MANIFESTANDO O REINO DE DEUS
ATRAVÉS DO MINISTÉRIO PASTORAL
Cuidando de pessoas segundo o coração do Supremo Pastor
“E ele
mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para
evangelistas e outros para PASTORES e mestres.”
Efésios 4:11
Entre todas as figuras utilizadas nas Escrituras para descrever a
liderança espiritual, poucas são tão belas e, ao mesmo tempo, tão exigentes
quanto a figura do pastor. A própria imagem nos conduz para longe da ideia de
posição, prestígio ou autoridade institucional e nos aproxima de uma realidade
marcada por relacionamento, responsabilidade e serviço.
O pastor bíblico não é simplesmente um administrador de uma organização
religiosa, um organizador de eventos, um gerente de programas e muito menos
alguém cuja função se limita a ocupar um púlpito semanalmente. A figura da
ovelha e do pastor fala essencialmente de proximidade, cuidado, direção,
proteção, alimentação, acompanhamento, responsabilidade e disposição para
servir.
É justamente por isso que o ministério pastoral não pode ser
compreendido adequadamente apenas a partir das estruturas ministeriais que
foram sendo desenvolvidas ao longo dos séculos. Precisamos retornar à Palavra
e, principalmente, olhar para Jesus. Ele não apenas ensinou sobre pastoreio; Ele
próprio se apresentou como Pastor.
Em João 10:11, Jesus declarou:
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.”
Essa afirmação estabelece o padrão para todo aquele que recebeu de Deus
responsabilidade pastoral. Antes de perguntarmos como administrar uma igreja,
como aumentar uma congregação ou como desenvolver uma estrutura ministerial,
precisamos perguntar: como Jesus trata suas ovelhas?
O modelo pastoral de Cristo não começa com poder, mas com entrega. Não
começa com posição, mas com amor. Não começa com reconhecimento público, mas
com disposição para dar a vida. Isso significa que qualquer conceito de
pastoreio que se afaste do caráter de Jesus corre o risco de preservar o título
enquanto perde a essência.
“O pastorado não pode ser medido apenas pelo tamanho da congregação,
pela visibilidade do ministério ou pela capacidade de comunicação do líder. Sua
medida precisa continuar sendo o coração do Supremo Pastor.”
Jesus É O Supremo Modelo De Todo Pastor
Nenhum pastor humano é proprietário das ovelhas que lhe foram confiadas.
Essa verdade precisa permanecer profundamente estabelecida no coração de toda
liderança cristã.
Pedro, escrevendo aos presbíteros, afirma em 1 Pedro 5:4 que, quando se
manifestar o Supremo Pastor, aqueles que serviram fielmente receberão a
imarcescível coroa da glória. A expressão coloca cada pastor humano no lugar
correto: somos pastores subordinados ao verdadeiro Pastor.
A Igreja pertence a Cristo porque foi comprada por seu sangue. As
pessoas pertencem a Cristo. O rebanho não é patrimônio do líder, da família
ministerial, de uma denominação ou de uma instituição.
Paulo lembrou aos presbíteros de Éfeso, em Atos 20:28, que deveriam
pastorear “a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”.
Quando um pastor compreende essa verdade, sua maneira de liderar muda
radicalmente. Ele começa a tratar as pessoas não como recursos para desenvolver
seu projeto, mas como vidas preciosas que pertencem ao Senhor.
Por isso, o pastor não conduz pessoas para construir seu próprio reino,
aumentar sua influência ou perpetuar sua própria imagem. Ele existe para ajudar
homens e mulheres a conhecerem, seguirem e se tornarem semelhantes a Jesus. Seu
maior êxito não é formar admiradores de seu ministério, mas discípulos de
Cristo. Quanto mais saudável for sua liderança, menos as pessoas serão
dependentes de sua personalidade e mais profundamente aprenderão a depender do
Senhor.
Jesus jamais utilizou sua autoridade para alimentar ego ou estabelecer
domínio sobre pessoas. Pelo contrário, declarou em Marcos 10:45 que:
“o Filho do Homem não veio
para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
Este
precisa continuar sendo o paradigma pastoral. Autoridade no Reino nunca pode
ser separada de serviço. Quanto maior a responsabilidade recebida de Deus,
maior deveria ser a consciência de que fomos chamados para servir.
O Pastor Conhece As Ovelhas
Jesus afirma em João 10:14:
“Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a
mim.”
Essa declaração revela que pastoreio não é uma atividade distante.
Existe conhecimento, relacionamento e proximidade. Jesus não olha para o
rebanho como uma massa indistinta. Ele conhece suas ovelhas e, segundo João
10:3, as chama “pelo nome”.
Esse princípio se torna especialmente importante em uma cultura
ministerial que facilmente transforma pessoas em números. Podemos começar a
falar sobre quantidade de membros, visualizações, seguidores, alcance,
estatísticas e crescimento e, sem perceber, deixar de enxergar histórias,
famílias, dores e necessidades reais. Há valor em avaliar resultados e
organizar adequadamente uma comunidade, mas nenhuma ferramenta administrativa
pode substituir a natureza relacional do pastoreio.
Cada pessoa possui uma história que não aparece no culto de domingo. Há
pessoas sorrindo enquanto enfrentam crises conjugais, outras carregando luto,
algumas lutando silenciosamente contra tentações, medos ou sentimentos de
fracasso. Existem jovens tentando descobrir seu lugar, idosos convivendo com
solidão, famílias enfrentando dificuldades financeiras e novos convertidos
tentando compreender como viver aquilo que acabaram de receber.
‘Pastorear significa desenvolver sensibilidade para perceber que, por
trás de cada rosto, existe uma história que precisa ser tratada com dignidade e
amor.”
Naturalmente, quando uma congregação cresce, torna-se humanamente
impossível para um único pastor acompanhar pessoalmente todas as pessoas. Foi
justamente por isso que o Novo Testamento apresenta liderança compartilhada e
uma Igreja na qual os membros também cuidam uns dos outros. Moisés aprendeu com
Jetro que tentar carregar sozinho todas as demandas do povo o levaria ao
esgotamento. A solução não foi abandonar o cuidado, mas compartilhar
responsabilidade.
Assim, uma Igreja pastoralmente saudável não depende de uma única
liderança para realizar todo o cuidado. O pastor forma líderes, desenvolve
pessoas maduras e ajuda a criar uma cultura na qual o Corpo cuida do Corpo.
Mesmo assim, a expansão da estrutura jamais deveria significar perda completa
de proximidade. Pastoreio precisa continuar tendo rosto, nome e relacionamento.
O Pastor Alimenta O Rebanho
Depois da ressurreição, Jesus encontrou Pedro às margens do mar da
Galileia e, por três vezes, perguntou se ele o amava. Em resposta à declaração
de amor de Pedro, Jesus confiou-lhe uma responsabilidade: “Apascenta as
minhas ovelhas.”
A relação entre amar Cristo e cuidar das ovelhas é impressionante. Jesus
não pergunta primeiro se Pedro possui técnicas de liderança, formação
administrativa ou capacidade de construir grandes projetos. Pergunta se ele o
ama e, a partir desse amor, ordena que cuide do rebanho.
Pastorear envolve alimentar, e o principal alimento espiritual do povo
de Deus continua sendo sua Palavra.
Jeremias 3:15 registra a promessa:
“Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com
conhecimento e com inteligência.”
Isso mostra que o pastor não foi chamado apenas para acolher pessoas
emocionalmente; precisa também ajudá-las a conhecer a verdade.
Uma Igreja alimentada apenas por mensagens motivacionais pode permanecer
espiritualmente frágil. A motivação tem seu lugar, o encorajamento é necessário
e a consolação faz parte do cuidado pastoral, mas ovelhas não sobrevivem
apenas de palavras agradáveis. Precisam de alimento sólido. Precisam
conhecer quem Deus é, compreender o Evangelho, aprender a discernir o pecado,
desenvolver maturidade e ser ensinadas a interpretar a vida à luz das
Escrituras.
Paulo declarou aos presbíteros de Éfeso que não havia deixado de
anunciar “todo o desígnio de Deus”. Isso é uma responsabilidade
pastoral. O pastor não pode selecionar exclusivamente assuntos que agradem à
congregação. Há momentos em que precisa confortar, outros em que precisa
corrigir, confrontar, orientar e chamar ao arrependimento. Aquele que ama verdadeiramente
as ovelhas não deseja simplesmente que elas se sintam bem depois de um culto;
deseja que sejam transformadas à imagem de Cristo.
Por isso, o cuidado pastoral e o ministério de ensino estão
profundamente relacionados. O pastor que alimenta corretamente o rebanho não
cria dependência de suas opiniões pessoais. Ele ensina a própria congregação a
amar, ler, estudar e praticar a Palavra.
“Uma das grandes evidências de um pastoreio saudável é quando as
ovelhas aprendem a alimentar-se das Escrituras também durante a semana, e não
somente quando o pastor está diante delas.”
Pastorear Também Significa Proteger
Em João 10, Jesus apresenta um contraste marcante entre o Bom Pastor e o
mercenário. Quando o lobo aparece, o mercenário foge porque as ovelhas não lhe
pertencem e porque seu compromisso termina exatamente onde começa o perigo. O
Bom Pastor, porém, permanece.
Essa imagem confronta profundamente qualquer liderança espiritual.
Pastorear envolve estar disposto a posicionar-se quando o rebanho está
ameaçado. Existem perigos doutrinários, relacionais, morais e espirituais que
precisam ser reconhecidos. Paulo advertiu os presbíteros de Éfeso em Atos
20:29-30 que, depois de sua partida, lobos vorazes entrariam no meio do rebanho
e que até dentre eles mesmos surgiriam homens ensinando coisas pervertidas para
arrastar discípulos atrás de si. Por isso, orientou: “Vigiai.”
Proteção pastoral inclui ensinar a verdade para que a Igreja consiga
reconhecer o erro. Um pastor não deveria esperar que a heresia se instale para
somente depois tentar combatê-la. Quanto mais uma comunidade conhece a Palavra,
menos vulnerável se torna a manipulações espirituais, movimentos
desequilibrados e doutrinas que desviam os olhos de Cristo.
Entretanto, proteger não significa criar uma comunidade fechada na qual
ninguém possa pensar, perguntar ou discordar. Proteção pastoral saudável não
é controle mental. Um pastor seguro não precisa transformar questionamentos
em rebelião nem exigir concordância absoluta com suas opiniões pessoais. Pelo
contrário, ajuda as pessoas a amadurecerem, desenvolverem discernimento e
examinarem todas as coisas à luz das Escrituras.
Também existe proteção relacionada a abusos, fofocas, divisões,
manipulação emocional e comportamentos destrutivos. Algumas situações exigirão
firmeza pastoral. O amor não é omissão. Jesus é cheio de graça e verdade. Há
momentos em que cuidar de uma ovelha significa consolá-la e outros em que
significa corrigi-la.
“A verdadeira proteção pastoral consegue unir ternura e firmeza sem
transformar nenhuma delas em instrumento de violência.”
O Pastor Busca Quem Se Perdeu
Lucas 15 apresenta uma das imagens mais conhecidas do coração de Deus:
um pastor que possui cem ovelhas e, percebendo que uma se perdeu, deixa as
noventa e nove em segurança e vai procurar aquela que está distante. Jesus
utiliza essa figura para revelar a alegria de Deus diante do arrependimento e
da restauração.
Um ministério pastoral saudável não cuida apenas das pessoas que estão
presentes, envolvidas e aparentemente bem. Também percebe quem começou a se
afastar. Existem pessoas que não deixam a comunidade de uma vez; elas vão
desaparecendo lentamente. Primeiro diminuem sua participação, depois perdem
relacionamentos, deixam de compartilhar suas dificuldades e, finalmente,
afastam-se completamente.
O coração pastoral pergunta: “Onde está aquela ovelha?”
Isso não significa que o pastor consiga impedir todas as pessoas de se
afastarem. Jesus respeitou escolhas, e até mesmo em seu ministério houve
aqueles que decidiram não permanecer. Em João 6, muitos discípulos deixaram de
segui-lo depois de uma palavra que consideraram difícil. Nenhum pastor humano
possui poder para controlar a vontade de alguém.
Mas existe uma diferença entre não conseguir impedir uma partida e
simplesmente não se importar. O pastor procura, liga, pergunta, ora, visita
quando possível e tenta compreender o que aconteceu.
Existem pessoas que se afastaram por pecado, outras por decepção,
algumas por feridas, conflitos, cansaço ou simplesmente por terem perdido a
percepção da importância da comunhão. Cada situação precisa ser discernida
individualmente.
E quando uma ovelha retorna, o objetivo não deveria ser humilhá-la, mas
restaurá-la. Paulo ensina em Gálatas 6:1 que, se alguém for surpreendido em
alguma falta, os espirituais devem corrigi-lo “com espírito de brandura”.
Isso é pastoreio. Correção que possui restauração como objetivo.
O Pastor Precisa Cuidar Sem Dominar
Pedro oferece uma das instruções mais importantes de todo o Novo
Testamento sobre liderança espiritual:
“Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento,
mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa
vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos
modelos do rebanho.”
1 Pedro 5:2-3
Esse texto deveria permanecer diante dos olhos de todo pastor durante
toda a sua caminhada ministerial. Pedro toca em três perigos que acompanham a
liderança: exercer o ministério apenas por obrigação, transformar a função em
oportunidade de ganho e utilizar autoridade para dominar pessoas.
Pastorear não é dominar. A autoridade espiritual nunca deveria ser
utilizada para controlar escolhas pessoais, exigir submissão cega, intimidar
quem questiona ou produzir dependência emocional. Jesus ensinou claramente aos
discípulos que o modelo de autoridade do Reino não deveria reproduzir o padrão
dos governantes das nações que exerciam domínio sobre os outros. Ele declarou: “Não
é assim entre vós”.
Isso não significa eliminar autoridade ou liderança. Significa exercer
autoridade à maneira de Cristo.
O pastor lidera também pelo exemplo. Pedro diz que devemos nos tornar “modelos
do rebanho”. Isso significa que a vida do pastor também comunica. Sua
maneira de tratar a esposa e os filhos, sua administração financeira, sua
reação diante de críticas, seu comportamento quando ninguém está olhando, a
forma como lida com pessoas simples e aquelas que não podem oferecer-lhe
qualquer vantagem fazem parte de sua mensagem.
É possível pregar humildade e viver arrogância. É possível ensinar
generosidade e administrar recursos de maneira questionável. É possível falar
de família enquanto negligencia a própria casa. Por isso, Paulo estabeleceu
requisitos de caráter para aqueles que lideram a Igreja. O púlpito pode
ampliar a voz de um homem, mas somente o caráter sustenta sua autoridade
espiritual ao longo do tempo.
Pastorear Pessoas Também Custa
Existe uma dimensão do ministério pastoral que normalmente não aparece
nas fotografias, nos vídeos ou nas celebrações públicas. É a dimensão do peso.
Paulo escreveu em 2 Coríntios 11:28 que, além de todas as perseguições
que enfrentava, havia sobre ele “a preocupação com todas as igrejas”.
Essa frase revela muito sobre o coração de quem realmente cuida de pessoas.
Pastorear significa aproximar-se de histórias difíceis. O pastor
acompanha casamentos em crise, famílias vivendo conflitos, pessoas enfrentando
enfermidades, pais chorando por seus filhos, jovens lutando contra tentações,
pessoas em luto e irmãos atravessando situações que não possuem soluções
simples. Em muitas ocasiões, ele entra em contato com dores que outras pessoas
sequer conhecem.
Há conversas que não podem ser compartilhadas publicamente. Há noites de
oração pelas quais ninguém dará aplausos. Há decisões difíceis que podem ser
mal interpretadas. Há momentos em que, depois de cuidar de muitas pessoas, o
próprio pastor retorna para casa carregando perguntas, cansaço e necessidade de
ser cuidado.
Por isso, a Igreja precisa compreender que seus pastores também são
seres humanos. O chamado não elimina limitações humanas. O pastor também
possui família, emoções, necessidade de descanso, comunhão e cuidado. Pode se
cansar, entristecer-se e precisar de ajuda.
Isso não deve ser utilizado para justificar irresponsabilidade ou pecado
ministerial, mas para combater uma expectativa irreal de que líderes
espirituais sejam pessoas incapazes de experimentar fraqueza.
Uma Igreja madura não apenas recebe cuidado pastoral; também aprende a
honrar, apoiar, interceder e cuidar daqueles que a servem. Hebreus 13:17 fala
da responsabilidade dos líderes pelas almas e pede que essa tarefa possa ser
realizada com alegria e não gemendo. Existe uma corresponsabilidade na saúde do
relacionamento entre pastores e Igreja.
O Pastor Não Pode Substituir Jesus
Existe um equilíbrio indispensável no cuidado pastoral. O pastor precisa
aproximar-se das pessoas, mas não pode tomar o lugar de Cristo na vida delas.
Nenhum líder humano consegue ocupar o lugar do Espírito Santo. O pastor
não pode tomar todas as decisões por uma pessoa, controlar cada detalhe de sua
existência ou tornar-se sua única fonte de direção espiritual. Quando isso
acontece, o cuidado começa a transformar-se em dependência.
O objetivo pastoral é ajudar cada discípulo a crescer em seu próprio
relacionamento com Jesus. Isso significa ensinar as pessoas a orar, conhecer a
Palavra, discernir, ouvir a direção do Espírito Santo e assumir
responsabilidade por suas próprias escolhas.
“Um bom pastor não cria pessoas que não sabem caminhar sem ele; ajuda
pessoas a aprenderem a caminhar com Jesus.”
João Batista expressou um princípio maravilhoso quando disse sobre
Cristo: “Convém que ele cresça e que eu diminua.” De alguma maneira,
essa também deveria ser a atitude de toda liderança pastoral. Se depois de
muitos anos as pessoas conhecem profundamente a voz do pastor, mas continuam
sem saber reconhecer a voz de Cristo nas Escrituras, algo importante não
aconteceu.
O pastor é uma referência, mas não o destino. É um instrumento, não a
fonte. É servo, não senhor das consciências. Cristo continua sendo o cabeça da
Igreja.
Pastorear É Formar Pessoas Para Servir
Voltamos novamente a Efésios 4 e encontramos uma correção importante
para um dos modelos mais comuns de Igreja. Os ministérios foram concedidos “com
vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço”.
Isso significa que o pastor não foi dado à Igreja para realizar todo o
ministério sozinho.
Uma Igreja saudável não é formada por um líder ativo e uma congregação
passiva.
O pastor equipa os santos. Isso significa identificar dons, formar
discípulos, levantar novos líderes, reconhecer vocações, desenvolver pessoas e
criar oportunidades para que cada membro encontre seu lugar no Corpo de Cristo.
Paulo afirma em 1 Coríntios 12 que Deus colocou cada membro no Corpo como lhe
aprouve. Portanto, ninguém deveria ser tratado como espiritualmente inútil.
Pastorear inclui ajudar pessoas a descobrir que possuem algo para
oferecer.
O novo convertido precisa ser cuidado, mas deverá amadurecer. Quem hoje
recebe discipulado poderá amanhã discipular alguém. Quem hoje precisa ser
consolado poderá um dia consolar outros com a consolação que recebeu de Deus.
Quem hoje está aprendendo poderá futuramente ensinar aquilo que assimilou.
Esse é um dos sinais mais belos de saúde ministerial: quando aqueles
que foram cuidados começam também a cuidar.
Um pastor inseguro pode sentir-se ameaçado pelo crescimento de outros
líderes. Um pastor segundo o coração de Cristo alegra-se quando pessoas
amadurecem, desenvolvem seus dons e até alcançam lugares que ele próprio nunca
alcançou.
Jesus fez exatamente isso com seus discípulos. Investiu neles, ensinou,
corrigiu, enviou e, depois, confiou-lhes a continuidade da missão. O pastoreio
saudável não concentra tudo numa pessoa; multiplica servos.
O Pastor Precisa Carregar O Coração De Jesus
É possível aprender muitas ferramentas úteis para o ministério pastoral.
Administração, comunicação, gestão, planejamento, aconselhamento e liderança
podem ser estudados e aperfeiçoados. Não há problema algum nisso. Excelência é
importante, e uma igreja mal administrada pode produzir sofrimento
desnecessário.
Entretanto, existe algo que nenhum curso consegue produzir sozinho: o
coração de pastor. Esse coração nasce e é formado na presença de Deus. É a
capacidade de olhar para pessoas como Jesus olhava. Mateus 9:36 diz que, vendo
as multidões, Jesus “compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas
como ovelhas que não têm pastor”. Ele não enxergou uma oportunidade para
aumentar sua influência. Enxergou pessoas cansadas e desorientadas.
O coração pastoral sente. Isso não significa ser governado apenas por
emoções, mas possuir sensibilidade. É ter paciência com processos de
transformação que às vezes levam anos. É saber que pessoas podem dar dois
passos para frente e um para trás. É ter coragem para confrontar quando a
verdade exige, mas fazer isso desejando restauração. É saber ouvir antes de
responder e compreender que nem toda dor precisa imediatamente de um sermão;
algumas vezes, a pessoa precisa primeiro de presença.
O coração de Jesus combina verdade e graça. Ele não chamou pecado de
virtude para não ferir ninguém, mas também não tratou pecadores arrependidos
como casos descartáveis. Confrontou a mulher samaritana e continuou conversando
com ela. Restaurou Pedro depois de sua negação. Recebeu pessoas desprezadas e
enfrentou religiosos orgulhosos.
O pastor precisa aprender esse equilíbrio.
“Firmeza sem amor produz dureza; amor sem verdade pode produzir
permissividade. Em Jesus encontramos graça e verdade caminhando juntas.”
Sem o coração de Cristo, o pastorado pode tornar-se apenas uma
profissão, uma função administrativa ou uma carreira religiosa. É possível
aprender a fazer as tarefas de um pastor sem desenvolver o coração do Supremo
Pastor. Por isso, antes de pedir que Deus amplie nossa influência, talvez
devêssemos pedir constantemente: “Senhor, dá-me teu coração pelas pessoas
que colocaste aos meus cuidados.”
Que Deus Levante Pastores Segundo O Seu Coração
Jeremias registra uma das promessas mais belas sobre liderança
espiritual:
“Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com
conhecimento e com inteligência.” Jeremias
3:15
Esse continua sendo um clamor profundamente necessário para a Igreja de
nossos dias.
Precisamos de pastores que conheçam profundamente a Palavra e, ao mesmo
tempo, saibam lidar com pessoas. Líderes que não utilizem conhecimento bíblico
para humilhar, mas para edificar. Pastores que possuam firmeza sem dureza,
compaixão sem conivência com o pecado, autoridade sem autoritarismo, coragem
sem arrogância e humildade sem omissão.
Precisamos de pastores que consigam ensinar, mas também ouvir. Que
saibam falar diante de multidões, mas não se sintam grandes demais para
sentar-se ao lado de uma pessoa ferida. Que saibam celebrar conquistas da
Igreja, mas também chorar com quem chora. Que não tenham medo de corrigir, mas
que jamais utilizem correção como instrumento de vingança ou afirmação pessoal.
Precisamos de líderes que cuidem de seus lares, administrem com
integridade aquilo que lhes foi confiado e compreendam que sua vida privada
também importa diante de Deus. Pastores que não se sintam proprietários de
pessoas e que não tenham medo de preparar uma geração que talvez vá mais longe
do que eles.
Quando o ministério pastoral funciona dessa maneira, algo profundamente
belo acontece: o Reino de Deus torna-se visível através do cuidado.
Pessoas feridas encontram espaço para restauração, novos convertidos recebem
acompanhamento, famílias encontram orientação, pecadores são chamados ao
arrependimento, os fracos são fortalecidos, os maduros são equipados para
servir e toda a comunidade começa a crescer em direção à semelhança de Cristo.
É importante compreender que nenhum pastor realizará tudo isso
perfeitamente. Existe somente um Bom Pastor perfeito: Jesus. Todo líder
humano continuará precisando da mesma graça que anuncia aos outros. Isso
deveria produzir humildade e dependência.
O pastor não é o dono do rebanho. Ele é um servo a quem o Supremo
Pastor confiou temporariamente o cuidado de algumas de suas ovelhas.
E essa responsabilidade é séria. Hebreus 13:17 afirma que líderes
espirituais velam pelas almas “como quem deve prestar contas”. Chegará o
momento em que números, prédios, plataformas, títulos, conferências e
reconhecimento público não serão a questão principal. Diante do Supremo Pastor,
aquilo que importará será a fidelidade com que tratamos aquilo que lhe
pertencia.
Como alimentamos as ovelhas? Como tratamos as feridas? Como usamos a
autoridade? O que fizemos quando alguém se perdeu? Protegemos ou exploramos? Formamos
discípulos de Cristo ou seguidores de nossa personalidade? Utilizamos o rebanho
para construir nosso nome ou gastamos nossa vida para edificar aquilo que
pertence a Jesus?
Essas perguntas não devem produzir medo paralisante, mas temor,
humildade e profunda responsabilidade. O chamado pastoral é exigente
justamente porque pessoas são preciosas demais para Deus.
No final, o verdadeiro pastor não deseja ser lembrado simplesmente como
um grande pregador, administrador competente ou líder influente. Seu maior
desejo deveria ser poder olhar para aqueles que Deus colocou em seu caminho e
perceber que, através de sua vida, eles aprenderam a conhecer melhor o
Supremo Pastor.
Porque esse é o sentido do ministério pastoral: não colocar-se entre
Jesus e as ovelhas, mas aproximar cada vez mais as ovelhas de Jesus.
Que Deus levante uma geração de pastores que não esteja apaixonada por
posições, mas por pessoas; que não procure tronos, mas toalhas; que não veja a
Igreja como propriedade, mas como o rebanho comprado pelo sangue de Cristo; que
não utilize autoridade para dominar, mas para servir; e que possa dizer como
Paulo: “Não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos
cooperadores de vossa alegria”.
E que, acima de qualquer método, estratégia ou modelo ministerial, nunca
nos esqueçamos do padrão estabelecido por Jesus: “Eu sou o bom pastor. O bom
pastor dá a vida pelas ovelhas.”
É diante dele que todo pastor serve. É a ele que todo pastor pertence. É
dele que todo rebanho continua sendo. E é para ele que todo verdadeiro
ministério pastoral precisa apontar.
Deus te abençoe!
Pastor Sérgio Luis

