SOU FILHO, NÃO ESCRAVO
É possível
estar na casa do Pai, conhecer sua linguagem, servir em sua presença e ainda
viver interiormente como escravo. A filiação só transforma nossa vida quando
deixa de ser uma doutrina conhecida e se torna uma identidade vivida.
“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes outra vez
atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos:
Aba, Pai.” Romanos 8:14-15
Existem verdades bíblicas que conhecemos intelectualmente por muitos
anos sem necessariamente experimentá-las em toda a sua profundidade. Uma delas
é a verdade da filiação.
Sabemos dizer que Deus é nosso Pai, repetimos que somos filhos e até
cantamos sobre isso, mas a maneira como pensamos, reagimos, servimos, lidamos
com nossos erros e nos relacionamos com outras pessoas pode revelar que, apesar
da linguagem de filhos, ainda carregamos dentro de nós uma mentalidade de
escravos.
Paulo declara em Romanos 8 que aqueles que são guiados pelo Espírito de
Deus são filhos de Deus e que não recebemos um espírito de escravidão para
vivermos novamente dominados pelo medo. Recebemos o Espírito de adoção, e é
através dele que clamamos: “Aba, Pai.”
Essa não é apenas uma mudança de vocabulário. É uma mudança de
identidade. Deus não nos chama para permanecermos diante dele como empregados
inseguros, tentando provar o tempo todo que merecemos permanecer na casa. Ele
nos chama para um relacionamento de filhos.
O problema é que podemos pertencer à casa e continuar vivendo como se
fôssemos estranhos. Podemos estar próximos do Pai, mas não desfrutar do seu
amor. Podemos servi-lo todos os dias e ainda acreditar que precisamos
conquistar aquilo que ele já decidiu nos dar por graça. Podemos obedecer
dominados pelo medo de sermos rejeitados, em vez de obedecer porque fomos
amados. E, quando isso acontece, a vida cristã se torna pesada, cansativa e
marcada por cobranças que o próprio Pai nunca colocou sobre nós.
É Possível Estar Na Casa E Não Viver Como Filho
Jesus apresenta essa realidade de maneira impressionante em Lucas 15.
Normalmente, quando pensamos na parábola do filho pródigo, nossa atenção
se volta imediatamente para o filho mais novo, aquele que pediu sua herança,
deixou a casa, desperdiçou tudo e terminou vivendo uma situação humilhante. Ele
precisou reconhecer seus erros, arrepender-se e decidir voltar.
Quando retorna, porém, encontra algo que talvez não esperasse. O pai não
o recebe como empregado. Corre ao seu encontro, abraça-o, beija-o, manda trazer
novas vestes, coloca sandálias nos seus pés e um anel em seu dedo, e prepara
uma grande celebração. O filho imaginava que talvez conseguisse um lugar entre
os trabalhadores. O pai, entretanto, restaura sua identidade.
Essa parte da parábola é maravilhosa, mas existe outro filho na
história. Um filho que nunca deixou fisicamente a casa e, ainda assim, estava
muito distante do coração do pai.
O irmão mais velho estava no campo quando ouviu música e dança. Ao
descobrir que seu irmão havia voltado e que o pai preparara uma celebração,
ficou indignado. Recusou-se a entrar. Quando o pai saiu para conversar com ele,
sua resposta revelou aquilo que estava escondido havia muitos anos: “Há
tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste
um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos.”
Observe sua linguagem. Ele não fala como filho. Fala como funcionário.
Ele contabiliza anos de serviço. Conta ordens cumpridas. Compara
recompensas. Avalia aquilo que fez e aquilo que acredita não ter recebido. Está
dentro da casa, mas interpreta sua relação com o pai como uma relação de mérito
e pagamento.
Então o pai responde com uma das declarações mais profundas da parábola:
“Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.”
O problema nunca foi falta de provisão na casa. O problema estava na
mentalidade do filho.
Ele possuía acesso, mas não vivia como alguém que possuía acesso. Estava
cercado pela abundância do pai, mas enxergava apenas aquilo que imaginava estar
faltando.
Quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa com Deus?
Quando A Mentalidade De Escravo Contamina Nossa Relação Com Deus
Uma das primeiras evidências de um coração escravizado é a maneira como
lidamos com nossos erros.
Quando pecamos, em vez de corrermos para Deus em arrependimento, fugimos
dele em medo. Pensamos que precisamos permanecer afastados por algum tempo até
nos sentirmos novamente dignos de voltar. Começamos a imaginar que Deus não
ouvirá nossas orações, que desistiu de nós ou que precisa nos punir antes de
nos receber.
Esse comportamento revela que ainda não compreendemos plenamente o
coração do Pai.
Arrependimento verdadeiro não nos afasta de Deus. Ele nos conduz de
volta para seus braços. Quando reconhecemos nosso pecado, confessamos e nos
quebrantamos diante dele, encontramos graça para recomeçar. Deus não trata o
pecado com indiferença, mas também não rejeita o filho que volta quebrantado.
A mentalidade de escravo também aparece na justiça própria. Tornamo-nos
extremamente exigentes conosco e com os outros. Cobramos perfeição de nós
mesmos e, quando falhamos, mergulhamos em culpa. Depois usamos a mesma medida
para julgar as pessoas ao nosso redor. Um erro passa a definir completamente
alguém. Uma falha apaga todas as virtudes. Um pecado confessado parece nunca
ser suficientemente perdoado aos nossos olhos.
Foi exatamente isso que aconteceu com o irmão mais velho. Ele não
conseguiu enxergar a restauração do irmão. Só conseguia enxergar o passado.
O pai dizia: “Ele estava morto e reviveu; estava perdido e foi
achado.” O irmão dizia: “Ele desperdiçou teus bens.” Um celebrava a
restauração. O outro preservava a acusação.
Essa diferença revela muito sobre o coração. Quem entende a graça começa
também a olhar as pessoas com misericórdia. Isso não significa ignorar o
pecado, fingir que erros não aconteceram ou abandonar responsabilidade.
Significa acreditar que arrependimento, restauração e recomeço são realmente
possíveis.
O Escravo Vive Cobrando; O Filho Aprende A Desfrutar
Outra característica muito forte do coração escravizado é a ingratidão.
A pessoa começa a enxergar sua vida principalmente a partir do que ainda
não possui. Recebe algo de Deus, mas rapidamente perde a alegria porque outra
coisa continua faltando. Uma porta se abre, mas ela continua pensando na porta
que permanece fechada. Uma oração é respondida, mas imediatamente outra
necessidade toma todo o espaço.
Assim, nunca existe descanso. Foi isso que aconteceu com o filho mais
velho. Ele estava na casa. Tinha relacionamento com o pai. Possuía acesso a
tudo. Mas dizia: “Nunca me deste...” E o pai responde: “Tudo o que é
meu é teu.”
Talvez Deus tenha nos dado muito mais do que temos conseguido perceber.
A mentalidade de escravo transforma até mesmo o relacionamento com Deus
em uma espécie de contabilidade espiritual. Começamos a pensar: “Eu fiz isso
para Deus, portanto ele precisa fazer aquilo por mim.” Servimos, jejuamos,
ofertamos, trabalhamos, ajudamos pessoas e, sem perceber, criamos uma
expectativa de pagamento.
Quando algo não acontece como esperávamos, ficamos frustrados. “Depois
de tudo que fiz...” “Depois de tantos anos servindo...” “Depois de ser tão
fiel...” Essa é exatamente a linguagem do irmão mais velho.
Um filho pode pedir ao Pai. Pode apresentar suas necessidades, seus
sonhos e suas dores. Mas existe uma diferença enorme entre pedir com
confiança e cobrar como credor.
Deus não é nosso devedor. Tudo aquilo que recebemos dele é graça.
Isso também transforma nossa relação com as pessoas. Quem vive cobrando
Deus geralmente também vive cobrando os outros. Cobra atenção, reconhecimento,
carinho, reciprocidade e gratidão de maneira tão intensa que nenhum
relacionamento consegue suportar esse peso.
Quando compreendemos profundamente que somos amados pelo Pai, começamos
a libertar as pessoas da obrigação de preencher aquilo que somente Deus pode
preencher em nós.
Você Não Precisa Provar Seu Valor Servindo
Existe ainda uma escravidão muito comum dentro da vida cristã: acreditar
que nosso valor diante de Deus depende daquilo que fazemos para ele.
Há pessoas que não sabem simplesmente ser filhos. Elas só sabem
trabalhar. Servem em tudo. Assumem responsabilidades. Aceitam novas tarefas. Nunca descansam.
Sentem culpa quando não estão produzindo alguma coisa para o Reino. E,
lentamente, o serviço deixa de ser fruto do amor e começa a se tornar fonte de
identidade.
Isso é perigoso. Porque, quando não conseguem mais realizar aquilo que
faziam, começam a se sentir inúteis.
Se o ministério para, a identidade entra em crise. Se alguém assume sua
função, aparece insegurança. Se não recebem reconhecimento, sentem-se
rejeitadas. Se alguma coisa sai diferente do planejado, o perfeccionismo produz
irritação e frustração.
Mas Deus não ama você por causa do seu ministério. Ele não ama você
porque você prega. Não ama você porque serve. Não ama você porque ocupa uma
posição. Não ama você porque trabalha muito.
Você serve porque é amado. Você não é amado porque serve.
Essa ordem precisa permanecer muito clara dentro de nós. Fomos chamados
primeiro para sermos filhos. O serviço vem depois, como consequência de uma
vida que conhece o amor do Pai.
Quando esse princípio é invertido, transformamos o Reino em um sistema
de escravidão espiritual. Mas quando a filiação volta ao lugar certo, servir
deixa de ser peso e se transforma em prazer.
Saia Da Casa Do Escravo E Entre Na Alegria Dos Filhos
Existe uma pergunta que precisa acompanhar este artigo: em que áreas
da minha vida eu ainda penso como escravo?
Talvez seja na culpa. Talvez na comparação. Talvez na necessidade de
aprovação. Talvez na cobrança exagerada sobre si mesmo. Talvez na dificuldade
de perdoar. Talvez na ingratidão. Talvez na ideia de que Deus abençoa mais
algumas pessoas porque as ama mais. Talvez no serviço excessivo usado para
tentar conquistar valor.
Se você identificou alguma dessas áreas, isso não precisa produzir
condenação. Pode produzir libertação. Porque o Pai continua dizendo: “Meu
filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.”
Você não precisa viver do lado de fora da festa. O irmão mais velho
estava tão preso à sua própria justiça que não conseguia participar daquilo que
alegrava o coração do pai.
Não permita que isso aconteça com você. Celebre a graça. Celebre quando
alguém volta. Celebre restaurações. Celebre respostas de oração. Celebre aquilo
que Deus faz na vida de outras pessoas.
Não transforme a bênção do outro em prova de que Deus esqueceu você. O
Pai não possui filhos preferidos. Possui filhos amados.
Sua identidade não precisa nascer da comparação. Você pode descansar na
certeza de que pertence à casa.
Talvez por muito tempo você tenha vivido tentando conquistar uma posição
que já recebeu em Cristo. Talvez esteja cansado porque transformou sua relação
com Deus em desempenho. Então pare. Volte para o abraço do Pai.
Ouça novamente Romanos 8: Você não recebeu espírito de escravidão
para viver novamente dominado pelo medo. Recebeu o Espírito de adoção.
Você pode chamar Deus de Pai. Pode aproximar-se. Pode arrepender-se
quando errar. Pode pedir ajuda. Pode receber amor. Pode descansar. Pode servir
sem tentar provar seu valor. Pode alegrar-se com outros filhos. Pode viver em
liberdade. Essa é a vida que Deus deseja para nós.
Por isso, guarde esta declaração: Eu não sou um empregado tentando
conquistar meu lugar na casa. Eu sou filho.
Não preciso viver assustado diante do Pai. Não preciso negociar amor. Não
preciso comprar aceitação através do serviço. Não preciso competir com outros
filhos. Não preciso acreditar que meus erros cancelaram para sempre minha
identidade.
Posso voltar. Posso me arrepender. Posso ser restaurado. Posso viver
aquilo que Deus preparou para aqueles que pertencem à sua família.
A casa continua aberta. O Pai continua presente. Seus braços continuam
estendidos. E sua voz continua dizendo: “Filho, tudo o que é meu é teu.”
Talvez a maior libertação de que você precisa hoje não seja sair de
alguma circunstância externa. Talvez seja abandonar definitivamente uma
mentalidade que o manteve preso durante anos.
Então receba esta verdade: Sou
Filho, Não Escravo.
Viva como filho. Ore como filho. Sirva como filho. Arrependa-se como
filho. Descanse como filho. E permita que o amor do Pai transforme
completamente a maneira como você enxerga Deus, a si mesmo e as pessoas ao seu
redor.
Deus te abençoe!
Pastor Sérgio Luis

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