A PATERNIDADE QUE GERA CURA — PARTE 1
Da ferida da orfandade à identidade de filho
Existem feridas que o tempo consegue amenizar, mas existem outras que
permanecem escondidas durante anos e continuam influenciando silenciosamente
nossa maneira de enxergar a nós mesmos, de construir relacionamentos e até de
nos aproximarmos de Deus.
Entre essas feridas, poucas possuem tanta força quanto aquelas
relacionadas à paternidade.
A ausência de um pai, sua rejeição, abandono, violência, frieza
emocional ou simplesmente sua incapacidade de demonstrar amor podem produzir
marcas profundas. Há pessoas adultas que continuam carregando dentro de si a
pergunta que talvez nunca tenham conseguido formular claramente: “Eu
realmente sou amado? Sou importante para alguém? Posso confiar em um pai?”
Foi justamente refletindo sobre a paternidade de Deus e observando o
relacionamento entre o Pai e Jesus Cristo que nasceu este texto.
Há pessoas que possuem pai vivo, mas cresceram experimentando uma
espécie de orfandade afetiva; outras nunca conheceram o próprio pai, enquanto
algumas tiveram relacionamentos profundamente feridos dentro de casa. Essas
experiências podem afetar nossa maneira de compreender a paternidade, inclusive
quando ouvimos a expressão “Deus é Pai”.
Entretanto, uma das grandes revelações do Evangelho é que Deus deseja
ser conhecido não apenas como Criador, Senhor e Rei, mas também como Pai. E
conhecer sua paternidade pode iniciar um profundo processo de restauração em
áreas da nossa identidade que foram marcadas pela rejeição, pelo abandono e
pela insegurança.
É importante esclarecer que isso não significa que Deus simplesmente
ocupe o lugar psicológico deixado por um pai terreno. Deus não é uma versão
melhorada do nosso pai humano. Na verdade, é o contrário: a paternidade de
Deus é o padrão perfeito pelo qual toda paternidade humana deveria ser
compreendida. Nossos pais podem falhar. Deus não falha. Pais terrenos podem
não saber amar corretamente. O amor do Pai é perfeito. Pais podem abandonar
seus filhos; Deus permanece fiel.
Por isso, talvez uma das primeiras etapas da cura seja permitir que a
Palavra de Deus corrija a imagem que construímos do Pai celestial.
QUANDO PAIS TERRENOS FALHAM, DEUS CONTINUA SENDO PAI
O Salmo 27:10 apresenta uma das declarações mais consoladoras das
Escrituras:
“Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá.”
O salmista não minimiza a dor do abandono. Ele não diz que perder o
cuidado dos pais é algo pequeno ou irrelevante. Pelo contrário, reconhece uma
das possibilidades mais dolorosas da experiência humana e, justamente nesse
lugar, declara que existe um acolhimento que não depende da fidelidade humana.
Isaías 63:16 também registra a confissão:
“Tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a
antiguidade.”
Esses textos aparecem justamente como resposta bíblica às feridas
provocadas pelo abandono e pela ausência parental.
Talvez você tenha recebido de seu pai aquilo de que precisava. Se foi
assim, agradeça a Deus por isso. Mas talvez sua história tenha sido muito
diferente. É possível que você tenha crescido tentando conquistar uma aprovação
que nunca veio, esperando um abraço que nunca aconteceu, procurando ouvir
palavras que jamais foram pronunciadas. É possível até que, sem perceber, você
tenha transferido essa experiência para Deus e começado a imaginar que também
precisa conquistar seu amor.
O Evangelho confronta essa mentira. O Pai não nos recebe porque
conseguimos provar nosso valor. Ele nos recebe pela graça, através de Cristo.
João 1:12 afirma que:
“a todos quantos o receberam,
deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu
nome”.
É em Cristo que somos introduzidos na família de Deus. Paulo amplia essa
verdade em Gálatas 4:4-7, mostrando que Deus enviou seu Filho para que
recebêssemos a adoção e, pelo Espírito, pudéssemos clamar: “Aba, Pai.”
Portanto, a cura da paternidade não consiste apenas em repetir para nós
mesmos que Deus é Pai. Ela acontece quando, por meio de Jesus Cristo, começamos
verdadeiramente a viver como filhos recebidos na casa do Pai.
O PAI NÃO APENAS NOS RECEBE; ELE NOS FORMA
Isaías 64:8 declara:
“Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso
oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos.”
Essa imagem acrescenta algo muito precioso à compreensão da paternidade
divina. Deus não apenas nos acolhe; Ele trabalha em nós.
O barro nas mãos do oleiro está sendo formado. Há áreas que precisam ser
corrigidas, partes que precisam ser restauradas e formas que precisam ser
transformadas. Isso significa que o amor do Pai não é um amor passivo que
simplesmente nos deixa como estamos. Ele nos ama demais para nos abandonar
às deformações que o pecado, as feridas e nossa própria história produziram.
A compreensão de Deus como Pai e Oleiro associa a paternidade, à pertencimento,
formação e restauração. Esta é a grande diferença que nos faz enxergar essa
verdade dentro do Evangelho: Deus está formando seus filhos para que se
tornem semelhantes a Cristo.
Talvez tenhamos aprendido durante anos a reagir como pessoas rejeitadas.
Talvez sejamos excessivamente defensivos, desconfiados ou dependentes da
aprovação dos outros. Talvez nossas experiências tenham nos ensinado a
acreditar que precisamos controlar tudo para não sermos novamente feridos. Mas,
quando começamos a compreender nossa identidade de filhos, essas estruturas
interiores começam a ser confrontadas.
O Pai não apenas cura nossas feridas; Ele também transforma aquilo que
nossas feridas fizeram conosco.
FILHOS DO MESMO PAI APRENDEM A TRATAR UNS AOS OUTROS COMO FAMÍLIA
Malaquias 2:10 pergunta:
“Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou o mesmo Deus? Por que
seremos desleais uns para com os outros?”
No contexto original, o profeta confrontava a infidelidade dentro do
povo da aliança. Mas o princípio apresentado é profundamente relevante: reconhecer
a paternidade de Deus deveria alterar nossa maneira de tratar aqueles que
pertencem à sua família.
O texto original desenvolve justamente essa ligação entre a consciência
de um Pai comum e a responsabilidade nos relacionamentos. Se verdadeiramente
reconhecemos que fomos recebidos pela graça, não podemos continuar tratando
nossos irmãos com arrogância, desprezo, competição e deslealdade.
A filiação precisa aparecer nos relacionamentos. Isso é especialmente
importante porque pessoas feridas tendem, algumas vezes, a ferir outras. Quem
viveu rejeição pode desenvolver mecanismos de proteção que acabam produzindo
distância. Quem foi traído pode ter dificuldade para confiar. Quem recebeu pouco
afeto pode não saber expressá-lo.
Mas o Pai começa a nos ensinar uma nova maneira de viver. Em sua
família, aprendemos a perdoar, servir, honrar, ouvir, caminhar em aliança e
restaurar relacionamentos.
A cura que Deus produz em nós não deve terminar em nós; ela precisa
alcançar a maneira como tratamos as pessoas.
QUEM DESCOBRE QUE É FILHO COMEÇA A ZELAR PELAS COISAS DO PAI
Em João 2, Jesus entra no templo e encontra aquele lugar sendo usado de
maneira incompatível com seu propósito. Então ordena:
“Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de
negócio.”
A expressão é significativa: “casa de meu Pai.” Jesus demonstra
zelo por aquilo que pertence ao Pai. João está falando do templo; a partir
desse princípio, podemos refletir sobre nossa responsabilidade com aquilo que
Deus nos confiou.
Filhos maduros não querem apenas receber do Pai. Começam também a se
importar com aquilo que importa para Ele.
Passamos a amar sua Igreja, sua Palavra, sua missão e sua vontade.
Começamos a perguntar não apenas “O que Deus pode fazer por mim?”, mas
também “Pai, o que o Senhor deseja realizar através de mim?”
Essa mudança é uma das evidências de maturidade espiritual. A criança
pensa principalmente no que pode receber da casa; o filho amadurecido começa a
assumir responsabilidade pela casa.
TRABALHAR COM O PAI NOS TORNA CADA VEZ MAIS PARECIDOS COM ELE
Em João 5:17, Jesus afirma:
“Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.”
A passagem, antes de tudo, revela a relação única de Jesus com o Pai e
sua identidade divina, algo que os próprios ouvintes compreenderam e que
explica a reação registrada no versículo seguinte. Não devemos reduzir esse
texto a uma simples analogia entre qualquer pai e filho.
Entretanto, existe uma aplicação poderosa: Jesus realizava aquilo que
via o Pai realizando. Mais adiante, em João 5:19, Ele declara que o Filho
nada pode fazer de si mesmo, senão aquilo que vir fazer o Pai.
Essa passagem enfatiza que a convivência e a participação na obra
produzem semelhança. Aplicada cuidadosamente à nossa condição de discípulos,
essa verdade é preciosa. Quanto mais caminhamos com Deus, ouvimos sua Palavra,
obedecemos à sua vontade e participamos de sua obra, mais nosso caráter deve
refletir aquilo que encontramos nele.
Não fomos chamados apenas para trabalhar para Deus. Fomos chamados para
caminhar com o Pai enquanto fazemos sua vontade.
Essa diferença é enorme. Podemos realizar muitas atividades religiosas
sem intimidade. Podemos ocupar-nos com a casa do Pai sem desfrutar da presença
do Pai. O objetivo não é somente aumentar nossa produtividade ministerial, mas
permitir que, enquanto servimos, nosso caráter seja transformado.
A VIDA DO FILHO PRECISA REVELAR O PAI
Jesus disse em Mateus 5:16:
“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”
Observe o destino das boas obras: o Pai é glorificado.
Quando alguém encontra em nós graça, misericórdia, integridade,
generosidade, justiça e amor, nossa vida deveria apontar para aquele que está
nos formando. A filiação deixa de ser apenas uma experiência interior e passa a
produzir uma vida que manifesta publicamente o caráter do Pai.
Isso nos ajuda a entender que cura e propósito caminham juntos. Deus não
restaura nossa identidade apenas para que nos sintamos melhor. Ele nos cura
também para que possamos viver de maneira diferente e para que, através dessa
nova maneira de viver, outras pessoas consigam perceber algo do coração Dele.
Filhos curados se tornam testemunhos do Pai que cura.
QUEM RECEBE MISERICÓRDIA APRENDE A PERDOAR
Marcos 11:25 registra a orientação de Jesus:
“E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém,
perdoai.”
A relação entre paternidade e
perdão é profunda. É importante, porém, compreender corretamente essa verdade.
Não compramos o perdão de Deus oferecendo perdão aos outros. Somos salvos pela
graça. Entretanto, uma pessoa que compreendeu a profundidade da misericórdia
que recebeu começa a perceber a incoerência de desejar ser perdoada enquanto se
recusa terminantemente a liberar perdão.
Essa é uma dimensão importante da cura, porque muitas feridas paternas
permanecem abertas não apenas por causa daquilo que aconteceu, mas também pela
maneira como continuamos emocionalmente presos àquele acontecimento.
Perdoar não significa dizer que o mal foi correto. Não significa fingir
que nada aconteceu, eliminar consequências ou necessariamente restaurar de
imediato todas as condições anteriores de um relacionamento.
Perdoar significa entregar a Deus o direito de vingança e decidir que a
ferida não continuará governando nossa vida.
Em muitos casos, esse processo não acontece de uma vez. Mas o Pai nos
conduz.
E há algo profundamente poderoso nisso: quando conseguimos colocar
diante de Deus até mesmo aquele que nos feriu, começamos a descobrir que nossa
história não precisa terminar no lugar onde fomos machucados.
DA ORFANDADE PARA A FILIAÇÃO
A grande questão, portanto, não é apenas quem foi nosso pai terreno ou o
que aconteceu em nossa história. Essas coisas são importantes e não precisam
ser negadas. Porém, através de Jesus Cristo, algo novo começa.
Recebemos uma identidade que nossa história não pode nos conceder nem
retirar. Somos recebidos em Cristo. Somos adotados. Recebemos
o Espírito de adoção. Começamos a chamar Deus de Pai. Somos formados por Ele. Aprendemos
a viver em sua família. Participamos de sua obra. Refletimos seu caráter. E
somos conduzidos a uma vida de perdão e restauração.
A paternidade de Deus não apaga magicamente tudo o que aconteceu
conosco, mas redefine quem somos a partir de uma realidade maior do que
aquilo que aconteceu conosco.
Você pode ter conhecido abandono sem precisar carregar para sempre uma
identidade de abandonado. Pode ter experimentado rejeição sem continuar
definindo-se como rejeitado. Pode ter crescido sem receber afirmação, mas agora
pode descobrir em Cristo uma voz maior dizendo que você foi recebido.
Talvez esta seja a verdade que seu coração precisa ouvir: Seu passado
pode explicar algumas de suas feridas, mas não precisa determinar
definitivamente sua identidade. Em Cristo, você foi chamado para conhecer Deus
como Pai.
E essa descoberta nos conduz naturalmente à próxima pergunta: se fomos
recebidos como filhos, como é viver diariamente em relacionamento com esse
Pai?
É justamente isso que encontraremos na segunda parte.
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis

Eu sou líder dos adolescentes da minha igreja, e os 02 primeiros sábados são cultos deles, e estava atras de palavras sobre paternidade espiritual. e encontrei aqui, muito obg e Deus continue usando vcs grandemente e lembre-se a unção que vcs respeitam é a unção que virá sobre vcs, amém? bjos e até mais
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