- Paternidade de Deus, Cura e Restauração, Identidade
POR QUE TENHO TANTA DIFICULDADE DE ACREDITAR
QUE DEUS REALMENTE ME AMA?
Talvez você saiba que Deus ama o mundo. A dificuldade pode estar em
acreditar que Ele ama você pessoalmente.
Há verdades que conhecemos com a mente, repetimos com os lábios e até
ensinamos a outras pessoas, mas que ainda encontram dificuldade para descer até
as regiões mais profundas do coração. Uma delas é o amor de Deus. Muitos
cristãos sabem de cor João 3:16, cantam sobre o amor do Pai, falam da graça, da
misericórdia e da bondade divina, mas, quando atravessam uma crise, cometem um
erro, enfrentam uma rejeição ou passam por um período de silêncio, uma pergunta
silenciosa começa a crescer dentro deles: “Será que Deus realmente me ama?”
Talvez a pergunta não seja formulada dessa maneira. Às vezes ela aparece
em outras formas: “Por que Deus permitiria isso comigo?”, “Por que minhas
orações não são respondidas?”, “Por que parece que Deus está distante?”, “Por
que consigo acreditar que Deus ama outras pessoas, mas tenho tanta dificuldade
de acreditar que Ele me ama?”.
Por trás dessas perguntas pode existir uma batalha muito mais profunda
do que imaginamos. Não se trata apenas de conhecer uma doutrina correta sobre
Deus, mas de aprender a nos relacionar com Ele a partir daquilo que Ele revelou
sobre Si mesmo.
Uma das maiores dificuldades da vida cristã é esta: podemos conhecer
a Palavra sem permitir que a Palavra reorganize a maneira como interpretamos
nossa história.
Sabemos que Deus é Pai, mas continuamos interpretando Seu coração a
partir das experiências que tivemos com pessoas. Sabemos que fomos recebidos em
Cristo, mas continuamos vivendo tentando conquistar aceitação. Sabemos que
fomos alcançados pela graça, mas ainda pensamos que precisamos provar todos os
dias que merecemos permanecer perto de Deus.
E é justamente nesse ponto que precisamos voltar às Escrituras.
Paulo escreve em Romanos 8:15 que:
não recebemos um espírito de escravidão para novamente vivermos
atemorizados, mas recebemos o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba,
Pai”.
A linguagem usada pelo apóstolo é profundamente relacional. O Evangelho
não nos conduz apenas a um Deus que perdoa pecadores à distância. Ele nos
conduz ao Pai que recebe filhos em Sua casa.
O problema é que algumas pessoas foram alcançadas pela salvação, mas
continuam se relacionando com Deus como se ainda fossem escravas.
Elas oram como escravas. Servem como escravas. Tentam agradar a Deus
como escravas. Quando falham, escondem-se como escravas. Quando acertam,
esperam recompensa como escravas. Quando veem outra pessoa sendo abençoada,
sentem-se ameaçadas como escravas. Conhecem a linguagem da filiação, mas ainda
carregam dentro delas uma profunda mentalidade de orfandade.
Quando
nossa história interfere na maneira como enxergamos Deus
Nenhuma experiência humana é capaz de definir quem Deus é. Entretanto,
nossas experiências podem influenciar profundamente a maneira como O
percebemos.
Uma pessoa que cresceu com um pai muito severo pode imaginar Deus como
alguém constantemente irritado, esperando apenas que ela cometa um erro. Outra,
que teve um pai ausente, pode acreditar intelectualmente que Deus está presente
e, ainda assim, viver com a sensação de que Ele pode abandoná-la a qualquer
momento. Quem cresceu tentando conquistar aprovação talvez transfira esse mesmo
comportamento para sua vida espiritual e tente conquistar de Deus aquilo que
Ele deseja oferecer por graça.
É importante compreender isso: Deus não deve ser interpretado a
partir das limitações de nossos pais terrenos. Nossos pais terrenos é que
deveriam ser compreendidos à luz da perfeição do Pai celestial.
Deus é a referência. Deus é o padrão. Todo pai terreno, por melhor que
seja, é imperfeito. Alguns erraram pouco; outros erraram profundamente. Alguns
estiveram presentes; outros desapareceram. Alguns afirmaram seus filhos; outros
os feriram com palavras. Alguns ofereceram segurança; outros produziram medo.
Existem ainda histórias muito dolorosas que exigem cuidado, tempo,
aconselhamento e, em determinados casos, acompanhamento profissional.
Mas nenhuma dessas experiências altera o caráter de Deus.
Quando Jesus quis ensinar Seus discípulos a orar, começou dizendo: “Pai
nosso”. Isso não foi um detalhe. Jesus estava revelando uma nova maneira de
nos aproximarmos de Deus. O Criador do universo deseja ser conhecido em
relacionamento.
Isso não diminui Sua santidade. Ele continua sendo Senhor, Rei, Juiz e
Deus Todo-Poderoso. Mas o Evangelho nos revela que, em Cristo, podemos também
chamá-Lo de Pai.
Talvez você
esteja tentando merecer aquilo que já recebeu
Existe uma diferença enorme entre obedecer para ser amado e obedecer
porque somos amados.
O escravo pensa: “Se eu fizer tudo certo, talvez seja aceito.” O filho
compreende: “Fui aceito; por isso quero viver de maneira digna daquele que me
recebeu.”
Parece uma diferença pequena, mas ela altera toda a vida espiritual. Quando
acreditamos que precisamos conquistar o amor de Deus, nossa relação com Ele se
transforma em desempenho. Oramos para merecer. Jejuamos para merecer. Servimos
para merecer. Ofertamos para merecer. Trabalhamos para merecer. E,
inevitavelmente, chega o dia em que falhamos.
Então concluímos: “Deus deve estar decepcionado comigo.”
É claro que Deus corrige Seus filhos. A graça jamais significa aprovação
do pecado. O mesmo Pai que acolhe também disciplina, ensina, confronta e
transforma. Mas a disciplina de Deus não nasce da rejeição. Ela nasce da
paternidade.
Hebreus 12 apresenta justamente essa perspectiva: Deus disciplina
aqueles que reconhece como filhos. Portanto, até a correção divina precisa ser
interpretada dentro do relacionamento de filiação.
Um bom pai não corrige o filho porque deseja expulsá-lo da família. Ele
corrige porque o filho pertence à família.
Talvez você esteja confundindo correção com rejeição. Talvez Deus
esteja tratando áreas da sua vida e você esteja interpretando esse tratamento
como abandono. Talvez uma porta tenha se fechado, uma oração esteja demorando,
um processo esteja doendo, e você concluiu precipitadamente que Deus deixou de
amá-lo.
Mas o amor de Deus não pode ser medido pelo conforto das circunstâncias.
A cruz já resolveu essa questão.
A cruz é a
maior evidência do amor do Pai
Quando nossas emoções dizem que Deus não nos ama, precisamos voltar
àquilo que Ele fez.
Romanos 5:8 ensina:
Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco
pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.
Observe: Deus não esperou nossa melhora para começar a amar. Sua
iniciativa veio antes de nossa transformação.
A cruz desmonta a ideia de que precisamos nos tornar dignos para sermos
amados.
Você não foi amado porque se tornou bom. Você começou a ser transformado
porque foi alcançado pelo amor e pela graça de Deus.
Isso não é licença para permanecer no pecado. Pelo contrário. Quem
verdadeiramente conhece o amor do Pai passa a desejar viver de maneira que O
honre.
O problema da religiosidade é tentar produzir transformação através do
medo da rejeição. O Evangelho produz transformação através de uma nova
identidade.
Paulo explica isso em Gálatas 4. Deus enviou Seu Filho para nos resgatar
e para que recebêssemos adoção. E porque somos filhos, Deus enviou o Espírito
de Seu Filho ao nosso coração, que clama: “Aba, Pai”. Depois Paulo afirma: já
não somos escravos, mas filhos.
Veja a ordem. Primeiro Deus age. Depois somos recebidos. Então
aprendemos a viver como filhos.
“A filiação não é um prêmio concedido ao cristão que finalmente alcançou
determinado nível de maturidade espiritual. Ela é o ponto de partida da nova
vida em Cristo.”
O filho
pródigo e o filho que nunca saiu de casa
Lucas 15 apresenta uma das mais impressionantes revelações do coração
paterno de Deus.
O filho mais novo abandona a casa, desperdiça sua herança e chega ao
fundo do poço. Quando decide retornar, prepara um discurso. Ele pretende voltar
não como filho, mas como trabalhador.
Essa é a mentalidade produzida pela culpa. “Já não sou digno.” “Talvez
eu possa trabalhar para compensar.” “Talvez, se eu fizer alguma coisa, possa
permanecer por perto.”
Mas o pai interrompe aquela lógica através de suas ações. Corre ao
encontro do filho, abraça-o, restaura sua dignidade e celebra seu retorno. O
filho desejava negociar uma posição de empregado. O pai estava restaurando sua
identidade de filho.
Mas há outro personagem naquela história que merece nossa atenção: o
filho mais velho.
Ele nunca abandonou fisicamente a casa. Trabalhou, permaneceu perto e
aparentemente fez tudo certo. Entretanto, quando o irmão é recebido, seu
coração é revelado.
Ele fala como alguém que serviu durante anos esperando recompensa. Estava
dentro da casa do pai, mas pensava como servo. Essa é uma das situações mais
perigosas da vida cristã: estar na casa do Pai e ainda não conhecer o
coração do Pai.
É possível frequentar cultos, exercer ministério, conhecer a Bíblia e
continuar vivendo emocionalmente como órfão.
O filho mais novo precisava descobrir que ainda poderia voltar. O filho
mais velho precisava descobrir que nunca havia compreendido o que significava
estar em casa.
Talvez nossa história se pareça mais com uma delas do que gostaríamos de
admitir.
Por que é
tão difícil receber amor?
Algumas pessoas aprenderam desde cedo que todo amor possui condições. “Eu
te amo se você se comportar.” “Eu te aprovo se você tiver boas notas.” “Eu
reconheço você se você vencer.” “Você terá meu carinho se corresponder às
minhas expectativas.”
Quando crescemos sob esse tipo de dinâmica, podemos carregar
inconscientemente uma pergunta para nossa vida com Deus: “O que preciso
fazer para que Deus continue me amando?”
O Evangelho responde de maneira completamente diferente. A obediência
cristã não é uma negociação para comprar amor. Ela é resposta ao amor recebido.
João escreve que nós amamos porque Ele nos amou primeiro. Primeiro vem a
iniciativa de Deus. Primeiro vem Sua graça. Primeiro vem Seu chamado. Primeiro
vem Seu amor. Depois nossa vida começa a responder.
Por isso, talvez uma das maiores curas que Deus deseje realizar em nós
não seja apenas mudar comportamentos, mas corrigir nossa compreensão acerca
de quem Ele é. Porque nossa visão de Deus influencia nossa maneira de
viver.
Se penso que Deus está sempre procurando um motivo para me rejeitar,
viverei escondendo minhas fraquezas.
Se conheço o Pai que me chama para a luz, aprenderei a confessar,
arrepender-me e permitir que Ele me transforme.
Se penso que Deus me ama apenas quando tenho bom desempenho, minha
espiritualidade será movida por comparação.
Se compreendo que minha identidade está em Cristo, poderei celebrar
aquilo que Deus faz na vida de outras pessoas sem sentir que isso diminui meu
valor.
Se vivo como órfão, preciso competir. Se vivo como filho, posso
cooperar.
Se vivo como órfão, tenho medo de perder meu lugar. Se vivo como filho,
sei a quem pertenço.
O silêncio
de Deus não significa ausência de amor
Existirão períodos em que não compreenderemos Deus. Existirão orações
que não receberão a resposta que esperávamos. Haverá portas fechadas,
despedidas, perdas, enfermidades, mudanças, esperas e circunstâncias que
desafiarão nossa compreensão.
A fé madura precisa aprender algo fundamental: não podemos
reconstruir nossa teologia sobre o caráter de Deus toda vez que uma
circunstância muda.
Se hoje tudo está bem, Deus é bom. Se amanhã tudo fica difícil, Deus
continua sendo bom.
Se recebo aquilo que pedi, Ele é Pai. Se preciso esperar, Ele continua
sendo Pai.
Se compreendo, Ele é fiel. Se não compreendo, Ele permanece fiel.
Não estou dizendo que devemos fingir que a dor não existe. A própria
Bíblia nos dá salmos de lamento, perguntas, lágrimas e orações carregadas de
sofrimento. Fé não é negar a dor.
Fé é levar a dor para Deus sem transformar a dor em uma nova definição
de Deus. Jesus conheceu sofrimento como ninguém e ainda assim dirigiu-Se a Deus
como Pai.
Você não
precisa viver tentando provar que merece permanecer
Há uma liberdade extraordinária quando compreendemos nossa identidade em
Cristo. Não significa passividade espiritual. Não significa abandonar
disciplinas. Não significa tratar pecado de maneira superficial.
Pelo contrário, quando descobrimos que somos filhos, oração deixa de ser
obrigação e passa a ser encontro. A Bíblia deixa de ser apenas informação e
torna-se a voz que forma nossa mente. Obediência deixa de ser tentativa de
evitar rejeição e torna-se expressão de amor. Serviço deixa de ser mecanismo de
reconhecimento e torna-se resposta de gratidão. Santidade deixa de ser
tentativa de provar valor e passa a ser desejo de parecer com nosso Pai.
Existe uma diferença enorme entre viver dizendo: “Preciso fazer isso
para que Deus me aceite” e viver dizendo: “Porque fui recebido por Deus,
quero que minha vida O honre.” O primeiro caminho produz escravidão. O
segundo produz transformação.
Comece
permitindo que a Palavra reorganize sua história
Talvez você não consiga mudar aquilo que aconteceu no passado. Não pode
voltar à infância e reconstruir todas as palavras que ouviu. Não pode obrigar
alguém a ter sido o pai ou a mãe de que você precisava. Não pode apagar algumas
experiências.
Mas, em Cristo, você pode permitir que uma verdade maior passe a
interpretar sua história. Você foi desejado pelo Pai. Você foi chamado. Você
foi alcançado pela graça. Você foi recebido em Cristo. Você recebeu o Espírito
de adoção.
Sua identidade não precisa mais ser determinada pela rejeição que
sofreu, pelo abandono que enfrentou ou pela aprovação que não recebeu.
Isso não significa negar as feridas. Significa não permitir que elas
tenham a palavra final.
Talvez você tenha passado anos perguntando: “Por que meu pai não me
amou como eu precisava?”
Essa pergunta pode ser legítima e dolorosa. Mas existe outra pergunta
que o Evangelho coloca diante de nós: “Quem eu posso me tornar agora que
comecei a conhecer o amor do meu Pai celestial?” Essa segunda pergunta
aponta para o futuro.
O Pai não
está procurando empregados. Ele está formando filhos.
Talvez você tenha chegado até aqui percebendo que grande parte de sua
vida espiritual foi construída sobre medo, cobrança e necessidade de aprovação.
Então comece por algo simples. Pare de tentar impressionar Deus. Aproxime-se
dEle. Converse com Ele como Pai. Apresente suas feridas. Confesse seus pecados.
Reconheça suas dificuldades.
Diga a Ele que você deseja conhecê-Lo não apenas como Deus distante, mas
como o Pai revelado por Jesus.
E volte para a Palavra. Deixe Romanos 8, Gálatas 4, Lucas 15, João 14 e
tantos outros textos reconstruírem lentamente sua compreensão.
Talvez essa mudança não aconteça em um único dia. Algumas estruturas
emocionais foram construídas durante décadas. Mas o Espírito Santo continua
trabalhando em nós, conduzindo-nos à verdade e testemunhando ao nosso espírito
que pertencemos a Deus.
Existe uma vida diferente daquela governada pelo medo da rejeição. Existe
uma vida na qual você não precisa competir por lugar. Existe uma vida em que o
pecado é confrontado sem que a identidade seja destruída. Existe uma vida em
que disciplina não significa abandono. Existe uma vida em que obedecemos não
para nos tornarmos filhos, mas porque fomos feitos filhos em Cristo.
“Talvez você sempre tenha acreditado que Deus ama. Agora chegou o
momento de permitir que essa verdade alcance também sua própria história.”
O Pai não está apenas chamando você para servi-Lo. Ele está chamando
você para conhecê-Lo.
E talvez uma das maiores descobertas da sua caminhada cristã seja esta: você
não precisa passar a vida tentando conquistar um lugar em uma casa na qual, por
meio de Cristo, o Pai já o recebeu como filho.
Deus te abençoe!
Pastor Sérgio Luis