estamos ignorando.
A mensagem
de Jeremias também contém um chamado para voltar
Talvez seja fácil ler Jeremias 8 apenas como uma mensagem de juízo, mas
existe uma palavra de esperança escondida justamente na acusação de Deus. O
profeta diz que eles “não querem voltar”. Se o problema é não querer
voltar, isso significa que havia um chamado para retornar.
A Bíblia chama isso de arrependimento. Arrependimento não é simplesmente
sentir culpa. É reconhecer que estávamos caminhando na direção errada e voltar
para Deus. Essa verdade é extremamente importante porque alguém pode ler um
artigo sobre apostasia e concluir que, se percebeu sinais de afastamento em sua
vida, então tudo terminou. Essa não é a mensagem que desejo comunicar.
Se você percebe que esfriou, volte. Se deixou de orar como antes, volte.
Se permitiu que determinadas práticas ocupassem espaço, confesse e volte. Se
começou a alimentar pensamentos que o afastaram da simplicidade de Cristo,
volte. Se percebe que sua relação com a Palavra se tornou superficial, abra
novamente as Escrituras e volte.
Jesus disse à igreja de Éfeso em Apocalipse 2:5:
“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das
primeiras obras.”
A sequência é muito significativa. Há memória, arrependimento e retorno.
O objetivo da advertência não é empurrar quem está fraco para ainda mais
longe. É despertá-lo enquanto ainda existe oportunidade para responder.
É por isso que algumas vezes o desconforto que sentimos diante da
Palavra pode ser uma grande manifestação da misericórdia de Deus. Talvez seja
melhor ser incomodado por uma verdade hoje do que permanecer tranquilamente
caminhando numa direção destrutiva. Os falsos profetas do tempo de Jeremias
diziam “paz” quando não havia paz.
“A verdadeira graça não oferece tranquilidade artificial; chama-nos para
a reconciliação verdadeira.”
Vencendo a
apostasia
Jeremias 8:5-12 apresenta um retrato sério do afastamento espiritual,
mas ao mesmo tempo nos oferece princípios importantes para nossa própria
caminhada. Judá deixou de examinar seus caminhos, perdeu sua relação correta
com a revelação de Deus, permitiu que interesses e cobiça contaminassem o
coração, preferiu mensagens tranquilizadoras à verdade e chegou a um estágio em
que já não se envergonhava daquilo que deveria levá-lo ao arrependimento. A
destruição não começou no último estágio; foi sendo construída ao longo do
caminho.
Vencer a apostasia significa caminhar conscientemente na direção
contrária. Precisamos conservar um coração disposto a ser examinado por Deus,
uma mente profundamente enraizada nas Escrituras, um espírito que não permita
que outros desejos ocupem o lugar de Cristo, amor pela verdade mesmo quando ela
confronta nossas preferências e uma consciência sensível à voz do Espírito
Santo.
Isso não significa viver apavorados, imaginando que qualquer dificuldade
espiritual representa abandono definitivo da fé. Haverá momentos de fraqueza,
perguntas, lutas e até quedas. O discípulo não é alguém que jamais tropeça; é
alguém que se recusa a transformar sua queda em moradia. Quando percebe que se
afastou, retorna. Quando a Palavra confronta, responde. Quando o pecado é
revelado, arrepende-se. Quando perde forças, volta seus olhos novamente para
Jesus.
A grande tragédia de Judá não foi simplesmente ter se desviado. Jeremias
revela algo muito mais grave: eles não queriam voltar. Que jamais
permitamos que esse seja o estado do nosso coração.
Jesus declarou em Mateus 24:13:
“Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo.”
Perseverança não é uma postura heroica de quem decidiu que jamais
precisará de ajuda. É a caminhada humilde de alguém que sabe onde está sua
fonte e continua retornando para ela.
Em uma geração cercada por inúmeras vozes, propostas espirituais,
pressões culturais e interpretações conflitantes, precisamos recuperar uma
convicção simples: não desejamos apenas ter começado bem. Queremos permanecer
fiéis.
Queremos continuar amando Cristo quando a cultura mudar, quando
determinadas verdades se tornarem impopulares, quando obedecer custar alguma
coisa e quando outras vozes oferecerem caminhos aparentemente mais fáceis.
Queremos manter nossa consciência sensível, nossos olhos nas Escrituras e nosso
coração aberto à correção.
Porque vencer a apostasia não significa construir uma vida na qual
jamais seremos tentados a nos afastar. Significa continuar escolhendo
Cristo, retornando a Cristo e permanecendo em Cristo, até que nossa caminhada
aqui termine e estejamos definitivamente diante daquele que nos chamou.
Que Deus nos conceda um coração humilde para reconhecer quando erramos,
coragem para abandonar aquilo que precisa ser abandonado, amor profundo pela
verdade e perseverança para continuar caminhando.
Não queremos apenas conhecer a verdade que um dia nos alcançou. Queremos
permanecer nela.
Não queremos apenas lembrar que um dia estivemos próximos de Deus.
Queremos continuar próximos.
Não queremos viver sustentados somente pelas experiências de ontem.
Queremos andar com Cristo hoje e permanecer com Ele amanhã.
Que nossa história não seja marcada pelas palavras de Jeremias: “não
querem voltar”, mas pela decisão de uma vida inteira de continuar
respondendo ao chamado do Senhor.
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis
