O CARÁTER DE CRISTO EM SEUS DISCÍPULOS
As Bem-aventuranças e a transformação do nosso caráter
Há uma diferença entre seguir uma religião e ser formado à imagem de
Jesus. É possível conhecer a Bíblia, frequentar uma igreja, participar de
cultos, exercer um ministério e, ainda assim, conservar áreas do caráter que
pouco se parecem com Cristo. O verdadeiro discipulado não consiste apenas em
aprender aquilo que Jesus ensinou, mas em permitir que aquilo que Ele ensinou
transforme profundamente aquilo que somos.
No Sermão do Monte, especialmente nas Bem-aventuranças de Mateus 5:3-12,
Jesus não apresenta apenas uma lista de comportamentos religiosos. Ele revela as
características interiores daqueles que pertencem ao Reino de Deus. Antes
de falar sobre aquilo que fazemos, Jesus trata daquilo que somos. Antes das
mãos, Ele alcança o coração.
Por isso, as Bem-aventuranças podem ser compreendidas como um verdadeiro
retrato do caráter que Deus deseja formar em seus filhos. O propósito do
discipulado não é apenas fazer com que conheçamos mais sobre Jesus, mas fazer
com que nos tornemos cada vez mais semelhantes a Ele.
A
HUMILDADE: O PONTO DE PARTIDA
Jesus começa dizendo:
“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos
céus” (Mateus 5:3).
Não é por acaso que a humildade aparece primeiro. Ela é o fundamento
sobre o qual as demais virtudes podem ser construídas. O humilde de espírito
reconhece sua absoluta dependência de Deus. Ele sabe que não é autossuficiente,
que tudo aquilo que possui procede da graça e que, sem Deus, nada pode fazer.
O orgulho produz exatamente o contrário. O orgulhoso tem dificuldade
para reconhecer seus erros, pedir perdão, ouvir, aprender e aceitar correção.
Frequentemente precisa ter razão, protege sua própria imagem e enxerga com
facilidade os defeitos dos outros, enquanto encontra enorme dificuldade para
reconhecer os seus.
Talvez uma das perguntas mais importantes para nossa vida espiritual
seja: quanto do nosso comportamento ainda é governado pelo orgulho?
Jesus nos chama para outro caminho. Ele mesmo declarou:
“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mateus 11:29).
Quanto mais Cristo é formado em nós, menos necessidade temos de provar
nossa importância.
O
QUEBRANTAMENTO: UM CORAÇÃO SENSÍVEL A DEUS
Jesus prossegue:
“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mateus 5:4).
Esse choro não é simplesmente tristeza emocional, frustração ou
autopiedade. Trata-se de um coração que ainda consegue ser tocado por Deus. É a
capacidade de reconhecer o pecado, lamentar aquilo que desagrada ao Senhor e
sentir a dor daqueles que sofrem.
Vivemos em uma geração que corre o risco de perder a sensibilidade.
Podemos assistir à dor alheia e permanecer indiferentes. Podemos pecar e não
sentir arrependimento. Podemos perceber nosso afastamento de Deus e continuar
normalmente.
Uma das maiores tragédias espirituais não é apenas cair; é cair e não se
quebrantar.
O quebrantamento nos leva novamente à presença de Deus. Como afirma
Isaías 57:15, o Senhor habita também com o contrito e abatido de espírito, para
vivificar o espírito dos abatidos.
A MANSIDÃO:
FORÇA SUBMETIDA A DEUS
Jesus declara:
“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mateus 5:5).
Mansidão não significa fraqueza, passividade ou ausência de
personalidade. O próprio Jesus era manso, mas jamais foi fraco. Mansidão é força
colocada debaixo do governo de Deus.
O manso não precisa reagir impulsivamente a toda provocação. Não precisa
vencer todas as discussões. Ele sabe ouvir, esperar, obedecer e controlar suas
reações.
Existem rebeldias barulhentas, manifestadas por gritos e confrontos, mas
também existem rebeldias silenciosas: pessoas que aparentemente concordam, mas
continuam determinadas a fazer apenas aquilo que desejam.
O discípulo de Jesus aprende progressivamente a dizer: “Senhor, não
quero simplesmente fazer a minha vontade; quero que a tua vontade governe a
minha vida.”
FOME E SEDE
DE JUSTIÇA: O DESEJO DE PARECER-SE COM JESUS
Jesus continua:
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos”
(Mateus 5:6).
Fome e sede são necessidades intensas. Jesus está descrevendo pessoas
cujo grande desejo não é apenas receber bênçãos, prosperar ou alcançar seus
próprios projetos. Elas desejam profundamente viver de maneira justa diante
de Deus.
Não se trata apenas de exigir justiça dos outros, mas de perguntar: Tenho
sido justo? Tenho tratado as pessoas corretamente? Minhas decisões refletem os
valores do Reino? Minha maneira de lidar com dinheiro, família, trabalho e
relacionamentos glorifica a Deus?
A justiça do Reino não pode ser separada do amor, da generosidade e da
misericórdia.
Por isso Jesus também ensinou:
“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça” (Mateus
6:33).
MISERICÓRDIA:
TRATAR AS PESSOAS COMO DEUS NOS TRATOU
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”
(Mateus 5:7).
Misericórdia é olhar para aquele que sofre e não permanecer indiferente.
É aproximar-se. É servir. É ajudar. É perdoar.
O maior modelo continua sendo Jesus.
Misericórdia significa aprender a tratar pessoas necessitadas da graça
da mesma maneira que gostaríamos de ser tratados por Deus quando necessitamos
da graça.
É fácil amar quem nos ama, servir quem nos recompensa e ser gentil com
quem nos trata bem. O caráter de Cristo aparece justamente quando nossa bondade
deixa de depender da resposta do outro.
O bom samaritano é uma poderosa demonstração disso. Ele encontrou alguém
ferido e decidiu interromper sua própria caminhada para cuidar daquele homem. A
verdadeira misericórdia não é apenas sentimento; transforma compaixão em
atitude.
PUREZA DE
CORAÇÃO: QUANDO DEUS TRANSFORMA O INTERIOR
Jesus declara:
“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mateus
5:8).
Cristianismo não é maquiagem espiritual. Deus não deseja apenas melhorar
nossa aparência religiosa; Ele deseja transformar nosso coração.
Um coração limpo abandona o fingimento, a duplicidade, a mentira e as
motivações escondidas. Busca viver em transparência diante de Deus.
Isso não significa que o discípulo nunca erre. Significa que, quando
erra, não deseja construir esconderijos para o pecado.
“Se, porém,
andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o
sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1:7).
Pureza também envolve nossas intenções. Podemos realizar uma ação
aparentemente correta com uma motivação errada. Deus, porém, não vê apenas
aquilo que fazemos; Ele conhece por que fazemos.
PACIFICADORES:
PESSOAS QUE INTERROMPEM CICLOS DE CONFLITO
“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”
(Mateus 5:9).
O pacificador não alimenta conflitos. Não transporta fofocas. Não sente
prazer em colocar pessoas umas contra as outras.
Ele procura reconciliar.
Quando é atacado, não reage automaticamente com outro ataque. Quando
encontra pessoas divididas, procura construir pontes. Quando poderia espalhar
uma informação que prejudicaria alguém, escolhe preservar.
O pacificador não é simplesmente alguém que gosta de paz; é alguém que
trabalha para produzi-la.
E talvez seja justamente nessa área que nosso caráter seja colocado à
prova com maior frequência: dentro de casa, no casamento, entre irmãos, no
trabalho, na igreja e nas redes sociais.
ALEGRIA
MESMO QUANDO SEGUIR JESUS TEM UM PREÇO
Finalmente, Jesus declara:
“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o
reino dos céus” (Mateus 5:10).
E prossegue falando daqueles que seriam insultados, perseguidos e
caluniados por causa dele.
Aqui encontramos uma das manifestações mais profundas da maturidade
cristã: continuar fiel quando ser fiel custa alguma coisa.
Nossa alegria não pode depender exclusivamente das circunstâncias. Se
nossa felicidade existe somente quando somos aceitos, elogiados e
compreendidos, estaremos sempre vulneráveis à opinião das pessoas.
Jesus apresenta outra realidade. Podemos permanecer firmes mesmo quando
somos incompreendidos. Podemos continuar amando quando somos rejeitados.
Podemos permanecer fiéis quando nossa fidelidade tem um preço.
Isso acontece porque a fonte da nossa alegria não está simplesmente
naquilo que acontece ao nosso redor, mas em Cristo vivendo dentro de nós.
AS
BEM-AVENTURANÇAS SÃO UM ESPELHO
Talvez devêssemos terminar esta reflexão não perguntando quanto
conhecemos das Bem-aventuranças, mas quanto das Bem-aventuranças pode ser
encontrado em nós.
Sou humilde ou ainda preciso sempre ter razão?
Meu coração ainda se quebranta diante de Deus?
Tenho reagido com mansidão?
Tenho fome e sede de justiça ou apenas fome das bênçãos de Deus?
Sou misericordioso com aqueles que falham?
Minhas intenções são puras?
Tenho produzido paz ou alimentado conflitos?
Continuo fiel quando seguir Jesus me custa alguma coisa?
Essas perguntas transformam Mateus 5 em um espelho diante da nossa alma.
Jesus não nos chamou simplesmente para admirarmos o caráter dele. Ele
nos chamou para sermos transformados à sua imagem.
O verdadeiro discípulo não é aquele que simplesmente sabe muito sobre
Cristo. É aquele em quem, pouco a pouco, Cristo começa a ser visto.
Que nossa oração seja:
“Senhor, forma o caráter de Jesus em mim. Que minhas palavras, atitudes,
escolhas, relacionamentos e reações revelem cada vez menos de mim e cada vez
mais de Cristo.”
Porque, no final, a maior evidência de que estamos caminhando com
Jesus não é apenas aquilo que sabemos sobre Ele, mas o quanto estamos nos
tornando semelhantes a Ele.
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis

