Aprendendo com o Mestre
Em Mateus 15, encontramos algumas perguntas feitas por Jesus que continuam confrontando profundamente o nosso coração. Não eram perguntas comuns. Eram perguntas do Mestre. Perguntas daquele que conhece a verdade, sonda as motivações, revela o coração e conduz seus discípulos a uma vida mais alinhada com Deus.
Jesus não perguntava porque não sabia. Ele perguntava para ensinar. Perguntava para despertar. Perguntava para revelar o que estava escondido. Suas perguntas tinham o poder de desmontar argumentos religiosos, corrigir percepções equivocadas, revelar doenças espirituais e apontar o caminho da obediência.
Neste capítulo, aprendemos com o Homem mais sábio que já andou nesta terra. Aprendemos com aquele que não apenas ensinava a verdade, mas era a própria Verdade encarnada.
A Palavra de Deus é mais importante que a religiosidade
A primeira pergunta aparece quando escribas e fariseus questionam Jesus porque seus discípulos não seguiam determinadas tradições dos anciãos. Eles estavam mais preocupados com costumes religiosos do que com a essência da vontade de Deus.
Então Jesus responde com uma pergunta poderosa:
“Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição?” Mateus 15:3
Essa pergunta revela um grande perigo espiritual: quando a tradição humana passa a ter mais peso do que o mandamento de Deus.
Jesus não estava ensinando desprezo pela história, pela memória, pela transmissão da fé ou por práticas saudáveis que ajudam o povo de Deus a caminhar. A própria Escritura mostra que há tradições importantes quando estão submissas à verdade revelada por Deus. O problema começa quando a tradição deixa de servir à Palavra e passa a competir com ela.
Foi isso que aconteceu com os escribas e fariseus. Eles haviam transformado a religiosidade em um sistema tão forte que, em alguns casos, anulavam o próprio mandamento de Deus. Tinham aparência de zelo, mas estavam distantes do coração do Pai.
E não vemos o mesmo acontecendo hoje?
Quantas vezes costumes, preferências, estilos, modelos, sistemas e formas humanas ocupam o lugar que pertence somente à Palavra de Deus? Quantas vezes defendemos mais aquilo que aprendemos culturalmente do que aquilo que está claramente revelado nas Escrituras? Quantas vezes confundimos vida espiritual com aparência religiosa?
A religiosidade se apega à forma. A Palavra gera vida.
A religiosidade protege tradições, ainda que o coração esteja distante. A Palavra revela o coração e chama ao arrependimento. A religiosidade pode impressionar os homens. A Palavra nos coloca diante de Deus.
O discípulo de Jesus precisa aprender esta verdade: nenhuma tradição humana pode ocupar o lugar da Palavra de Deus. A tradição pode ter seu valor, mas os mandamentos do Senhor são superiores, eternos e inegociáveis. Como está escrito, “a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente”.
Discernimento espiritual é fundamental
Depois de confrontar os religiosos, Jesus chama a multidão e ensina que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai da boca. Os discípulos, porém, demonstram dificuldade para compreender a profundidade daquela afirmação.
Então Jesus lhes pergunta:
“Até vós mesmos estais ainda sem entender?” Mateus 15:16
Essa pergunta revela que estar perto de Jesus não significa compreender automaticamente tudo o que Ele ensina. Os discípulos caminhavam com o Mestre, ouviam sua voz, presenciavam seus milagres, mas ainda precisavam amadurecer no entendimento espiritual.
Isso também fala conosco.
Podemos estar na igreja há anos e ainda não discernir bem algumas verdades fundamentais. Podemos ouvir muitos sermões e ainda permanecer superficiais. Podemos ter acesso à Bíblia, mas não permitir que a Palavra forme em nós uma mente espiritual.
Jesus esperava que seus discípulos avançassem no entendimento. Ele não queria apenas seguidores impressionados com milagres. Ele queria discípulos capazes de discernir a verdade.
O discernimento espiritual é fundamental para a vida cristã.
Sem discernimento, confundimos aparência com santidade. Confundimos tradição com obediência. Confundimos religiosidade com vida. Confundimos emoção com presença de Deus. Confundimos discurso bonito com verdade bíblica.
Por isso, precisamos estudar a Palavra com seriedade e dependência do Espírito Santo. A Bíblia não deve ser lida apenas como informação religiosa, mas como revelação de Deus para transformar nossa mente, corrigir nosso caminho e amadurecer nosso coração.
O apóstolo João nos lembra que recebemos a unção que vem do Santo. Paulo também ensina que o homem espiritual discerne bem todas as coisas. Isso não significa arrogância espiritual, mas dependência do Espírito para compreender e aplicar corretamente a Palavra.
Discernimento não é desconfiança de tudo. Discernimento é capacidade espiritual de distinguir o que vem de Deus, o que vem da carne, o que vem do engano e o que está de acordo com a verdade.
O discípulo maduro não vive apenas de impressões. Vive pela Palavra, guiado pelo Espírito.
A boca revela a saúde do coração
Em seguida, Jesus aprofunda o ensino e faz outra pergunta:
“Não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre e, depois, é lançado em lugar escuso?” Mateus 15:17
Jesus está explicando o que havia dito anteriormente: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.”
Com essa afirmação, o Mestre desloca o foco da religiosidade exterior para a condição interior do coração.
É claro que devemos cuidar da saúde do corpo. A boa alimentação, o cuidado físico e a responsabilidade com a própria vida são importantes. Mas Jesus está tratando de algo ainda mais profundo: a saúde espiritual.
O problema do homem não está apenas no que ele consome fisicamente, mas no que sai de dentro dele. Palavras revelam fontes. A boca manifesta o que está transbordando no coração.
Uma pessoa pode cuidar muito bem do corpo e, ainda assim, estar espiritualmente enferma. Pode alimentar-se com equilíbrio e, ao mesmo tempo, usar a boca para ferir, caluniar, difamar, maldizer, dividir, destruir reputações e espalhar morte.
Há cristãos que vigiam o que comem, mas não vigiam o que falam.
Há pessoas que se preocupam com a aparência, mas não tratam a amargura. Cuidam da imagem, mas não curam a língua. Protegem o corpo de alimentos prejudiciais, mas alimentam a alma com ressentimento, crítica, inveja e maldade.
Jesus nos ensina que a contaminação mais grave não é ritual; é moral e espiritual. Ela nasce no coração e se manifesta em atitudes, palavras, intenções e práticas.
Por isso, a boca precisa ser levada ao altar.
Nossas palavras precisam ser tratadas por Deus. Não podemos usar a mesma boca para adorar e ferir. Para bendizer a Deus e amaldiçoar pessoas. Para cantar louvores e espalhar contendas. Para proclamar a fé e semear destruição.
Quem aprende com o Mestre entende que santidade não é apenas o que se evita por fora, mas o que Deus transforma por dentro.
Compaixão também faz parte do discipulado
A última pergunta aparece no contexto da multiplicação dos pães. Uma grande multidão estava com Jesus havia dias. Eles estavam cansados, famintos e vulneráveis. Jesus olha para aquela necessidade e se move em compaixão.
Então pergunta aos discípulos:
“Quantos pães tendes?” Mateus 15:34
Essa pergunta é simples, mas profundamente espiritual.
Jesus poderia realizar o milagre sem envolver ninguém. Ele poderia criar pão do nada. Poderia alimentar a multidão sem perguntar coisa alguma aos discípulos. Mas Ele escolheu envolvê-los no processo.
A pergunta de Jesus não era apenas sobre quantidade de pães. Era sobre disponibilidade. Era como se o Mestre estivesse dizendo: “O que vocês têm nas mãos? O que pode ser colocado a serviço da necessidade do outro?”
Jesus ensinava, curava, libertava e também se importava com a fome das pessoas. Sua espiritualidade nunca foi indiferente à dor humana. Ele não via a multidão como massa. Via pessoas. Via fome. Via cansaço. Via necessidade. E se compadecia.
Isso também precisa nos ensinar.
A fé cristã não pode ser fria, egoísta e indiferente. Quem anda com Jesus precisa aprender a olhar para o próximo com compaixão. Não fomos chamados apenas para receber bênçãos, mas para repartir o que temos. Não fomos chamados apenas para ouvir ensinos, mas para nos tornarmos instrumentos nas mãos do Mestre.
Às vezes, achamos que temos pouco. Pouco tempo, poucos recursos, pouca força, pouca influência, pouca capacidade. Mas nas mãos de Jesus, pouco pode se tornar muito.
Sete pães e alguns peixinhos pareciam insuficientes diante de uma grande multidão. Mas quando aquilo foi entregue a Cristo, houve abundância. Todos comeram e ainda sobrou.
O milagre não começou com muito. Começou com entrega.
A pergunta continua ecoando: “Quantos pães tendes?”
O que temos colocado nas mãos de Jesus? Nossos dons? Nosso tempo? Nossa casa? Nossos recursos? Nossa profissão? Nossa voz? Nossa experiência? Nossa compaixão?
O Mestre ainda usa aquilo que entregamos a Ele para abençoar pessoas que estão famintas, cansadas e necessitadas.
As perguntas do Mestre continuam falando
As perguntas de Jesus em Mateus 15 atravessam o tempo e chegam até nós com força espiritual.
Quando Ele pergunta sobre tradição e mandamento, somos chamados a avaliar se a Palavra de Deus ocupa realmente o primeiro lugar em nossa vida.
Quando Ele pergunta sobre entendimento, somos confrontados a amadurecer no discernimento espiritual.
Quando Ele pergunta sobre o que contamina o homem, somos levados a examinar o coração e a forma como usamos a nossa boca.
Quando Ele pergunta sobre os pães, somos desafiados a sair da indiferença e colocar o que temos nas mãos dEle para abençoar o próximo.
Aprender com o Mestre é permitir que suas perguntas nos examinem.
Muitas vezes queremos respostas de Deus, mas ignoramos as perguntas que Ele nos faz. Queremos direção, mas resistimos ao confronto. Queremos crescimento, mas evitamos a correção. Queremos milagres, mas não entregamos os pães.
Mateus 15 nos convida a uma fé mais bíblica, mais profunda, mais discernida, mais pura e mais compassiva.
Que Deus nos livre de uma religiosidade que substitui a Palavra. Que Ele nos dê discernimento para compreender sua vontade. Que Ele trate o nosso coração e santifique a nossa boca. Que Ele nos faça sensíveis às necessidades do próximo.
E que, diante das perguntas do Mestre, não respondamos apenas com palavras, mas com uma vida rendida, obediente e disponível.
Porque quem aprende com Jesus não apenas ouve suas perguntas. Permite que elas transformem o coração.

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