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quinta-feira, 23 de abril de 2020

TUDO PODE SER MUDADO PELA ORAÇÃO



TUDO PODE SER MUDADO PELA ORAÇÃO

 

“Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.”
Tiago 5:16

 

Existem situações na vida que parecem impossíveis de mudar.

Uma porta que permanece fechada. Uma enfermidade que chegou inesperadamente. Uma crise dentro de casa. Um filho por quem você ora há anos. Um casamento atravessando uma tempestade. Uma situação financeira que parece não ter saída. Uma ferida emocional que continua doendo. Uma decisão difícil. Uma circunstância que, humanamente falando, parece ter chegado ao limite.

Quando nossas possibilidades terminam, somos tentados a pensar que tudo terminou. Mas a Bíblia nos apresenta outra perspectiva.

Quando nossos recursos se esgotam, os recursos de Deus continuam inesgotáveis.

É nesse ponto que precisamos redescobrir uma das maiores dádivas concedidas por Deus aos seus filhos: A ORAÇÃO.

Tiago escreve:

“Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará [...] Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.”
Tiago 5:13-16

Observe como a oração aparece nas mais diferentes circunstâncias da vida. Sofrimento? Ore. Alegria? Louve. Enfermidade? Ore. Pecado? Confesse. Necessidade? Ore.

Tiago está nos ensinando que não existe uma estação da vida na qual Deus deva ser colocado à margem. Nos dias ruins, buscamos a Deus. Nos dias bons, agradecemos a Deus. Nas enfermidades, clamamos a Deus. Nas vitórias, glorificamos a Deus.

A oração não é apenas um recurso para momentos de emergência. A oração é um estilo de vida de quem aprendeu a depender de Deus.

 

QUANDO VOCÊ NÃO SOUBER O QUE FAZER, ORE

Tiago começa com uma pergunta extremamente prática:

“Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração.”
Tiago 5:13

Não existe nenhuma tentativa de romantizar o sofrimento.

Tiago reconhece que pessoas de fé sofrem. Cristãos atravessam crises. Servos de Deus choram. Existem dias em que o coração fica apertado. Existem momentos em que não conseguimos entender aquilo que está acontecendo. E a primeira orientação de Tiago é: Ore.

Nossa tendência, entretanto, costuma ser outra. Quando alguma coisa acontece, procuramos imediatamente alguém. Telefonamos. Mandamos mensagens. Buscamos opiniões. Tentamos encontrar uma solução. Fazemos cálculos. Imaginamos possibilidades. E somente quando todos os nossos recursos fracassam, lembramos: “Eu preciso orar.”

Mas a oração não deveria ser nosso último recurso. Deveria ser nossa primeira resposta. Isso não significa que não devamos procurar médicos, conselheiros, profissionais, familiares ou pessoas que possam nos ajudar. Deus pode utilizar todos esses recursos.

A questão é a ordem da nossa dependência. Antes de colocar nossa esperança nos recursos humanos, precisamos colocar nossa confiança em Deus.

 

A ORAÇÃO MUDA NOSSA MANEIRA DE ATRAVESSAR AS TEMPESTADES

Jesus nunca prometeu que seus discípulos viveriam sem tempestades. Na verdade, algumas das experiências mais extraordinárias dos discípulos aconteceram justamente no meio delas.

Em Marcos 4, os discípulos atravessavam o mar quando uma grande tempestade se levantou. O barco começou a encher de água. Homens experientes no mar ficaram desesperados.

E Jesus estava no barco. Eles correram até Ele.

“Mestre, não te importa que pereçamos?”
Marcos 4:38

Jesus se levantou, repreendeu o vento e disse ao mar:

“Acalma-te, emudece!”
Marcos 4:39

E houve grande bonança.

Talvez você esteja enfrentando uma tempestade neste momento. Então lembre-se: Jesus continua presente no barco.

A oração nos faz voltar os olhos para aquele que possui autoridade sobre aquilo que está nos amedrontando.

Nem sempre Deus eliminará imediatamente a tempestade. Às vezes Ele acalma o mar. Em outras ocasiões, Ele fortalece seus filhos para atravessá-lo. Mas em ambos os casos existe uma certeza: Você não atravessa a tempestade sozinho.

 

QUANDO ESTIVER ALEGRE, NÃO SE ESQUEÇA DE DEUS

Existe algo muito interessante em Tiago 5:13. Depois de dizer: “Está alguém sofrendo? Faça oração”, Tiago acrescenta: “Está alguém alegre? Cante louvores.”

Isso revela um perigo muito comum. Muitas pessoas lembram de Deus quando tudo está dando errado, mas se esquecem dEle quando tudo começa a dar certo. Na crise, oram. Na vitória, relaxam. Na necessidade, buscam. Na abundância, esquecem.

Mas uma vida de comunhão com Deus não pode funcionar dessa maneira.

Deus não deseja participar apenas das nossas lágrimas. Ele também deve participar das nossas celebrações.

Conseguiu um emprego? Agradeça. Uma porta se abriu? Louve. Sua família experimentou uma bênção? Celebre diante de Deus. Recebeu uma resposta de oração? Conte o testemunho. Está vivendo um período de paz? Reconheça de onde veio essa paz.

A gratidão transforma bênçãos recebidas em adoração oferecida.

Não procure Deus somente quando precisar que Ele faça alguma coisa. Busque Deus porque você o ama.

 

A ORAÇÃO DA FÉ DIANTE DA ENFERMIDADE

Tiago continua:

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor.”
Tiago 5:14

A Igreja não pode abandonar a oração pelos enfermos.

Tiago não diz: “Explique ao enfermo por que milagres não acontecem mais.” Ele diz: “Façam oração sobre ele.”

Devemos continuar orando. Devemos continuar crendo. Devemos continuar apresentando nossas enfermidades diante daquele que continua sendo poderoso.

Ao mesmo tempo, fé não significa desprezar os meios pelos quais Deus também pode trazer cuidado. Podemos orar e procurar tratamento. Podemos pedir um milagre e agradecer pela medicina. Podemos buscar a intervenção sobrenatural de Deus enquanto utilizamos responsavelmente os recursos disponíveis.

Não precisamos colocar oração e medicina como adversárias. Deus continua soberano sobre ambas.

Algumas respostas podem acontecer de maneira extraordinária e imediata. Outras podem ocorrer ao longo de processos, tratamentos e acompanhamento.

E existem situações em que, mesmo orando intensamente, a resposta não acontece da maneira que esperávamos. Isso não significa que a oração fracassou. Significa que oração não é uma técnica para controlar Deus; é relacionamento de confiança com Deus.

Nós pedimos. Nós cremos. Nós perseveramos. E permanecemos submetidos à sua sabedoria e vontade.

 

ORAÇÃO TAMBÉM TRANSFORMA RELACIONAMENTOS

Tiago então toca em outra área:

“Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros...”
Tiago 5:16

Algumas das maiores prisões da vida não possuem grades. São construídas por ressentimentos, mágoas, orgulho, culpa, ofensas acumuladas, palavras que nunca foram esquecidas, relacionamentos quebrados.

E muitas vezes queremos que Deus transforme as pessoas ao nosso redor sem permitir que Ele transforme primeiro nosso próprio coração. Existem orações que começam pedindo: “Senhor, muda aquela pessoa”, e terminam dizendo: “Senhor, começa mudando a mim.”

A oração nos coloca diante de Deus. E diante dEle nossas máscaras começam a cair. Reconhecemos nossos erros. Percebemos nossas motivações. Somos confrontados pelo Espírito Santo. Aprendemos a pedir perdão e também recebemos graça para perdoar.

Jesus nos ensinou a orar:

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores.”
Mateus 6:12

Perdoar não significa chamar o mal de bem. Não significa negar a dor. Não significa necessariamente restaurar imediatamente uma relação sem limites ou prudência. Perdoar significa renunciar à vingança pessoal e entregar a Deus a dívida emocional que estamos tentando cobrar.

E muitas vezes precisamos orar: “Senhor, eu quero perdoar, mas ainda não consigo. Trabalha em meu coração.”

 

MUITO PODE A ORAÇÃO

Então chegamos a uma das declarações centrais de Tiago:

“Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.”
Tiago 5:16

Talvez tenhamos nos acostumado demais com esse versículo. Leia novamente: MUITO PODE. Não diz “pouco pode”. Não diz que oração serve apenas para produzir conforto psicológico.

Tiago está descrevendo uma oração eficaz, intensa e perseverante.

Precisamos recuperar a expectativa bíblica de que Deus ouve oração. Não porque nossas palavras possuem algum poder mágico. Não porque conseguimos manipular o mundo espiritual através de determinadas fórmulas. Não porque nossa intensidade obriga Deus a fazer aquilo que queremos.

A oração é poderosa porque o Deus para quem oramos é poderoso. Essa diferença é fundamental.

O poder não está no homem que ora. O poder está no Deus que responde.

 

ELIAS ERA UM HOMEM COMO NÓS

Talvez alguém pense: “Mas isso deve funcionar para grandes homens de Deus. Minha fé é pequena demais.” Tiago antecipa essa objeção. Ele escreve:

“Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos...”
Tiago 5:17

Isso é extraordinário. Tiago poderia simplesmente apresentar Elias como um grande profeta. Mas faz questão de lembrar que ele era humano como nós.

Elias teve medo. Experimentou cansaço. Enfrentou momentos de profunda pressão emocional. Teve dias extraordinários e também dias em que quis desistir. Mas Elias orava.

“E orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos.”
Tiago 5:17-18

Observe: “E orou, de novo...” Talvez essa pequena expressão seja uma palavra para alguém hoje. Ore de novo.

Você orou ontem? Ore de novo. Já pediu? Ore de novo. Ainda não recebeu a resposta? Ore de novo. Está cansado? Ore de novo. As circunstâncias continuam iguais? Ore de novo.

Não porque a repetição obrigará Deus a responder, mas porque perseverança é uma das expressões da fé que continua dependendo dEle.

 

QUANDO O CÉU PARECE FECHADO, CONTINUE ORANDO

Elias conheceu o que era olhar para um céu sem nuvens.

Em 1 Reis 18, depois de anos de seca, ele sobe ao monte Carmelo e começa a orar. Manda seu servo olhar para o mar. Nada. Ele manda novamente. Nada. Outra vez. Nada.

Até que, depois de repetidas vezes, o servo retorna dizendo:

“Eis que se levanta do mar uma nuvem pequena como a palma da mão de um homem.”
1 Reis 18:44

Era pequena. Mas era suficiente para anunciar que a chuva estava chegando.

Existem momentos em que nossa resposta começa como uma pequena nuvem no horizonte.

Não despreze os pequenos sinais daquilo que Deus está começando a fazer.

Talvez você ainda não esteja vendo a chuva. Continue orando.

 

A ORAÇÃO NOS POSICIONA DIANTE DO IMPOSSÍVEL

Há situações que ultrapassam completamente nossa capacidade. Foi assim diante do Mar Vermelho. Foi assim diante das muralhas de Jericó. Foi assim diante de Golias. Foi assim diante da prisão de Pedro. Foi assim diante do túmulo de Lázaro.

As Escrituras estão repletas de histórias nas quais os recursos humanos chegaram ao limite. E então Deus manifestou seu poder.

Isso não significa que podemos utilizar essas histórias como garantia de que Deus repetirá exatamente o mesmo milagre em todas as nossas circunstâncias. Elas nos ensinam algo ainda mais fundamental: nenhuma situação está além do alcance da soberania de Deus. É por isso que podemos orar.

 

ORAÇÃO NÃO É PASSIVIDADE

Existe ainda algo importante. Orar não significa cruzar os braços.

Neemias orou e trabalhou. Paulo orou e pregou. Jesus orava e agia. A Igreja em Atos orava e testemunhava.

A verdadeira oração não produz irresponsabilidade; produz direção.

Há momentos em que, depois de orar, Deus dirá: “Espere.” Em outros: “Vá.” Em alguns: “Perdoe.” Em outros: “Confronte.” Talvez: “Procure ajuda.” “Faça aquela ligação.” “Reconcilie-se.” “Comece.” “Pare.” “Mude.”

A oração não serve para convencer Deus a participar dos nossos planos. Oramos para que nosso coração seja alinhado aos planos dEle.

 

A ORAÇÃO PODE TRAZER VIDA A LUGARES QUE PARECEM MORTOS

Em Ezequiel 37, o profeta é levado a um vale cheio de ossos secos. O cenário é de morte. Humanamente, não existe esperança.

Deus pergunta:

“Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos?”
Ezequiel 37:3

Ezequiel responde:

“SENHOR Deus, tu o sabes.”

Então Deus ordena que o profeta fale conforme a palavra que havia recebido.

Os ossos começam a se aproximar. Nervos aparecem. Carne cresce. Pele os cobre. E finalmente vem o sopro de vida.

A visão tinha um significado específico para Israel, mas permanece nela um princípio poderoso sobre o Deus que Ezequiel conheceu: Deus pode agir onde nossos olhos enxergam apenas impossibilidade.

Talvez exista alguma área da sua vida que hoje pareça um vale de ossos secos. Não fabrique promessas que Deus não fez. Mas também não limite Deus ao diagnóstico das circunstâncias.

Ore. Busque sua Palavra. Ouça sua direção. E coloque sua esperança nEle.

 

O QUE VOCÊ PRECISA COLOCAR DIANTE DE DEUS HOJE?

Talvez esta seja a pergunta mais importante deste texto.

Qual é sua aflição? Qual é sua enfermidade? Qual é sua preocupação? Qual relacionamento precisa de intervenção? Qual área da sua vida parece impossível de mudar? Por quem você deixou de orar? Qual oração você abandonou porque demorou demais?

Talvez seja hora de voltar ao lugar da oração. Não para exigir. Não para determinar a Deus aquilo que Ele deve fazer. Mas para clamar, buscar, interceder, permanecer, crer, descansar e dizer: “Senhor, eu não consigo mudar isso. Mas continuo confiando que nada está fora do alcance das tuas mãos.”


ORE DE NOVO

Tiago nos deixa diante de uma verdade extraordinária: Existe oração para o sofrimento. Existe louvor para a alegria. Existe oração diante da enfermidade. Existe oração no processo de confissão e restauração. Existe oração perseverante. E existe um Deus que continua ouvindo seus filhos.

Talvez você esteja esperando que tudo mude para voltar a acreditar. Faça o caminho contrário: volte a orar enquanto ainda nada mudou.

Ore quando estiver forte. Ore quando estiver fraco. Ore quando sentir. Ore quando não sentir. Ore quando houver respostas. Ore quando houver silêncio. Ore quando o céu estiver claro. E ore quando parecer fechado.

Porque nossa confiança não está naquilo que conseguimos enxergar. Nossa confiança está em Deus.

E quando oramos, talvez Deus transforme imediatamente aquilo que está diante de nós. Talvez Ele utilize pessoas, processos e circunstâncias para produzir a resposta. Talvez Ele nos mande esperar. E talvez, antes de transformar aquilo que está ao nosso redor, Ele comece transformando aquilo que está dentro de nós. Mas nunca pense que permanecer diante de Deus é perda de tempo.

A oração continua sendo uma das maiores expressões da nossa dependência, da nossa fé e da nossa comunhão com o Pai.

Por isso, diante do impossível, ore. Ore diante da aflição, da enfermidade, por sua família, por seus filhos, pela Igreja e pelos seus sonhos e decisões. E quando você achar que já orou demais, ore de novo.

Porque:

“Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.”
Tiago 5:16

Tudo pode ser colocado diante de Deus em oração. E nenhuma circunstância é grande demais para o Deus a quem oramos.

Deus te abençoe!

Pr. Sérgio Luis

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

OS PRIVILÉGIOS DE TER O SENHOR COMO PASTOR Provisão, descanso, direção e segurança no Salmo 23



OS PRIVILÉGIOS DE TER O SENHOR COMO PASTOR


Provisão, descanso, direção e segurança no Salmo 23

 

“O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.”
Salmo 23:1

 

Poucos textos bíblicos atravessaram tantas gerações com tanta força quanto o Salmo 23. Ele é recitado em momentos de alegria, lido em períodos de crise, lembrado em hospitais, funerais, cultos e momentos de oração. Talvez isso aconteça porque suas palavras alcançam uma necessidade profundamente humana: a necessidade de saber que não estamos sozinhos e que existe alguém capaz de nos conduzir quando não sabemos para onde ir.

Davi conhecia muito bem a figura que utilizou. Antes de se tornar rei, havia sido pastor de ovelhas. Sabia o que significava conduzir um rebanho, procurar alimento, encontrar água, proteger contra predadores e buscar uma ovelha que se afastasse. Por isso, quando declara “O SENHOR é o meu pastor”, ele não está construindo uma metáfora romântica. Está fazendo uma confissão profunda de dependência.

À luz do Novo Testamento, essa imagem ganha ainda mais profundidade quando Jesus declara em João 10:11:

 “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.”

O Salmo 23 não precisa ser tratado tecnicamente como uma profecia messiânica explícita para que reconheçamos que a figura do Pastor encontra sua expressão plena em Jesus Cristo. Ele conhece suas ovelhas, chama-as pelo nome, conduz, protege e, acima de tudo, entregou sua própria vida por elas.

Por isso, talvez a maior riqueza do Salmo 23 não esteja apenas naquilo que recebemos, mas em quem está caminhando conosco.

 

Tudo Começa Com Uma Declaração De Pertencimento

Davi não diz apenas: “O SENHOR é um pastor”. Ele declara: “O SENHOR é o meu pastor.”

Há uma diferença enorme entre conhecer informações sobre Deus e viver debaixo de seu cuidado. Podemos saber que Ele é poderoso, fiel e amoroso, mas o Salmo nos conduz para uma dimensão pessoal: Ele é meu Pastor.

A ovelha encontra segurança justamente porque aceita ser conduzida. Ela não possui a visão ampla do território, não conhece todos os perigos do caminho e não consegue sobreviver indefinidamente sem direção. Sua segurança depende daquele que a conduz.

Isso confronta uma das grandes características da nossa natureza: a autossuficiência. Gostamos de controlar, decidir e prever. Queremos entender cada etapa antes de obedecer. Entretanto, a vida com Deus exige confiança.

Reconhecer o Senhor como Pastor significa dizer: “Eu não conheço todo o caminho, mas confio naquele que me conduz.”

Essa é a base de todo o restante do Salmo.

 

“Nada Me Faltará” Não Significa Uma Vida Sem Necessidades

Depois de declarar que o Senhor é seu Pastor, Davi afirma: “nada me faltará”. Essa frase precisa ser compreendida com equilíbrio para que não se transforme numa promessa que a própria Bíblia não faz.

Cristãos podem atravessar períodos de escassez. Paulo diz em Filipenses 4 que conheceu tanto abundância quanto necessidade e que, em alguns momentos, experimentou fome. Portanto, o Salmo 23 não promete que nunca teremos perdas, enfermidades, dificuldades financeiras ou momentos em que algo desejado nos será negado.

A declaração é mais profunda. Debaixo do cuidado do Pastor, não nos faltará aquilo que Deus sabe ser necessário para cumprir seus propósitos em nossa vida.

Isso significa que nossa confiança não está na ausência de dificuldades, mas na presença fiel daquele que cuida de nós.

Há momentos em que acreditamos que precisamos de alguma coisa e Deus, em sua sabedoria, sabe que aquilo não seria bom para nós. Em outros, Ele permite períodos de limitação nos quais aprendemos dependência, contentamento e confiança.

Por isso, “nada me faltará” não é a declaração de alguém que controla as circunstâncias. É a confissão de alguém que confia no caráter do Pastor.

O Salmo 34:10 diz que “aos que buscam o SENHOR bem nenhum lhes faltará”, e o Salmo 84:11 afirma que Deus “nenhum bem sonega aos que andam retamente”. O ponto central é que o Senhor sabe o que é verdadeiramente bom, mesmo quando nossa compreensão é limitada.

 

O Pastor Nos Conduz Ao Descanso

Davi prossegue dizendo: “Ele me faz repousar em pastos verdejantes.”

Essa imagem comunica muito mais do que alimento. Uma ovelha não repousa facilmente quando está insegura, ameaçada ou faminta. Para descansar, precisa sentir-se protegida.

Por isso, o descanso no Salmo 23 nasce da confiança no Pastor.

Existem pessoas fisicamente paradas, mas interiormente exaustas. Dormem, mas não descansam. Sentam-se, mas a mente continua correndo. O corpo pode estar imóvel enquanto a alma permanece carregada de preocupações, medos e pressões.

Jesus oferece justamente esse tipo de descanso em Mateus 11:28-29:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei [...] e achareis descanso para a vossa alma.”

Perceba que Ele não promete apenas repouso para o corpo. “Descanso para a alma.”

Talvez esse seja um dos grandes privilégios de ter Jesus como Pastor: aprender que nossa segurança não depende de conseguirmos controlar todas as coisas. Podemos descansar porque existe alguém maior do que nós cuidando do caminho.

O lugar do alimento torna-se também o lugar do descanso, porque a presença do Pastor comunica segurança.

 

Ele Nos Conduz Às Águas Tranquilas

O salmista continua: “Leva-me para junto das águas de descanso.”

No sentido imediato do Salmo, a imagem descreve a provisão segura do Pastor. Ele não leva a ovelha para águas perigosas ou violentas, mas para um lugar onde ela possa beber.

Essa imagem, porém, nos lembra outras grandes promessas das Escrituras relacionadas à sede interior.

Jesus disse à mulher samaritana:

“Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.”
João 4:14

Mais tarde, em João 7:37-38, Ele declarou:

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim [...] do seu interior fluirão rios de água viva.”

João explica que Jesus estava falando sobre o Espírito Santo.

Esses textos nos mostram que existe uma sede que nenhuma conquista humana consegue resolver. Podemos tentar preenchê-la com dinheiro, relacionamentos, entretenimento, reconhecimento ou realizações, mas continuaremos descobrindo que a alma possui uma fome e uma sede que pertencem à dimensão espiritual.

“Cristo não oferece apenas água para alguns momentos; Ele se apresenta como aquele em quem encontramos a fonte da vida.”

 

O Bom Pastor Restaura A Nossa Alma

Davi prossegue: “Refrigera-me a alma.”

A expressão hebraica pode carregar também a ideia de restaurar, renovar ou fazer retornar. Isso amplia profundamente o significado do versículo.

Há momentos em que nossa maior necessidade não é receber algo novo, mas ser restaurado por dentro.

A alma se cansa, acumula decepções, carrega medos e sofre com perdas. É, também, afetada por palavras, relacionamentos e situações que nos atravessam ao longo da vida.

Talvez ninguém ao nosso redor consiga perceber. Podemos continuar trabalhando, servindo, sorrindo e cumprindo nossas responsabilidades enquanto interiormente estamos esgotados. Mas o Pastor conhece a alma. Ele vê aquilo que os outros não enxergam.

O Salmo 107:9 declara que Deus “satisfaz à alma sedenta e enche de bens a alma faminta”. Essa é uma verdade preciosa: existe restauração para nossa vida interior na presença de Deus.

Isso não significa ignorar a importância de conversas, aconselhamento, descanso, cuidado emocional ou ajuda profissional quando necessária. Deus pode utilizar diferentes meios. Mas, no centro da nossa restauração espiritual, permanece uma verdade: há dimensões do coração que somente a presença do Pastor consegue alcançar.

 

Ele Nos Conduz Por Caminhos De Justiça

Davi declara: “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.”

O Pastor não apenas alimenta e restaura. Ele direciona. Isso é fundamental porque nem todo caminho que parece bom realmente termina bem.

Provérbios 14:12 adverte:

“Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte.”

Precisamos de direção. As veredas da justiça representam caminhos coerentes com o caráter e a vontade de Deus. O Pastor não deseja simplesmente proporcionar conforto às ovelhas; deseja também conduzi-las pelo caminho correto.

O Salmo 25:4 registra uma oração que deveríamos repetir:

“Faze-me, SENHOR, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas.”

Isso exige humildade. É possível pedir a Deus que abençoe nossos caminhos sem perguntar se foram Ele que os escolheu.

A vida sob o pastoreio de Deus precisa inverter essa lógica. Em vez de simplesmente decidir e depois pedir sua bênção, aprendemos a perguntar primeiro: “Senhor, qual é o teu caminho?”

Quando ouvimos sua Palavra e seguimos sua direção, somos conduzidos por veredas que refletem sua justiça.

Não significa que jamais tropeçaremos ou erraremos. Significa que o Pastor continua nos chamando de volta para o caminho correto.

 

A Promessa Não É Uma Vida Sem Vales

Chegamos então a uma das partes mais conhecidas do Salmo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.”

Talvez aqui esteja uma das maiores correções que o Salmo 23 faz em nossa maneira de compreender a fé. Davi não diz: “Nunca entrarei no vale.” Também não declara: “Quando eu chegar perto do vale, Deus imediatamente me tirará de lá.” Ele diz: “Ainda que eu ande pelo vale...”

O vale faz parte da caminhada. A vida cristã não nos torna imunes à dor, à perda, à perseguição, à enfermidade ou ao sofrimento. Jesus nunca prometeu uma existência sem aflições.

A grande promessa é outra: “Tu estás comigo.”

Talvez esta seja uma das maiores verdades de todo o Salmo: O maior privilégio da ovelha não é nunca passar pelo vale; é nunca precisar atravessá-lo sozinha.

Existem momentos em que Deus nos livra do vale. Em outros, Ele nos conduz através dele. Em ambos os casos, sua presença permanece.

Por isso, o medo perde seu domínio. Não porque não exista perigo, mas porque existe alguém maior do que o perigo caminhando conosco.

 

A Vara E O Cajado Trazem Segurança

Davi acrescenta: “O teu bordão e o teu cajado me consolam.”

Os instrumentos nas mãos do Pastor comunicam proteção, correção e direção. O cajado pode trazer a ovelha de volta quando ela se afasta. A vara representa autoridade e proteção contra aquilo que ameaça o rebanho.

O detalhe impressionante é a palavra utilizada por Davi: “Me consolam.” Aquilo que está nas mãos do Pastor não produz terror na ovelha que confia nele. Produz segurança. Até mesmo a correção de Deus, quando compreendida corretamente, revela seu cuidado.

Hebreus ensina que o Pai disciplina aqueles a quem ama. Isso significa que nem toda intervenção desconfortável de Deus em nossa vida é rejeição. Algumas vezes, é justamente prova de que Ele continua nos conduzindo.

“Um Pastor que nunca corrige não está realmente cuidando.”

 

Deus Prepara Uma Mesa Em Meio À Oposição

No versículo 5, a imagem parece mudar. Davi deixa a figura do campo e começa a descrever Deus como um anfitrião: “Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários.”

Isso é extraordinário. Os adversários continuam presentes. Mas a mesa também está.

Deus não precisa remover todos os inimigos para demonstrar seu cuidado. Ele consegue sustentar, honrar e fortalecer seu filho mesmo enquanto a oposição ainda existe.

A mesa preparada fala de provisão, hospitalidade e segurança. Talvez você esteja vivendo uma estação em que gostaria que determinadas pessoas, situações ou pressões simplesmente desaparecessem. Em alguns momentos Deus fará isso. Em outros, porém, demonstrará algo ainda mais profundo: os adversários podem estar presentes sem terem o poder de impedir aquilo que Deus preparou para você.

A oposição não cancela a mesa. O conflito não anula a presença. A dificuldade não impede o cuidado do Senhor.

 

“Unges-me A Cabeça Com Óleo” — Honra E Acolhimento

Davi continua: “Unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.”

É comum encontrarmos explicações relacionando esse óleo ao tratamento de ovelhas contra insetos e enfermidades. Embora essa ilustração seja muito difundida, o contexto do versículo 5 já parece ter mudado da figura do pastor para a figura de um anfitrião recebendo seu convidado.

No antigo contexto oriental, ungir a cabeça com óleo podia ser expressão de hospitalidade, honra e acolhimento.

Isso torna a cena ainda mais bonita. O Deus que nos conduziu pelo vale agora nos recebe à mesa. Ele não apenas permite nossa presença. Ele nos honra como convidados.

E Davi conclui: “O meu cálice transborda.”

Não estamos diante de um Deus avarento em graça. Seu cuidado é abundante. Sua misericórdia é maior do que nossa culpa. Seu amor excede nossa compreensão. Sua presença oferece mais do que nossa alma consegue conter.

 

A Bondade E A Misericórdia Não Ficam Para Trás

Finalmente chegamos ao grande desfecho: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida.”

A palavra “seguirão” é muito interessante. Ela pode comunicar uma ideia muito mais ativa do que uma companhia distante. É como se a bondade e a misericórdia de Deus nos perseguissem.

Passamos grande parte da vida preocupados com aquilo que pode nos alcançar. Problemas, más notícias, perdas e dificuldades. Mas Davi olha para trás e percebe outra realidade: a bondade e a misericórdia do Senhor também estavam seguindo seus passos.

Nem todos os dias serão fáceis. Mas todos os dias podem ser vividos debaixo da fidelidade do Pastor.

Haverá dias em pastos verdejantes e dias dentro do vale. Haverá momentos de descanso e momentos de enfrentamento. Mas a bondade e a misericórdia de Deus não possuem prazo curto.

Davi diz: “Todos os dias da minha vida.”

 

Do Pasto À Casa Do Pai

O Salmo termina com uma das maiores esperanças da fé: “E habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.”

Observe a trajetória. O Salmo começou no campo: “O SENHOR é o meu pastor.” Passou pelos pastos, águas, veredas, vales e mesa. E termina em casa: “Habitarei na Casa do SENHOR.”

Essa é a história de quem pertence ao Pastor. Somos cuidados durante a jornada e, no fim, conduzidos para casa.

Jesus utiliza uma linguagem extraordinariamente semelhante quando diz em João 14:2: “Na casa de meu Pai há muitas moradas.”

A esperança cristã não é simplesmente sobreviver às dificuldades desta vida. Existe uma casa. Existe uma eternidade. Existe comunhão definitiva com Deus.

O Pastor que nos conduz hoje é o mesmo que nos levará até o final.

 

O Maior Privilégio É Ter O Pastor

Depois de percorrer todo o Salmo, talvez precisemos retornar ao primeiro versículo: “O SENHOR é o meu pastor.”

Esse é o maior privilégio.

Mais importante do que os pastos é o Pastor. Mais importante do que as águas é aquele que nos conduz até elas.

Mais importante do que sair do vale é saber quem atravessa o vale conosco.

Mais importante do que a mesa é conhecer aquele que a prepara.

Mais importante do que o cálice transbordante é estar na presença daquele que o enche.

O Salmo 23 não é, em primeiro lugar, um catálogo de benefícios. É a descrição de uma vida vivida sob o cuidado de Deus.

E João 10 nos mostra até onde o Bom Pastor estava disposto a ir: “O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.”

Jesus não apenas disse que nos ama. Foi até a cruz, entregou a própria vida, ressuscitou e continua chamando suas ovelhas pela voz.

Talvez você esteja neste momento em pastos tranquilos. Agradeça ao Pastor.

Talvez esteja atravessando um vale. Não conclua que Ele o abandonou.

Talvez sua alma esteja cansada. Permita que Ele a restaure.

Talvez tenha se afastado das veredas e perceba que precisa retornar.

O Bom Pastor continua chamando.

E se você algum dia se afastou do aprisco, lembre-se de que Jesus também contou sobre um pastor que deixou noventa e nove em segurança para procurar aquela que havia se perdido.

Deixe-se encontrar por Ele. Porque o maior privilégio da ovelha não é possuir uma vida sem problemas. É poder dizer, em cada estação da caminhada: “O SENHOR é o meu pastor.”

Quando há fartura, Ele é o Pastor. Quando existe vale, Ele continua sendo o Pastor. Quando os inimigos aparecem, Ele permanece Pastor. Quando nossa alma precisa ser restaurada, Ele ainda é Pastor. E quando chegar o fim da jornada, será esse mesmo Pastor que nos conduzirá definitivamente para casa.

O maior privilégio da ovelha não é viver uma vida sem vales, inimigos ou dias difíceis; é atravessar cada um deles sabendo que pertence ao Bom Pastor e que Ele nunca abandona aquilo que é seu.

Deus te abençoe!

Pr. Sérgio Luis