EM TEMPOS DE AFLIÇÕES, SEJA CORAJOSO
A coragem
cristã não nasce da ausência de problemas, mas da certeza de que, mesmo em meio
às aflições, Cristo permanece conosco e sua vitória continua sendo maior do que
qualquer circunstância.
“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
João 16:33
Há palavras de Jesus que parecem ganhar ainda mais força quando
atravessamos períodos difíceis. João 16:33 é uma delas.
Jesus não falou essas palavras para pessoas que estavam vivendo um
momento de tranquilidade, sem perguntas ou incertezas. Ele estava preparando
seus discípulos para uma das maiores transições de suas vidas. Depois de
aproximadamente três anos e meio caminhando ao lado do Mestre, ouvindo seus
ensinamentos, testemunhando milagres e experimentando de perto sua presença,
aqueles homens começavam a ouvir que Jesus partiria.
Era natural que seus corações fossem tomados por perguntas. O que
aconteceria depois? Como continuariam sem a presença física daquele que havia
sido o centro da caminhada deles? Como enfrentariam oposição, perseguições e
todas as dificuldades que Jesus já havia antecipado?
Cristo conhecia aquilo que estava diante deles e, exatamente por isso,
decidiu prepará-los não apenas com informações sobre o futuro, mas com uma
verdade que deveria sustentar toda a caminhada: a paz deles não dependeria
das circunstâncias; estaria nele.
Jesus declarou: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em
mim.”
Observe que ele não prometeu paz porque tudo daria certo da maneira que
os discípulos esperavam. A paz estava localizada em uma pessoa. Eles teriam paz
em Cristo. Essa diferença é fundamental para compreendermos a vida
cristã, porque muitas vezes procuramos paz quando os problemas terminam, quando
as contas são resolvidas, quando a enfermidade desaparece, quando um conflito
acaba ou quando finalmente conseguimos controlar aquilo que nos preocupa.
Jesus, porém, oferece uma paz capaz de existir antes mesmo de a circunstância
mudar.
É aquela paz que Paulo mais tarde descreveria como superior ao nosso
entendimento. Não significa insensibilidade, indiferença ou ausência de
emoções. Significa que, mesmo sentindo o peso da batalha, alguma coisa mais
profunda permanece firme dentro de nós. Podemos chorar e ainda ter paz. Podemos
não compreender tudo e ainda confiar. Podemos atravessar uma tempestade sem
permitir que a tempestade passe a governar nossa alma.
Talvez esta seja uma das necessidades mais urgentes da nossa geração:
descobrir novamente que a paz de Cristo não é a ausência da guerra, mas a
presença de Jesus no meio dela.
Jesus Nunca Prometeu Uma Vida Sem Aflições
A continuação de João 16:33 confronta uma ideia equivocada que, às
vezes, construímos sobre a fé: “No mundo, passais por aflições.” Jesus
não enganou seus discípulos. Ele não prometeu que a decisão de segui-lo
produziria uma caminhada sem perdas, perseguições, problemas, crises ou
momentos de dor. Pelo contrário, deixou claro que as aflições fariam parte da
experiência deles.
Isso pode parecer uma palavra dura, mas, na verdade, existe amor e
responsabilidade nessa declaração. Jesus não queria discípulos despreparados
para a realidade. Ele queria homens que soubessem onde encontrar força quando
chegassem os dias difíceis.
A mesma verdade vale para nós. A fé cristã não nos coloca dentro de uma
redoma onde nada doloroso pode nos alcançar. Continuamos vivendo em um mundo
quebrado, lidando com perdas, enfermidades, conflitos, frustrações, pressões
financeiras, crises emocionais e situações que não conseguimos controlar.
Além disso, aqueles que decidem viver de maneira coerente com o
Evangelho poderão enfrentar incompreensão, rejeição e oposição.
O Salmo 34:19 não diz que são poucas as aflições do justo. Ele declara
que “muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra.” A
promessa não está na ausência de aflições, mas na presença do Senhor e no seu
poder para nos sustentar e nos livrar.
Isso muda nossa perspectiva. Quando uma dificuldade aparece, não
precisamos imediatamente concluir que Deus nos abandonou, que saímos de sua
vontade ou que nossa fé fracassou. Existem lutas que simplesmente fazem parte
da caminhada. E existem outras que Deus usará para revelar aquilo que está
sendo formado dentro de nós.
As aflições pressionam nosso coração e revelam onde nossa confiança está
depositada. Nos dias tranquilos, é fácil dizer que confiamos em Deus. Quando as
estruturas ao nosso redor começam a tremer, descobrimos se essa confiança está
profundamente enraizada ou se dependia apenas de circunstâncias favoráveis.
Por isso, quando a aflição chegar, a primeira pergunta não deveria ser
apenas: “Por que isso está acontecendo comigo?” Talvez precisemos também
perguntar: “Quem estou me tornando enquanto atravesso isso?”
“Tende Bom Ânimo”: O Chamado De Jesus À Coragem
Jesus não termina sua palavra nas aflições. Depois de reconhecer a
realidade do sofrimento, ele acrescenta: “Mas tende bom ânimo; eu venci o
mundo.”
Aqui está o centro da mensagem. Cristo não está dizendo: “Finjam que
nada está acontecendo.” Também não está pedindo que neguemos a dor. Ele está
dizendo para não entregarmos nossa postura interior às circunstâncias externas.
Ter bom ânimo é continuar. É permanecer. É não permitir que o medo tome
todas as decisões. É resistir à tentação de abandonar aquilo que Deus colocou
em nossas mãos apenas porque o caminho se tornou difícil.
Coragem cristã não significa nunca sentir medo. Significa que o medo não
terá a palavra final.
O apóstolo Paulo ofereceu uma orientação semelhante a Timóteo quando
escreveu:
“Tu, porém,
sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um
evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.” 2
Timóteo 4:5
Paulo não disse a Timóteo que aguardasse todas as dificuldades
desaparecerem para depois continuar seu chamado. Disse: “Suporta as aflições
e continue fazendo aquilo que Deus lhe confiou.”
Essa palavra é extremamente necessária. Quantas pessoas abandonaram algo
importante não porque Deus havia encerrado aquele ciclo, mas porque estavam
cansadas? Quantas decisões definitivas foram tomadas durante momentos
temporários de pressão?
Há situações em que precisaremos parar, reorganizar, buscar ajuda ou
mudar a maneira como estamos fazendo alguma coisa. Isso é sabedoria. Mas existe
uma diferença entre ajustar a caminhada e desistir do propósito porque a
aflição chegou.
Paulo estava dizendo a Timóteo: “Não deixe que aquilo que está
pressionando você tenha autoridade para cancelar aquilo que Deus colocou em
suas mãos.”
Talvez você também precise ouvir isso. Não tome uma decisão permanente
movido apenas por uma dor momentânea. Ore, busque direção, espere, converse com
pessoas maduras, mas não entregue seu chamado ao desânimo.
Jesus sabia que seus discípulos passariam por dificuldades e, ainda
assim, disse: “Tende bom ânimo.”
Sabe por quê? Porque a última parte da declaração muda completamente
nossa perspectiva: “Eu venci o mundo.”
Nossa coragem não está fundamentada em nossa capacidade de vencer
qualquer coisa sozinhos. Ela nasce da vitória de Cristo.
A Aflição Não Tem Poder Para Cancelar O Propósito De Deus
Uma das histórias mais impressionantes das Escrituras é a de José. Atos
7:9-10 resume parte de sua trajetória dizendo que seus irmãos, movidos por
inveja, o venderam para o Egito. Em seguida aparece uma frase que muda toda a
história: “Deus era com ele.”
José foi traído. Foi separado de sua família. Foi levado para uma terra
estrangeira. Foi injustiçado. Foi acusado de algo que não havia feito. Foi
lançado numa prisão. Nada disso parecia combinar com os sonhos que havia
recebido de Deus.
Se José interpretasse cada momento isoladamente, poderia concluir que
sua vida havia saído completamente dos trilhos. No entanto, o texto diz que
Deus estava com ele e “o livrou de todas as suas aflições.”
A presença de Deus não significou que José nunca entraria na cisterna,
nunca seria vendido ou jamais conheceria uma prisão. Significou que nenhum
desses lugares seria capaz de cancelar o propósito.
Esse princípio precisa permanecer dentro de nós. A aflição pode
atrasar nossa compreensão, mas não possui autoridade para cancelar aquilo que
Deus determinou.
Os irmãos de José acreditavam que estavam destruindo seus sonhos. Na
verdade, sem perceberem, estavam empurrando a história em direção ao lugar onde
Deus transformaria José em instrumento de preservação para muitas vidas.
Aquilo que parecia uma história de completa desgraça terminou revelando
a glória e a providência de Deus.
Não estou dizendo que todo sofrimento é provocado por Deus ou que
devemos chamar o mal de bem. A própria história de José deixa claro que seus
irmãos agiram movidos por inveja. O que aprendemos é outra coisa: a maldade
humana não é maior do que a capacidade divina de redimir uma história.
Deus pode pegar aquilo que pretendia destruir você e produzir
maturidade. Pode usar um período difícil para moldar seu caráter, transformar
uma perda em uma escola de dependência, ensinar você a perdoar através de
situações que jamais escolheria viver.
José chegou ao ponto de receber novamente seus irmãos, perdoá-los,
cuidar deles e oferecer proteção à sua família.
A aflição não produziu apenas mudança nas circunstâncias de José. Deus
trabalhou dentro dele.
Talvez essa seja uma das maiores obras que Deus realiza durante nossos
períodos difíceis: antes de mudar aquilo que está ao nosso redor, ele começa
transformando aquilo que existe dentro de nós.
Algumas Aflições Nos Fazem Voltar Para Casa
Existe ainda uma dimensão das aflições que não podemos ignorar: elas
podem revelar o quanto nos afastamos de Deus.
Muitas vezes estamos tão ocupados, tão autossuficientes e tão envolvidos
com nossas próprias rotinas que não percebemos a distância que se estabeleceu
entre nosso coração e o Pai. Continuamos frequentando ambientes cristãos,
conhecemos a linguagem, sabemos os versículos, participamos de reuniões, mas
interiormente perdemos comunhão.
Então chegam momentos que interrompem nossa falsa sensação de controle.
A história do filho pródigo é uma poderosa ilustração disso. Enquanto
possuía recursos, ele conseguiu permanecer distante. Quando tudo acabou e as
aflições chegaram, alguma coisa aconteceu: ele caiu em si. Percebeu que
havia uma casa para onde poderia voltar.
A aflição não foi o destino final do filho pródigo. Tornou-se parte do
caminho que o levou novamente aos braços do pai.
Talvez, enquanto lê esta mensagem, você reconheça que sua maior
necessidade não é simplesmente sair de uma dificuldade. Talvez precise voltar
para Deus.
Não estou falando apenas sobre voltar a frequentar uma igreja. Estou
falando sobre relacionamento.
Voltar à oração. Voltar à Palavra. Voltar à sensibilidade espiritual. Voltar
ao primeiro amor. Voltar a desejar a presença do Pai.
Se sua vida espiritual está enfraquecida, não interprete este momento
apenas como condenação. Talvez exista um convite escondido dentro dele: “Volte
para casa.” O Pai continua com os braços abertos.
Talvez você tenha errado. Talvez tenha se afastado. Talvez esteja há
muito tempo vivendo apenas de lembranças de uma intimidade que já não existe
como antes. Você pode voltar.
Em Tempos De Aflições, Permaneça Sobre A Rocha
O Salmo 27 apresenta uma imagem extraordinária para os dias de
adversidade:
“Pois, no
dia da adversidade, ele me ocultará no seu pavilhão; no recôndito do seu
tabernáculo, me acolherá; elevar-me-á sobre uma rocha.”
Existe segurança disponível em Deus. Não significa que o mundo ao redor
ficará silencioso. Significa que podemos encontrar um lugar de estabilidade
enquanto tudo parece instável.
A Rocha continua sendo Cristo. Quando nossa vida está edificada nele,
podemos ser abalados sem necessariamente sermos destruídos. Podemos sentir o
impacto da tempestade e continuar de pé. Podemos atravessar períodos difíceis
sem perder completamente nossa direção.
Por isso, talvez a palavra mais importante para você hoje seja simples: Permaneça.
Não abandone Jesus porque você está sofrendo. Aproxime-se ainda mais.
Não pare de orar porque a resposta ainda não chegou. Continue buscando.
Não deixe que a decepção destrua aquilo que Deus construiu dentro de
você durante tantos anos. Permaneça.
E se alguém ao seu redor estiver enfraquecendo, ajude essa pessoa a
permanecer também.
Tempos de aflição não deveriam produzir apenas sobreviventes. Eles podem
formar uma comunidade que aprende a sustentar uns aos outros.
Talvez você conheça alguém que esteja desanimado, afastado ou quase
desistindo. Ligue. Envie uma mensagem. Ore. Escute. Aproxime-se.
Não transforme a dor dessa pessoa em assunto; transforme-a em motivo de
intercessão.
Jesus disse que teríamos aflições, mas também garantiu paz. Disse que
enfrentaríamos um mundo hostil, mas anunciou sua vitória. Reconheceu a
existência da batalha, mas ordenou: “Tende bom ânimo.”
É por isso que, em tempos de aflições, precisamos ser corajosos. Não
porque somos invencíveis. Não porque conhecemos todas as respostas. Não porque
tudo terminará exatamente como imaginamos. Mas porque sabemos quem está
conosco.
Cristo venceu o mundo. Essa vitória é maior do que a circunstância que
hoje tenta intimidar você.
Talvez o mar esteja revolto, mas Jesus continua sendo sua paz. Talvez o
deserto esteja longo, mas ele continua presente. Talvez você esteja cansado,
mas ainda pode recorrer ao Pai. Talvez não consiga enxergar o final da
história, mas o Autor continua escrevendo.
Portanto, não permita que o medo decida por você. Não permita que o
desânimo faça você abandonar sua caminhada. Não deixe que a aflição fale mais
alto do que as palavras de Jesus.
“No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
Guarde essa palavra. Repita-a nos dias difíceis. Volte a ela quando o
coração estiver inquieto.
E lembre-se: a coragem cristã não é a certeza de que não sofreremos;
é a certeza de que não sofreremos sozinhos e de que nenhuma aflição é maior do
que Cristo.
Em tempos de aflições, seja corajoso!
Deus te abençoe!
Pastor Sérgio Luis

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