MANIFESTANDO O REINO DE DEUS
ATRAVÉS DO MINISTÉRIO PROFÉTICO
Uma voz submetida à Palavra, sensível ao Espírito e comprometida com a
edificação da Igreja
“E ele
mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para PROFETAS, outros para
evangelistas e outros para pastores e mestres.”
Efésios 4:11
Quando Paulo escreve aos efésios e apresenta os diferentes ministérios
concedidos por Cristo à Igreja, ele não está descrevendo títulos destinados a
produzir uma elite espiritual. O contexto de Efésios 4 mostra exatamente o
contrário. Cristo concede pessoas à sua Igreja para que o Corpo seja
aperfeiçoado, equipado para o serviço, edificado na fé, conduzido à maturidade
e protegido contra todo vento de doutrina.
Portanto, qualquer compreensão do ministério profético que produza
exaltação pessoal, dependência de homens, confusão doutrinária ou infantilidade
espiritual já se afastou do propósito estabelecido pelo próprio texto.
O ministério profético precisa ser compreendido dentro dessa grande
finalidade: Cristo deseja uma Igreja madura, edificada, discernidora e
semelhante a Ele. O profeta não é o centro; Cristo é. A experiência
espiritual não é o centro; Cristo é. A manifestação extraordinária não é o
centro; Cristo continua sendo o centro. O profético existe para servir ao
propósito daquele que concedeu o ministério.
Essa compreensão é particularmente necessária porque poucos assuntos
dentro da Igreja contemporânea provocam tantos extremos quanto a profecia.
Existem pessoas que, depois de presenciarem abusos, manipulações e declarações
equivocadas feitas em nome de Deus, passaram a rejeitar qualquer possibilidade
de manifestação profética. Outras caminham no extremo oposto e aceitam
praticamente qualquer palavra, sonho, visão ou impressão simplesmente porque
alguém começou dizendo: “Deus me revelou”.
Nenhum desses caminhos corresponde ao equilíbrio do Novo Testamento.
Paulo não ensina a desprezar a profecia, mas também nunca ordena aceitação
indiscriminada.
Em 1 Tessalonicenses 5:20-21
afirma:
“Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é
bom.”
Existe abertura e existe discernimento. Existe sensibilidade espiritual
e existe avaliação. Existe liberdade para o Espírito agir e existe submissão à
verdade de Deus.
Uma Igreja profeticamente saudável não é aquela na qual ninguém pode
avaliar aquilo que está sendo dito. É justamente o contrário: quanto mais
valorizamos aquilo que procede do Espírito Santo, maior deveria ser nosso
compromisso em distinguir sua voz das impressões, emoções e interpretações
humanas.
Cristo Concedeu O Ministério Profético Para Edificar Sua Igreja
O ponto de partida precisa continuar sendo Efésios 4. O ministério
profético não nasceu da necessidade humana de descobrir o futuro nem da
fascinação por experiências sobrenaturais. Ele é apresentado por Paulo como uma
das maneiras pelas quais Cristo serve e edifica seu próprio Corpo.
Isso muda completamente nossa perspectiva. O profético não existe
primeiramente para produzir experiências individuais extraordinárias, mas para
cooperar com a maturidade da comunidade. Efésios 4:12 explica que os
ministérios foram concedidos “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para
o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. Assim,
precisamos avaliar a manifestação profética também pelos frutos que produz.
A comunidade está sendo edificada? As pessoas estão crescendo em Cristo?
A Palavra está sendo honrada? Há maior santidade? Existe amadurecimento? O povo
está aprendendo a discernir? Jesus está recebendo maior centralidade? Essas
perguntas são muito mais importantes do que saber se determinado momento foi
emocionante ou impressionante.
Há manifestações que atraem multidões, mas não constroem caráter. Há
palavras que provocam fortes reações emocionais, mas não produzem obediência.
Há ambientes em que as pessoas ficam fascinadas pelo sobrenatural, mas
continuam biblicamente frágeis. Isso deveria nos fazer refletir.
“O extraordinário nunca deve substituir o essencial.”
O propósito dos dons é servir ao Corpo. Quando o dom começa a servir à
reputação daquele que o exerce, alguma coisa importante foi invertida.
A Profecia
Precisa Nascer Do Amor
Ao avançarmos de Efésios 4 para 1 Coríntios 14, encontramos um detalhe
que não pode ser ignorado. Paulo inicia dizendo:
“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas
principalmente que profetizeis.”
Essa ordem é significativa. Antes de falar da profecia, Paulo fala do
amor.
Na verdade, o capítulo 14 vem imediatamente depois de 1 Coríntios 13, a
conhecida exposição sobre o amor. Isso significa que os dons espirituais jamais
deveriam ser separados do caráter cristão.
Uma pessoa pode ser carismática e ainda precisar amadurecer
profundamente em caráter. Pode possuir sensibilidade espiritual e continuar
sendo arrogante. Pode falar palavras aparentemente profundas e ainda tratar
pessoas de maneira inadequada. Pode possuir algum dom e ainda precisar crescer
muito na semelhança de Jesus.
Os dons são graça. O caráter é formado. E Deus não deseja apenas usar
nossas capacidades; deseja transformar aquilo que somos.
Por isso, o profético sem amor pode tornar-se perigoso. Alguém pode
utilizar uma suposta palavra de Deus para constranger, intimidar, humilhar ou
controlar pessoas. Em outros casos, pode transformar informações pessoais em
espetáculo diante da comunidade. Nenhuma dessas práticas corresponde ao
espírito de 1 Coríntios 13 e 14.
“O dom pode chamar atenção, mas é o caráter de Cristo que autentica a
maneira como devemos exercê-lo.”
Quem profetiza precisa amar as pessoas para quem fala. Se houver
correção, deve desejar restauração. Se houver advertência, precisa existir
temor. Se houver consolação, deve haver genuína compaixão.
A profecia não é um palco para demonstrar superioridade espiritual. É
uma oportunidade de servir.
A Profecia Do Novo Testamento Edifica, Exorta E Consola
Paulo estabelece em 1 Coríntios 14:3 uma referência indispensável:
“Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e
consolando.”
Essas três dimensões fornecem um excelente parâmetro para compreendermos
o exercício profético na comunidade cristã.
Edificar significa construir. O
objetivo não é destruir emocionalmente uma pessoa nem deixá-la espiritualmente
dependente daquele que profetizou. A palavra deve contribuir para o
fortalecimento daquilo que Deus está formando.
Exortar envolve encorajar, despertar, chamar à responsabilidade e,
quando necessário, confrontar. Nem toda
palavra que vem de Deus será confortável. Há momentos em que precisamos ser
despertados de acomodação espiritual, chamados ao arrependimento ou lembrados
de responsabilidades que estamos negligenciando. Entretanto, até mesmo a
exortação possui finalidade redentora.
Consolar significa aproximar-se daquele que sofre trazendo
fortalecimento e esperança. Deus conhece as dores que
ninguém mais conhece. O Espírito Santo pode utilizar uma palavra para alcançar
alguém em um momento de profunda fragilidade e lembrar-lhe de que não foi
abandonado.
Assim, uma compreensão saudável do profético consegue manter essas três
dimensões em equilíbrio.
“Deus edifica, desperta e consola seu povo!”
Isso não significa que profecias bíblicas nunca contenham advertências
sérias. As Escrituras estão cheias delas. Entretanto, mesmo quando Deus
confronta seu povo, sua finalidade continua ligada ao chamado para retornar a
Ele.
Deus não confronta simplesmente para expor. Confronta para restaurar.
A Profecia Nunca Pode Tomar O Lugar Das Escrituras
Esse talvez seja um dos princípios mais importantes de todo o assunto.
Nenhuma palavra profética contemporânea possui autoridade para criar
doutrina, corrigir a Bíblia ou estabelecer uma verdade contrária àquilo que
Deus já revelou nas Escrituras.
A Palavra escrita continua sendo nossa referência normativa para fé e
prática. Esse princípio nos protege.
Sonhos precisam ser avaliados pelas Escrituras. Visões precisam ser
avaliadas pelas Escrituras. Impressões precisam ser avaliadas pelas Escrituras.
Palavras proféticas precisam ser avaliadas pelas Escrituras. Não existe nível
de experiência espiritual que coloque alguém acima da Palavra.
O Espírito Santo que opera entre nós é o mesmo Espírito que inspirou as
Escrituras. Portanto, seria incoerente imaginar que Ele pudesse conduzir a
Igreja hoje para algo que contradiga aquilo que anteriormente revelou.
Isso significa também que a expressão “Deus me disse” nunca
deveria ser utilizada como mecanismo para impedir avaliação. Pelo contrário. Se
acreditamos que algo pode ter vindo de Deus, deveríamos possuir tranquilidade
suficiente para permitir que seja examinado à luz da Palavra e discernido no
Corpo.
Uma liderança madura não precisa dizer: “Não questione porque foi
Deus quem falou comigo.” Uma postura mais saudável seria: “Creio que o
Senhor está nos direcionando desta maneira; vamos orar, examinar as Escrituras
e discernir juntos.”
Isso não diminui o profético. Purifica-o.
O Espírito Santo Nunca Competirá Com A Palavra Que Inspirou
Algumas vezes cria-se dentro da Igreja uma falsa oposição entre aqueles
considerados “da Palavra” e aqueles considerados “do Espírito”. Essa divisão
não deveria existir.
A Palavra e o Espírito não são adversários. Não precisamos escolher
entre profundidade bíblica e sensibilidade espiritual.
Na realidade, quanto mais conhecemos o Espírito Santo, mais deveríamos
amar as Escrituras que Ele inspirou; e quanto mais profundamente conhecemos as
Escrituras, mais aprendemos sobre quem Ele é e como age.
Uma Igreja saudável pode ser profundamente bíblica e profundamente
aberta à ação do Espírito Santo. Ela pode ensinar doutrina sólida e orar por
enfermos. Pode estudar contexto bíblico e buscar dons espirituais. Pode
valorizar exposição das Escrituras e manter sensibilidade à direção do
Espírito. Essas coisas não precisam competir.
O problema começa quando experiências assumem autoridade superior à
Palavra ou quando o estudo da Palavra é utilizado como justificativa para uma
vida completamente desconectada da presença e ação do Espírito.
Jesus disse que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai “em
espírito e em verdade”. Precisamos das duas coisas.
O Profético Precisa Revelar O Coração De Deus, Não O Ego Do Profeta
Quando observamos os profetas nas Escrituras, encontramos homens que
frequentemente carregavam profundamente aquilo que anunciavam. Jeremias não
pregava o juízo de maneira triunfalista. Era conhecido por suas lágrimas. A
mensagem que anunciava atravessava seu próprio coração.
Isso nos ensina uma lição extremamente necessária. Não basta dizer
coisas corretas; importa também como nosso coração reage diante daquilo que
estamos dizendo.
Há pessoas que parecem sentir prazer em anunciar catástrofes, juízos e
quedas. Transformam qualquer advertência em oportunidade de demonstrar que
possuem alguma informação que os outros desconhecem. Essa postura precisa ser
examinada.
A verdadeira voz profética não encontra satisfação no sofrimento do
outro. Quando precisa anunciar algo sério, faz isso com temor. Quando percebe
pecado, não sente superioridade. Quando Deus revela uma situação difícil, sua
primeira reação pode ser intercessão, e não exposição pública.
Abraão recebeu de Deus informação sobre Sodoma e intercedeu. Moisés viu
o pecado do povo e colocou-se diante de Deus. Jeremias anunciou juízo enquanto
chorava. Habacuque ouviu sobre acontecimentos terríveis e tremeu. Há um padrão
aqui.
“Quem verdadeiramente conhece o coração de Deus não brinca com aquilo
que pesa no coração de Deus.”
O Profeta Não É Um Adivinhador Cristão
Uma das maiores reduções do ministério profético acontece quando ele é
transformado numa espécie de mecanismo cristianizado de adivinhação. Nesse
modelo, a principal função do profeta seria revelar nomes, documentos,
endereços, datas, relacionamentos futuros, negócios e acontecimentos pessoais.
A Bíblia não apresenta o ministério profético dessa maneira simplista. Certamente
existem momentos nas Escrituras em que Deus revela acontecimentos futuros ou
informações específicas. Não devemos negar isso. Mas reduzir todo o profético a
essas manifestações seria ignorar grande parte do testemunho bíblico.
Os profetas chamavam o povo de volta para Deus. Confrontavam idolatria. Denunciavam
injustiça. Defendiam os vulneráveis. Chamavam líderes à responsabilidade. Confrontavam
alianças erradas. Anunciavam esperança. Lembravam as promessas do Senhor. Convocavam
ao arrependimento.
O profético estava profundamente ligado à fidelidade da aliança e ao
governo de Deus.
Por isso, quando o ministério profético é reduzido a responder perguntas
como “com quem vou me casar?”, “qual negócio devo abrir?” ou “qual será minha
próxima conquista?”, corremos o risco de produzir cristãos espiritualmente
imaturos que terceirizam decisões que deveriam aprender a tomar diante de Deus.
O profeta não foi dado à Igreja para substituir o Espírito Santo na vida
do discípulo. Também não foi dado para substituir a Palavra. E muito menos para
substituir maturidade.
O Profético Não Deve Produzir Dependência Espiritual
Esse ponto merece atenção especial. Uma manifestação saudável deveria
ajudar as pessoas a aproximarem-se de Deus, e não a tornarem-se permanentemente
dependentes daquele que profetiza. Quando alguém precisa consultar determinado
profeta antes de tomar qualquer decisão relevante, algo pode estar se tornando
desequilibrado.
O Novo Testamento deseja filhos maduros. Romanos 8 fala daqueles que são
guiados pelo Espírito de Deus. Isso significa que cada discípulo precisa
aprender progressivamente a conhecer a Palavra, cultivar oração, discernir,
buscar conselho sábio e reconhecer a direção de Deus.
O ministério profético pode cooperar nesse processo, mas não
substituí-lo.
“Uma palavra saudável não aprisiona uma pessoa ao profeta; ajuda-a a
caminhar mais perto de Jesus.”
Isso vale especialmente para decisões matrimoniais, profissionais ou
ministeriais. Uma palavra profética nunca deveria ser utilizada para pressionar
alguém a casar, divorciar-se, mudar de cidade, abandonar trabalho ou realizar
qualquer decisão de grande impacto sem discernimento amplo.
Onde Deus realmente fala, não precisamos recorrer à manipulação.
Toda Profecia Precisa Ser Discernida
1 Coríntios 14:29 apresenta uma orientação muito clara:
“Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros
julguem.”
A palavra “julguem” aqui está relacionada ao discernimento, à avaliação.
Isso destrói a ideia de que profecia na comunidade cristã deva ser recebida
automaticamente como uma palavra infalível simplesmente porque alguém começou
dizendo “assim diz o Senhor”.
O Corpo participa do processo de discernimento. Isso exige humildade de
quem fala e maturidade de quem ouve.
Uma pessoa que exerce o profético precisa compreender que pode receber
uma impressão genuína e ainda interpretá-la de maneira imperfeita. Pode
compreender parcialmente. Pode misturar percepção espiritual com expectativas
pessoais.
Por isso, precisamos de humildade. Uma das frases mais perigosas que
alguém pode incorporar ao ministério é: “Eu nunca erro quando Deus fala
comigo.” Nenhum ser humano deveria confiar dessa maneira em sua própria
percepção.
Paulo diz em 1 Coríntios 13:9:
“Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.”
Há uma dimensão parcial. Por isso existe Corpo. Existe Palavra. Existe
discernimento. Existe prestação de contas. Quanto maior a responsabilidade
espiritual, maior deveria ser nossa humildade.
Uma Cultura Profética Saudável Precisa Permitir Correção
Esse princípio vale não apenas para profecias, mas para todo ministério.
Líderes espiritualmente maduros precisam ser corrigíveis. Quando alguém
não admite perguntas, considera toda discordância rebelião e responde a
qualquer avaliação dizendo que estão “tocando no ungido do Senhor”, temos um
ambiente perigoso.
Autoridade espiritual não significa imunidade à prestação de contas. Paulo
confrontou Pedro publicamente em Gálatas 2 quando percebeu incoerência em sua
conduta. Pedro era apóstolo, mas ainda podia ser corrigido.
Isso deveria ensinar algo a todos nós. Quanto mais visibilidade
recebemos, mais precisamos de pessoas honestas ao nosso redor. Quanto maior o
ministério, maior a necessidade de relacionamentos nos quais alguém tenha
liberdade para dizer: “Você precisa rever isso.”
Uma cultura profética saudável não possui apenas pessoas capazes de
falar. Possui também pessoas capazes de ouvir. Inclusive correção.
O Profético Chama A Igreja De Volta Para Deus
Ao longo de toda a história bíblica, encontramos uma função extremamente
recorrente no ministério profético: chamar o povo de volta ao Senhor.
Quando Israel se afastava da aliança, Deus levantava profetas. Quando a
idolatria avançava, profetas confrontavam. Quando os poderosos exploravam os
vulneráveis, profetas denunciavam. Quando o culto permanecia ativo, mas o
coração estava longe de Deus, profetas apareciam para mostrar que religiosidade
sem obediência não satisfazia ao Senhor.
Talvez essa continue sendo uma das maiores necessidades do nosso tempo. Precisamos
de vozes que chamem a Igreja de volta à presença de Deus. De volta à oração, de
volta à santidade, de volta à justiça, de volta ao amor, de volta à
misericórdia, de volta à cruz, de volta à Palavra, de volta à centralidade de
Cristo.
Não precisamos apenas de pessoas que anunciem o que acontecerá amanhã. Precisamos
de pessoas capazes de discernir o que está acontecendo hoje no coração da
Igreja.
Há momentos em que a mensagem profética precisará confrontar nossas
prioridades, denunciar idolatrias contemporâneas e perguntar se aquilo que
construímos ainda está verdadeiramente submetido a Jesus.
Podemos transformar sucesso em ídolo. Podemos transformar ministério em
ídolo. Podemos transformar influência em ídolo. Podemos transformar política,
dinheiro, tradição ou até experiências espirituais em ídolos.
A voz profética saudável não teme perguntar: “Isso ainda pertence ao
Senhor?”
O Profeta Precisa Ter Coragem Para Falar A Verdade
Existe outra característica recorrente nos profetas bíblicos: coragem.
Natã confrontou Davi. Elias confrontou Acabe. João Batista confrontou
Herodes. Miqueias recusou-se a ajustar sua mensagem para agradar ao rei. Jeremias
continuou anunciando aquilo que Deus lhe entregara mesmo quando sua mensagem
provocava rejeição. Isso mostra que o ministério profético não pode ser
governado pelo medo da opinião humana.
Se o profeta precisa saber antecipadamente se todos gostarão da mensagem
antes de anunciá-la, terá dificuldade para cumprir sua responsabilidade. Entretanto,
coragem não é grosseria. Ser profético não significa ser agressivo. É possível
falar a verdade com firmeza e ainda manter humildade.
Algumas pessoas parecem imaginar que quanto mais alguém grita, mais
profético é. As Escrituras não estabelecem essa relação. A autoridade não está
no volume da voz. Está na fidelidade a Deus.
O Profético Também Precisa Consolar Os Feridos
Quando falamos em profetas, existe uma tendência de enfatizar apenas
confrontação. Mas 1 Coríntios 14 inclui claramente consolação.
Isso significa que Deus também utiliza o profético para alcançar pessoas
quebradas. Isaías 40 inicia dizendo: “Consolai, consolai o meu povo.”
Há momentos em que o povo de Deus não precisa de mais peso. Precisa ser
lembrado da fidelidade do Senhor.
Existem pessoas que entram em uma reunião carregando dores desconhecidas
de todos ao redor. Uma palavra conduzida pelo Espírito pode alcançar exatamente
aquele lugar. Pode lembrar alguém de que Deus o vê. Pode despertar esperança em
quem estava pensando em desistir. Pode fortalecer uma pessoa em um período de
espera. Pode trazer direção num momento de confusão. Mas até mesmo o consolo
profético precisa permanecer submetido à verdade.
Deus não consola através de mentiras. Não precisamos prometer aquilo que
Ele não prometeu apenas para produzir emoção. A consolação verdadeira nasce da
fidelidade de Deus.
O Profético Precisa Estar Ligado À Intercessão
Existe uma ligação profunda entre profecia e intercessão nas Escrituras.
Quem percebe aquilo que está no coração de Deus frequentemente sente-se chamado
a orar.
Isso deveria corrigir um padrão em que pessoas desejam falar muito e
interceder pouco.
Há coisas que Deus revela não para serem imediatamente anunciadas
publicamente, mas para serem apresentadas diante dele em oração.
Amós 3 apresenta o profeta como alguém envolvido com aquilo que Deus
comunica. Daniel recebe revelações e responde com oração e jejum. Habacuque
recebe uma palavra e posiciona-se diante do Senhor.
Talvez uma das marcas mais seguras de maturidade profética seja esta: nem
tudo aquilo que percebemos precisa transformar-se em microfone; algumas coisas
precisam transformar-se em intercessão.
Discernir o momento de falar e o momento de orar faz parte da sabedoria.
O Profético Precisa Permanecer Cristocêntrico
Apocalipse 19:10 apresenta uma afirmação muito conhecida:
“O testemunho de Jesus é o espírito da profecia.”
Independentemente das discussões interpretativas específicas em torno da
expressão, uma verdade permanece inegociável para o ministério cristão: Jesus
precisa continuar no centro.
Se nossas experiências proféticas tornam Cristo secundário, alguma coisa
se perdeu. Se pessoas ficam mais fascinadas com o profeta do que com Jesus,
precisamos reavaliar. Se toda conversa espiritual começa a girar em torno de
experiências particulares e raramente volta à cruz, ao Evangelho e ao senhorio
de Cristo, precisamos retornar ao centro.
O Espírito Santo glorifica Jesus. Portanto, um ministério
verdadeiramente conduzido pelo Espírito jamais terá como resultado final a
exaltação de uma personalidade humana.
“A voz profética madura diminui para que Cristo apareça.”
O Espírito Continua Conduzindo Sua Igreja
O livro de Atos apresenta uma Igreja profundamente dependente da direção
do Espírito Santo.
Foi o Espírito quem disse em Antioquia: “Separai-me, agora, Barnabé e
Saulo para a obra a que os tenho chamado.” Foi o Espírito quem direcionou
movimentos missionários. Foi o Espírito quem advertiu. Foi o Espírito quem
distribuiu dons. Foi o Espírito quem capacitou testemunhas.
Portanto, não fomos chamados para construir uma Igreja que reconhece
teoricamente a existência do Espírito Santo, mas vive como se Ele não estivesse
presente.
Precisamos de sensibilidade espiritual. Mas sensibilidade precisa
caminhar com maturidade. Uma pessoa sensível e biblicamente despreparada pode
interpretar qualquer emoção como direção divina. Uma pessoa conhecedora da
Bíblia, mas completamente fechada à atuação do Espírito, pode tornar a vida
cristã meramente intelectual.
Precisamos novamente unir aquilo que nunca deveria ter sido separado: Palavra
e Espírito.
Que Deus Levante Uma Geração Profética Saudável
Precisamos orar por uma geração que seja profundamente espiritual e
profundamente bíblica.
Homens e mulheres que conheçam a presença de Deus, mas também conheçam
suas Escrituras. Que sejam corajosos, mas não arrogantes. Sensíveis, mas não
ingênuos. Proféticos, mas corrigíveis. Cheios de fé, mas também de
discernimento. Capazes de confrontar pecado sem humilhar pecadores. Capazes de
anunciar esperança sem fabricar promessas. Capazes de ouvir Deus sem
transformar cada impressão pessoal numa declaração infalível.
Precisamos de pessoas que não desejem ser conhecidas como “grandes
profetas”, mas como servos fiéis de Jesus.
O ministério profético não existe para criar um sistema de dependência
ao redor de homens extraordinários. Ele existe dentro do Corpo para contribuir
com a maturidade dos santos.
E chegamos novamente a Efésios 4. Se Cristo concedeu ministérios para
que a Igreja cresça “à medida da estatura da plenitude de Cristo”, então
o sucesso do ministério profético não deve ser medido apenas pela quantidade de
palavras entregues, mas pelo quanto a Igreja está se tornando semelhante a
Jesus. Mais madura, mais santa, mais bíblica, mais amorosa, mais discernidora, mais
centrada em Cristo. Essa é a direção.
O profeta não recebeu um ministério para construir seu nome. Recebeu uma
responsabilidade para servir ao Reino. Não foi chamado para produzir fascinação
em torno de si. Foi chamado para ajudar a Igreja a ouvir e obedecer ao Senhor. Não
foi enviado para substituir a Bíblia. Foi chamado para permanecer submisso
àquilo que Deus já revelou. Não recebeu autoridade para controlar destinos
pessoais. Foi chamado para cooperar com a edificação do povo de Deus. Não
existe para produzir medo. Existe para servir àquilo que o Espírito deseja
realizar na Igreja.
Por isso, precisamos fugir dos dois extremos. Não queremos uma Igreja
que despreze aquilo que Deus deseja fazer pelo Espírito, mas também não
queremos uma Igreja espiritualmente ingênua que aceite tudo sem discernimento.
O próprio texto original já apontava para essa tensão necessária entre abertura
e avaliação.
Queremos uma Igreja que consiga dizer como Paulo: “Não desprezeis as
profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.”
Queremos uma Igreja em que a profecia edifique, exorte e console,
exatamente como 1 Coríntios 14 ensina.
Queremos profetas que não tenham medo de ser avaliados, pois o próprio
Novo Testamento manda discernir aquilo que é falado.
Queremos vozes que chamem o povo de volta à oração, à santidade, à
misericórdia, à fidelidade às Escrituras e à centralidade de Jesus, sem
sensacionalismo nem manipulação.
Acima de tudo, queremos que o ministério profético cumpra aquilo para o
qual Cristo o concedeu em sua Igreja: contribuir para que o Corpo seja
edificado e Jesus seja cada vez mais plenamente formado em seu povo.
Que Deus levante vozes que conheçam sua Palavra, carreguem seu coração,
honrem sua Igreja e saibam desaparecer atrás da glória de Cristo.
Que nossas palavras não produzam confusão, mas clareza; não criem
dependência de homens, mas maior dependência de Deus; não promovam
personalidades, mas exaltem Jesus; e não afastem a Igreja das Escrituras, mas a
conduzam a uma obediência ainda mais profunda àquilo que o Senhor já revelou.
Porque quando o profético funciona biblicamente, o Reino de Deus se
manifesta por meio de uma Igreja que ouve, discerne, arrepende-se, é consolada,
amadurece e responde à voz do seu Rei.
Deus te abençoe!
Pastor Sérgio Luis