É POSSÍVEL ESTAR PERTO DA IGREJA
E LONGE DE DEUS?
O maior perigo talvez não seja abandonar a igreja, mas permanecer nela
enquanto o coração, silenciosamente, se afasta de Deus.
“Tenho,
porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde
caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras.”
Apocalipse 2:4-5
Existem afastamentos de Deus que são facilmente percebidos. A pessoa
deixa de congregar, abandona a comunhão, perde o interesse pelas Escrituras, já
não cultiva uma vida de oração e começa a viver como se Deus tivesse deixado de
ocupar um lugar importante em sua história.
Esse tipo de distanciamento costuma produzir sinais visíveis, mas existe
outra forma de afastamento muito mais silenciosa e, justamente por isso, talvez
ainda mais perigosa: continuar perto de tudo aquilo que se relaciona com
Deus enquanto o coração vai, pouco a pouco, se afastando dele.
É possível continuar frequentando a igreja, participar dos cultos,
cantar, servir, contribuir, ensinar, liderar, pregar e até aconselhar outras
pessoas enquanto alguma coisa essencial vai se perdendo dentro de nós.
Externamente, quase nada parece ter mudado. A rotina continua, as
responsabilidades permanecem e as pessoas talvez não percebam qualquer
diferença.
No entanto, por dentro, a alegria começa a diminuir, a oração perde
espaço, a Palavra já não provoca o mesmo quebrantamento e aquilo que antes era
relacionamento começa a se transformar apenas em hábito. Talvez ninguém
perceba imediatamente, mas Jesus percebe.
Foi exatamente esse o problema da igreja de Éfeso.
Quando Tudo Parece Estar Certo
Ao lermos Apocalipse 2, encontramos uma igreja que possuía qualidades
impressionantes. Jesus reconhece suas obras, seu trabalho, sua perseverança,
sua resistência diante das dificuldades e sua capacidade de identificar falsos
ensinamentos.
Não estamos diante de uma igreja indiferente, preguiçosa ou
completamente entregue ao pecado. Pelo contrário, havia atividade,
discernimento e firmeza. Aos olhos de quem observasse apenas aquilo que
acontecia externamente, provavelmente muita coisa parecia estar funcionando
muito bem.
É justamente nesse ponto que encontramos uma das verdades mais
desconfortáveis dessa passagem: é possível fazer muitas coisas certas e,
ainda assim, permitir que algo essencial aconteça de maneira errada dentro do
coração.
Jesus não ignorou as boas obras daqueles cristãos, mas também não
permitiu que suas atividades escondessem a verdadeira condição espiritual em
que se encontravam. Depois de reconhecer tudo aquilo que faziam, ele declarou: “Tenho,
porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.”
Essa declaração deveria nos fazer refletir seriamente, porque Cristo
estava falando com pessoas que continuavam trabalhando, perseverando e
defendendo a verdade, mas que, em algum ponto da caminhada, permitiram que o
amor que deveria sustentar todas essas coisas começasse a enfraquecer.
Continuavam fazendo coisas para Cristo, porém alguma coisa havia mudado em sua
relação com Cristo.
E esse perigo não ficou restrito à igreja de Éfeso; ele continua
presente na vida de qualquer pessoa que já caminha com Deus há algum tempo.
Quando A Fé Se Transforma Apenas Em Rotina
A rotina, em si mesma, não é inimiga da vida espiritual. Precisamos de
disciplina. Existem dias em que precisamos orar mesmo quando não sentimos
vontade, abrir as Escrituras mesmo sem experimentar uma emoção especial e
permanecer fiéis mesmo quando não estamos entusiasmados.
Maturidade cristã também envolve constância. O problema começa quando a
disciplina permanece, mas o relacionamento desaparece; quando continuamos
fazendo aquilo que sempre fizemos, porém já não conseguimos lembrar por que
começamos.
A oração pode deixar de ser encontro e transformar-se apenas em
obrigação. A leitura bíblica pode deixar de ser um momento de escuta e
confrontação para tornar-se somente uma tarefa cumprida. O culto pode deixar de
ser uma expressão de adoração e passar a ser apenas mais um compromisso da
semana. Podemos continuar servindo porque assumimos responsabilidades, cantando
porque conhecemos as músicas e falando sobre Deus porque aprendemos a linguagem
cristã, ao mesmo tempo em que já não cultivamos com a mesma intensidade uma
vida de comunhão com ele.
Talvez esse seja um dos maiores perigos para quem está há muitos anos na
caminhada cristã. No início, quase tudo parece novo. Existe fome para aprender,
alegria em descobrir as Escrituras e entusiasmo em participar da comunhão. Um
simples versículo pode tocar profundamente o coração, uma oração pode produzir
lágrimas e pequenas descobertas espirituais parecem enormes.
Com o passar do tempo, porém, aquilo que um dia nos impressionou pode
começar a parecer comum. Já conhecemos aquela passagem, já ouvimos aquela
pregação, já sabemos como o culto funciona e talvez consigamos até antecipar o
que será dito.
Sem perceber, podemos aprender tanto sobre o caminho que começamos a
perder de vista aquele que é o próprio Caminho.
Jesus afirmou:
“Eu sou o
caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” João 14:6
O cristianismo nunca foi simplesmente a acumulação de informações
religiosas, o domínio de doutrinas ou a participação em atividades espirituais.
O centro da fé cristã é Cristo. Sem ele, podemos conservar a estrutura
e, ainda assim, perder aquilo que dá sentido a toda a estrutura.
É Possível Servir A Deus E Perder A Alegria De Estar Com Deus
Existe uma diferença profunda entre trabalhar para alguém e desfrutar da
companhia dessa pessoa, e essa diferença também aparece na vida espiritual.
Podemos ficar tão ocupados fazendo coisas para Deus que começamos,
silenciosamente, a negligenciar nosso relacionamento com ele.
A história de Marta e Maria nos oferece uma imagem muito clara desse
perigo.
Marta estava ocupada em muitos serviços enquanto Maria permanecia aos
pés de Jesus ouvindo sua palavra. O problema não estava no serviço de Marta,
porque servir é bíblico, necessário e precioso. O problema estava no fato de
que sua atividade havia produzido inquietação a ponto de fazê-la perder de
vista quem estava dentro de sua própria casa.
Jesus lhe disse:
“Marta!
Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é
necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não
lhe será tirada” Lucas
10:41-42
Essa cena revela algo que precisamos levar muito a sério: podemos estar
ocupados com coisas relacionadas a Jesus e, ainda assim, perder a alegria de
simplesmente estar com Jesus. Isso pode acontecer com quem lidera, prega,
canta, trabalha nos bastidores ou frequenta a igreja há décadas.
Quanto mais responsabilidades espirituais acumulamos, maior pode ser a
tentação de substituir relacionamento por atividade, mas atividades
espirituais nunca poderão substituir comunhão espiritual.
“Deus não
nos chamou apenas para fazer coisas para ele. Ele nos chamou para caminhar com
ele.”
O Problema Não Começa Quando Você Sai. Começa Quando O Coração Esfria
Quase ninguém acorda pela manhã e decide conscientemente que vai esfriar
espiritualmente. O afastamento, na maioria das vezes, acontece de maneira
lenta. Uma oração negligenciada hoje, outra amanhã; um dia sem abrir a Bíblia,
depois vários; uma pequena concessão que ninguém percebe, uma mágoa que não é
tratada, uma distração que passa a ocupar espaço demais, uma agenda que nunca
encontra tempo para Deus ou um pecado que já não provoca o mesmo incômodo.
Pouco a pouco, aquilo que parecia pequeno começa a exercer influência
sobre o coração.
Jesus advertiu:
“E, por se
multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” Mateus 24:12
A palavra escolhida por Jesus é muito significativa porque esfriar é um
processo. Uma bebida quente não se torna fria de maneira instantânea; ela vai
perdendo temperatura gradualmente. Assim também pode acontecer conosco. Talvez
a fé continue existindo, talvez ainda haja conhecimento bíblico, participação
nos cultos e envolvimento em algum ministério, mas a sensibilidade começa a
diminuir.
A oração que antes fazia falta passa a ser facilmente adiada. A Palavra
que antes confrontava o coração é ouvida com indiferença. O pecado que antes
provocava arrependimento começa a receber explicações e justificativas. Aquilo
que um dia nos quebrantava já não produz a mesma resposta interior. É nesse
momento que precisamos nos fazer uma pergunta séria: o que se tornou normal
em minha vida espiritual que nunca deveria ter se tornado normal?
Talvez a maior tragédia não seja perceber que estamos frios. A maior
tragédia é esfriar e nos acostumar com isso.
O Perigo De Saber Falar Sobre Deus Sem Mais Se Admirar Com Deus
Uma das possíveis evidências de esfriamento espiritual é quando Deus
deixa de nos maravilhar. Continuamos conhecendo seus atributos, sabemos que ele
é santo, poderoso, misericordioso e fiel. Conhecemos a mensagem da cruz,
sabemos que Cristo morreu e ressuscitou e somos capazes de explicar a graça com
clareza. No entanto, aquilo que permanece na mente já não alcança o coração com
a mesma força.
A cruz pode se tornar apenas mais uma doutrina conhecida. A graça pode
se transformar somente em uma palavra repetida. A presença de Deus pode ser
apenas uma expressão utilizada nos cultos e nas conversas. É possível conhecer
verdades extraordinárias por tanto tempo que, se não tivermos cuidado,
começaremos a tratá-las como se fossem comuns.
Por isso precisamos olhar novamente para o Evangelho e permitir que
ele nos surpreenda. Estávamos separados de Deus pelo pecado e incapazes de
salvar a nós mesmos, mas Cristo entrou em nossa história, assumiu nossa
humanidade, carregou nossos pecados, foi crucificado, morreu e ressuscitou.
Pela graça recebemos aquilo que jamais conseguiríamos conquistar por mérito
próprio.
Paulo escreveu:
“Mas Deus
prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós,
sendo nós ainda pecadores” Romanos 5:8
Se a cruz já não nos comove, talvez o problema não esteja na cruz.
Talvez esteja no modo como nosso coração começou a olhar para ela.
Jesus Não Manda A Igreja De Éfeso Procurar Uma Experiência Nova
A resposta de Cristo para aquela igreja é surpreendentemente simples e
profunda. Ele não os orienta a procurar uma novidade espiritual, não apresenta
uma técnica inédita e não propõe uma experiência espetacular. Jesus diz: “Lembra-te,
pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras.”
Há três movimentos fundamentais nessas palavras: lembrar,
arrepender-se e voltar.
Lembrar significa olhar para trás não para viver preso
ao passado, mas para perceber em que ponto algo começou a mudar. Quando a fome
diminuiu? Quando a oração começou a se tornar rara? Quando servir deixou de ser
alegria e começou a parecer apenas responsabilidade? Quando aquilo que antes
inquietava sua consciência passou a ser tolerado? Existem momentos em que
precisamos revisitar nossa própria caminhada não para viver de nostalgia, mas
para identificar onde começamos a nos afastar.
Depois Jesus diz: arrepende-te. Arrependimento não é apenas
sentir culpa ou tristeza. É reconhecer diante de Deus que algo precisa mudar,
parar de justificar nossa condição e assumir uma nova direção. É ter coragem
para dizer: “Senhor, alguma coisa aconteceu dentro de mim, e eu não quero
continuar assim.”
Por fim, Jesus ordena: volta.
Talvez essa seja uma das palavras mais bonitas de todo o texto, porque
significa que existe caminho de retorno. Cristo não está apenas denunciando o
afastamento daquela igreja; ele a está chamando de volta. O mesmo Jesus que
revela nossa condição também abre diante de nós a possibilidade de recomeçar.
Talvez Você Não Precise De Algo Novo. Talvez Precise Voltar Ao Essencial
Vivemos em uma cultura profundamente atraída por novidades, e isso
também pode alcançar nossa vida espiritual. Procuramos novas mensagens, novos
livros, novas conferências, novos métodos e novas experiências. Nada disso é
necessariamente errado, mas existem momentos em que nosso maior problema não é
falta de novidade. É abandono do essencial.
Talvez você não precise descobrir algum segredo espiritual
extraordinário. Talvez precise simplesmente voltar a abrir a Bíblia sem pressa
e permitir que Deus fale novamente ao seu coração. Talvez precise desligar o
telefone por alguns minutos e conversar sinceramente com o Senhor. Talvez
precise confessar aquilo que vem tentando esconder, perdoar alguém, abandonar
algo que está enfraquecendo sua comunhão ou voltar a adorar sem se preocupar
com quem está observando.
Davi conheceu experiências profundas com Deus, mas também conheceu o
peso do pecado e a necessidade de restauração. Em sua oração, ele disse: “Restitui-me
a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário” (Salmos
51:12).
Observe que Davi não pede outra salvação. Ele pede a restauração da
alegria. Existem coisas que continuamos possuindo, mas deixamos de desfrutar
plenamente. Talvez alguém que esteja lendo este texto não tenha abandonado a
fé, não tenha deixado a igreja nem negado a Cristo, mas tenha perdido alguma
coisa pelo caminho: a alegria, a fome, a sensibilidade, o prazer de estar na
presença de Deus.
Se isso aconteceu, a resposta de Jesus permanece a mesma: volte.
“Não necessariamente volte para um lugar físico ou para uma época
específica de sua vida, mas volte ao essencial. Volte à Palavra, à oração, à
obediência, à simplicidade da fé e à centralidade de Cristo.”
Cristo Não Quer Apenas Sua Presença Na Igreja. Ele Quer Seu Coração
No final, essa é a questão central. Podemos impressionar pessoas com
nossa presença, construir uma reputação cristã, aprender o vocabulário correto
e conhecer os comportamentos esperados, mas Deus enxerga muito além daquilo que
os outros conseguem perceber.
Samuel ouviu do Senhor:
“Porque o
SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o
coração” 1
Samuel 16:7
Essa verdade pode ser confrontadora, mas também é profundamente
libertadora, porque significa que não precisamos fingir diante de Deus. Podemos
admitir que estamos cansados, reconhecer que esfriamos, confessar que nos
distraímos e dizer que nossa vida espiritual não está como deveria. Deus já
conhece nossa condição. O que não podemos fazer é transformar distância em
normalidade e aprender a viver sem fome da presença dele como se estivesse tudo
bem.
Jesus não morreu para simplesmente nos oferecer uma religião que
frequentamos. Ele nos chamou para segui-lo, conhecê-lo, amá-lo e permanecer
nele. Por isso afirmou: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós”
(João 15:4).
Talvez você continue dentro da igreja. Talvez continue servindo e
ninguém ao seu redor perceba qualquer mudança. Mas a pergunta mais importante
não é aquilo que as pessoas estão vendo. A pergunta é: como está seu coração
diante de Deus?
Você ainda sente fome da presença dele? A Palavra ainda consegue
confrontá-lo? Há espaço em sua vida para oração, arrependimento e escuta? Você
serve porque ama Cristo ou apenas porque se acostumou a cumprir determinadas
responsabilidades? Sua fé continua sendo um relacionamento vivo ou se
transformou apenas em uma rotina religiosa bem organizada?
Essas perguntas não devem ser respondidas rapidamente. Talvez seja
necessário permanecer alguns minutos diante delas, porque existe uma diferença
enorme entre estar perto das coisas de Deus e estar perto de Deus.
O maior perigo da vida cristã talvez não seja um dia decidir abandonar
tudo. Talvez seja continuar perto de tudo enquanto, silenciosamente, nos
afastamos daquele que deveria ocupar o centro de tudo.
E se hoje você percebe que alguma distância surgiu, a mensagem de Jesus
não é de condenação sem saída. É um chamado.
Lembre-se de onde começou a se afastar, reconheça aquilo que precisa
mudar e volte.
Volte à Palavra. Volte à oração. Volte à obediência. Volte à
simplicidade. Volte àquela fé em que Cristo não ocupa apenas uma parte de sua
vida, mas governa o centro dela.
Estar perto da igreja é importante. Fazer parte da comunhão é
necessário. Servir é um privilégio. Permanecer firme na verdade é
indispensável. Mas nenhuma dessas coisas substitui aquilo que sustenta toda
a vida cristã: permanecer perto de Jesus.
Deus te abençoe!
Pastor Sérgio Luis

