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Palavra que alcança a vida, transforma o coração e nos conduz para mais perto de Cristo Este blog nasceu do desejo de compartilhar aquilo que Deus tem colocado em nosso coração ao longo da caminhada. Mais do que publicar textos, queremos abrir um espaço de comunhão, ensino e encorajamento, onde pessoas possam encontrar na Palavra de Deus direção para a vida, consolo em tempos difíceis e esperança para continuar caminhando. Aqui compartilhamos mensagens, sermões, estudos e reflexões sobre fé, oração, família, paternidade de Deus, identidade, cura e restauração, Igreja, liderança, discipulado e os desafios de viver o Evangelho em nosso tempo. Cremos que a Palavra de Deus não foi dada apenas para ser conhecida, mas para transformar nossa maneira de pensar, sentir, decidir e viver. Nossa oração é que você se sinta bem-vindo aqui e que, em cada leitura, encontre graça, verdade, esperança e direção para sua caminhada com Deus. Com carinho, Sérgio e Débora.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A PATERNIDADE QUE GERA CURA — PARTE 3 - Filhos curados revelam o coração do Pai

 


A PATERNIDADE QUE GERA CURA — PARTE 3

Filhos curados revelam o coração do Pai

 

Nas duas primeiras partes desta série, percorremos um caminho importante. Primeiro, vimos que a paternidade de Deus alcança nossa identidade e nos conduz da sensação de orfandade para a consciência de que, em Cristo, fomos recebidos como filhos. Depois, avançamos para a comunhão com o Pai, compreendendo que não fomos chamados apenas para saber que somos filhos, mas para viver como filhos, em dependência, obediência, oração, intimidade e presença. Agora chegamos a uma terceira questão: o que acontece conosco quando começamos verdadeiramente a ser curados pela paternidade de Deus?

A resposta não pode terminar apenas em nós. A cura que vem do Pai precisa alcançar nossa maneira de tratar pessoas, construir relacionamentos, exercer autoridade, criar filhos, discipular, liderar, perdoar, corrigir, afirmar e amar. Uma das grandes evidências de que estamos sendo curados não é apenas conseguir falar sobre nossas feridas sem tanta dor, mas deixar de reproduzir nos outros aquilo que um dia nos feriu.

Existem pessoas que foram profundamente machucadas por seus pais e, mesmo sem perceber, acabam repetindo padrões semelhantes em seus próprios relacionamentos. Nem sempre repetem exatamente os mesmos comportamentos; às vezes, reproduzem as consequências daquilo que viveram. Quem cresceu sob rejeição pode tornar-se excessivamente defensivo. Quem recebeu pouco afeto pode ter dificuldade para demonstrá-lo. Quem foi criado debaixo de cobranças pode tornar-se alguém que cobra demais. Quem viveu abandono pode desenvolver medo de vínculos profundos. Quem nunca foi ouvido pode não saber ouvir.

Por isso, a cura produzida pelo Pai não consiste apenas em tratar a lembrança daquilo que aconteceu. Ela precisa também alcançar aquilo que aconteceu dentro de nós por causa daquilo que vivemos.

“Deus não deseja somente aliviar nossa dor; deseja transformar nossa maneira de viver.”

 

Nossas feridas não podem se tornar herança para outras pessoas

Uma das verdades mais difíceis de reconhecer é que pessoas feridas podem ferir. Nem sempre porque desejam fazer o mal, mas porque aprenderam a sobreviver de determinada maneira. Alguém que cresceu em uma casa onde emoções nunca eram expressas pode ter aprendido que demonstrar fraqueza era perigoso. Tornou-se forte, independente e resistente, talvez porque isso fosse necessário para atravessar aquela fase da vida. Anos depois, porém, aquilo que um dia serviu como mecanismo de proteção pode tornar-se um obstáculo para relacionamentos saudáveis.

Essa pessoa pode amar profundamente o cônjuge e os filhos e, ainda assim, não conseguir demonstrar. Pode sentir, mas não falar. Pode preocupar-se, mas não abraçar. Pode desejar proximidade e não saber construí-la. Em outros casos, alguém cresceu debaixo de um pai autoritário e prometeu a si mesmo que jamais seria como ele. Entretanto, diante de conflitos, percebe que palavras, tons de voz e reações semelhantes começam a aparecer.

Reconhecer isso pode ser doloroso, mas também pode ser o início de uma transformação profunda, porque aquilo que reconhecemos diante de Deus pode ser tratado por Ele. Nossa história pode explicar algumas de nossas reações, mas não precisa determinar definitivamente como continuaremos vivendo.

Em Cristo, ciclos podem ser interrompidos e novas formas de relacionamento podem ser aprendidas.

 

O Pai não nos cura apenas do que recebemos, mas também do que aprendemos a repetir

Efésios 5:1-2 apresenta uma verdade extraordinária:

 “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor.”

A ordem é importante. Paulo não diz que devemos imitar Deus para nos tornarmos filhos, mas que, por sermos filhos amados, somos chamados a refletir seu caráter.

Isso muda profundamente a maneira como compreendemos transformação. A vida cristã não é uma tentativa desesperada de conquistar a aprovação de Deus, mas o processo pelo qual filhos recebidos pela graça começam a aprender a viver como o Pai deseja. Não tentamos parecer com Deus para conseguir um lugar em sua família; aprendemos a parecer com Ele porque fomos recebidos nela.

Por isso, chega um momento em que já não basta perguntar por que nosso pai agiu de determinada maneira ou por que determinadas coisas aconteceram conosco. Precisamos também perguntar: “Pai, como o Senhor deseja me ensinar a viver de maneira diferente?”

A cura não consiste apenas em olhar para trás e compreender nossa história, mas também em permitir que Deus transforme nossa maneira de viver daqui para frente.

 

Quem recebe a afirmação do pai começa a aprender a afirmar

Uma das cenas mais marcantes dos Evangelhos acontece no batismo de Jesus.

Mateus 3:17 registra:

“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.”

O texto possui uma importância única na identidade e na missão de Cristo, mas também revela algo precioso sobre o coração do Pai: Ele fala, afirma, expressa amor e declara prazer no Filho.

Isso nos leva a pensar em quantas pessoas passaram anos esperando ouvir palavras de afirmação que nunca vieram. “Eu amo você”, “tenho orgulho de você”, “você é importante para mim”, “estou com você”. A ausência dessas palavras pode deixar marcas profundas, especialmente quando a criança cresce sem saber se é realmente vista, valorizada ou aceita.

O problema é que pessoas que sofreram com a falta de afirmação podem crescer e repetir o mesmo silêncio. Sentem amor, mas não expressam. Reconhecem qualidades, mas não dizem. Têm orgulho, mas permanecem caladas. A cura do Pai começa também a nos ensinar uma nova linguagem, na qual as palavras deixam de ser instrumentos de crítica constante e passam a ser usadas para construir, encorajar e transmitir segurança.

Provérbios 18:21 afirma que “a morte e a vida estão no poder da língua.” Isso significa que aquilo que dizemos pode ferir profundamente, mas também pode cooperar para restaurar. Pode ser que alguém não tenha ouvido tudo o que gostaria de ter ouvido durante sua infância, mas isso não significa que sua boca precise continuar reproduzindo o mesmo silêncio. Uma geração pode começar a mudar quando alguém decide falar aquilo que antes nunca foi dito.

 

Quem conhece a presença do Pai aprende a ser presente

Na segunda parte desta série, vimos que a paternidade de Deus não é apenas uma doutrina, mas relacionamento e presença.

Em João 14:18, Jesus declarou: “Não vos deixarei órfãos.”

A promessa do Espírito Santo revela que Deus não nos recebe em sua família para depois nos abandonar. Sua presença acompanha seus filhos.

Essa verdade possui uma aplicação profunda para nossos relacionamentos, especialmente dentro de casa. Existe diferença entre prover e estar presente. Muitos pais trabalham duramente para sustentar suas famílias, e isso é honroso e necessário, mas filhos não precisam apenas de provisão. Precisam de atenção, conversa, tempo, escuta e proximidade.

É possível pagar contas, oferecer uma boa educação e ainda assim estar emocionalmente distante. É possível viver debaixo do mesmo teto sem conhecer verdadeiramente aquilo que se passa no coração de um filho. É possível amar sinceramente e, ainda assim, não conseguir transmitir presença.

A paternidade de Deus nos ensina que relacionamento envolve proximidade. Se o Pai decidiu estar conosco, precisamos avaliar se as pessoas que amamos conseguem perceber que também estamos com elas. Às vezes, a presença que faltou em nossa história precisa começar a existir através de nós.

 

Filhos curados não transformam amor em recompensa

Algumas pessoas cresceram aprendendo que o amor precisava ser conquistado. Quando acertavam, eram elogiadas; quando decepcionavam, experimentavam silêncio, rejeição ou distância. Assim, aprenderam pouco a pouco que seriam amadas enquanto correspondessem às expectativas.

Quando essa lógica entra na vida espiritual, a relação com Deus também começa a ser marcada pelo desempenho. A pessoa ora com confiança quando sente que está vivendo bem, mas se afasta quando falha. Imagina que precisa primeiro compensar seus erros antes de aproximar-se novamente do Pai.

O Evangelho rompe essa lógica. Romanos 5:8 declara: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” Deus não esperou que nos tornássemos dignos para nos amar.

Isso não significa ausência de correção. Hebreus 12 mostra que o Pai disciplina aqueles que ama. A diferença está em compreender que disciplina não é rejeição e que correção não significa abandono. Um pai saudável consegue dizer “isso está errado” sem transmitir “você não é mais amado”. Essa distinção é extremamente importante para pessoas que aprenderam a associar correção à perda do amor.

A paternidade de Deus nos ensina que é possível corrigir sem humilhar, confrontar sem destruir e estabelecer limites sem retirar segurança relacional.

 

A cura nos ensina a estabelecer limites sem cultivar vingança

Quando falamos sobre cura da paternidade, precisamos evitar dois extremos. O primeiro é viver aprisionado ao ressentimento; o segundo é acreditar que perdão exige retornar imediatamente a qualquer relacionamento, mesmo quando ele continua sendo abusivo ou destrutivo.

Perdoar não significa considerar correto aquilo que foi feito. Também não significa negar a gravidade da ferida, eliminar consequências ou permitir que alguém continue nos machucando.

“Perdoar significa entregar a Deus o direito de vingança e recusar-se a permitir que o mal continue governando nosso coração.”

Existem situações em que a reconciliação pode acontecer. Em outras, será necessário tempo. Alguns relacionamentos poderão ser reconstruídos lentamente e, em determinados casos, limites claros serão indispensáveis. Há situações graves em que manter certa distância pode ser necessário para preservar integridade e segurança.

A maturidade está em aprender a amar sem ingenuidade, a perdoar sem negar a verdade e a estabelecer limites sem alimentar ódio. Filhos curados não precisam escolher entre submissão destrutiva e vingança; podem aprender um caminho marcado por verdade, graça e sabedoria.

 

Quem recebe misericórdia começa a distribuir misericórdia

Em Mateus 18, Jesus conta a história de um homem que recebeu o perdão de uma dívida enorme, mas depois recusou-se a perdoar alguém que lhe devia muito menos. A parábola confronta nossa tendência de desejar misericórdia para nós mesmos e justiça implacável para os outros.

O Evangelho não permite que permaneçamos dessa maneira. Quando começamos a compreender a dimensão da misericórdia que recebemos, alguma coisa precisa mudar na forma como tratamos pessoas. Isso não significa relativizar o pecado ou ignorar responsabilidades, mas lembrar que nós também dependemos diariamente da graça.

Pessoas que estão sendo curadas começam a perder o prazer de humilhar, não precisam vencer todas as discussões e deixam de utilizar os erros do passado como instrumentos de controle. A consciência da graça recebida começa a produzir graça no relacionamento com os outros. A cura da paternidade não nos torna pessoas frágeis ou sem firmeza, mas pessoas capazes de unir verdade e misericórdia.

 

O Pai nos ensina a escutar

Uma das necessidades mais profundas do coração humano é ser ouvido. Muitas pessoas cresceram tentando falar e encontrando respostas como “isso não é nada”, “pare de chorar”, “você está exagerando” ou “não tenho tempo para isso”. Com o passar dos anos, aprenderam a guardar aquilo que sentiam.

Entretanto, a Bíblia apresenta Deus como aquele que ouve. O Salmo 116:1 declara: “Amo o SENHOR, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas.”

Deus não é indiferente ao clamor de seus filhos, e essa realidade também precisa ensinar-nos algo sobre a maneira como tratamos as pessoas.

Pais precisam ouvir filhos. Cônjuges precisam aprender a escutar um ao outro. Líderes precisam ouvir aqueles que cuidam. Amigos precisam oferecer espaço para que sentimentos sejam expressos. Nem sempre ouvir significa concordar, nem sempre significa possuir uma solução imediata, mas muitas vezes a presença de alguém que realmente escuta já faz parte do processo de cura.

 

O Pai nos cura para que não exerçamos autoridade como quem nos feriu

Feridas paternas frequentemente estão ligadas ao uso errado da autoridade. Algumas pessoas cresceram debaixo de controle excessivo, outras foram humilhadas, manipuladas ou intimidadas. Assim, aprenderam que autoridade significa força, imposição e medo.

Jesus apresenta um modelo diferente. Em Marcos 10:42-45, ao falar sobre a maneira como governantes exercem domínio, Ele declara aos discípulos: “Mas entre vós não é assim.” No Reino de Deus, autoridade não existe para esmagar, mas para servir.

Essa verdade possui implicações importantes para pais, pastores, líderes, professores e qualquer pessoa que exerça influência. Autoridade cristã não deve produzir medo constante, nem utilizar manipulação como instrumento de controle. Também não deve exigir lealdade cega ou transformar pessoas em ferramentas para projetos pessoais.

Jesus demonstrou sua autoridade servindo. Por isso, filhos curados precisam aprender que poder e influência não existem para compensar inseguranças interiores. Existem para cuidar, formar, orientar e servir.

 

Filhos curados podem tornar-se pais diferentes

Paulo escreveu aos coríntios:

“Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais.”

A declaração de 1 Coríntios 4:15 mostra que a paternidade também possui uma dimensão espiritual.

Nem todos serão pais biológicos, mas todos podemos influenciar pessoas. Podemos acompanhar, discipular, afirmar, corrigir, encorajar, proteger e formar. Dentro da família de Deus, pessoas que nunca tiveram uma referência paterna saudável podem encontrar relacionamentos maduros nos quais cuidado, verdade, equilíbrio e graça estejam presentes.

Nenhuma pessoa deve ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao Pai celestial, mas Deus pode utilizar relacionamentos saudáveis como instrumentos de restauração. É possível, portanto, que alguém profundamente ferido pela paternidade humana, depois de ser tratado pelo Pai, torne-se instrumento de cura para outras pessoas. Aquilo que parecia ser apenas uma história de dor pode tornar-se parte de um testemunho de redenção.

 

Chega um momento em que precisamos deixar de perguntar apenas o que fizeram conosco

Perguntar o que aconteceu conosco é importante. Existem dores que precisam ser reconhecidas, acontecimentos que precisam ser nomeados e injustiças que não devem ser minimizadas. Entretanto, chega um momento no processo de cura em que não podemos permanecer apenas olhando para aquilo que perdemos.

Deus começa então a conduzir-nos para outra pergunta: o que faremos agora com aquilo que recebemos dele? Essa mudança é importante porque, enquanto permanecemos concentrados apenas naquilo que nos faltou, o passado continua ocupando grande espaço na definição do nosso presente.

Pode ser que alguém nunca tenha recebido afirmação, mas pode aprender a afirmar. Pode ter crescido sem presença e tornar-se presente. Pode ter conhecido dureza e aprender ternura. Pode ter experimentado rejeição e passar a criar ambientes de acolhimento. Pode ter sido marcado por palavras destrutivas e decidir que sua boca será instrumento de vida.

“A cura começa a alcançar maturidade quando aquilo que recebemos do Pai começa a alcançar outras pessoas através de nós.”

 

Não somos condenados a repetir nossa história

Algumas pessoas carregam um medo silencioso de repetir aquilo que viveram. Perguntam-se se um dia acabarão se tornando iguais àqueles que as feriram ou se reproduzirão em seus filhos aquilo que receberam dos próprios pais.

Essa preocupação pode ser real, mas não precisa tornar-se sentença. Paulo escreve em 2 Coríntios 5:17: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”

Isso não significa que todas as consequências emocionais desaparecem automaticamente, nem que não haverá luta. Também não elimina a necessidade de reconhecer padrões, buscar ajuda, confessar pecados e reaprender comportamentos. Significa, porém, que nosso passado já não possui autoridade absoluta para determinar nosso futuro.

O Espírito Santo trabalha em nós, a Palavra reorganiza nossa maneira de pensar e relacionamentos saudáveis podem ensinar-nos novas formas de viver. Aos poucos, padrões antigos podem perder força. Quando percebemos algo do passado aparecendo em nossas reações, não precisamos negar nem justificar. Podemos reconhecer, levar a Deus, pedir perdão quando necessário e recomeçar.

 

Pedir perdão também é uma forma de paternidade saudável

Alguns pais imaginam que pedir perdão aos filhos enfraquece sua autoridade. Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário. Quando um pai consegue dizer “eu errei”, “não deveria ter falado daquela maneira” ou “perdoe-me”, está ensinando algo extremamente importante.

Ele demonstra que autoridade não significa infalibilidade, que humildade não diminui ninguém e que arrependimento faz parte da vida cristã. Nenhum pai será perfeito, mas pode ser ensinável, reconhecer quando erra e permitir que Deus continue transformando sua maneira de relacionar-se com os filhos.

Filhos não precisam de pais que aparentem nunca falhar. Precisam de pais que não utilizem sua autoridade para fingir que nunca falham.

 

A cura da paternidade precisa alcançar nossa casa

Às vezes é mais fácil demonstrar maturidade fora de casa. Podemos ser pacientes com pessoas da igreja, gentis com conhecidos e atenciosos com visitas. Entretanto, é no cotidiano da família que nossos padrões mais profundos aparecem.

Por isso, a cura da paternidade precisa alcançar a mesa, a conversa, o casamento, a maneira como corrigimos os filhos, o tom de voz que utilizamos, o tempo que dedicamos, a forma como reagimos diante dos erros e nossa capacidade de pedir perdão.

Não adianta falar sobre o amor do Pai em público e construir dentro de casa um ambiente de medo. Não adianta ensinar graça e viver dominado pela cobrança. Não adianta pregar reconciliação e recusar diálogo. Nossa casa precisa tornar-se um dos primeiros lugares onde a transformação produzida pelo Evangelho se torna visível.

 

Filhos curados não são filhos perfeitos

Também precisamos evitar uma nova forma de cobrança. Ao compreender tudo isso, alguém pode começar a pensar que agora precisa acertar sempre ou tornar-se completamente diferente de uma vez. Essa expectativa novamente nos coloca no terreno do desempenho.

A cura é um processo. Há padrões construídos durante décadas que não desaparecerão em poucos dias. Algumas reações podem voltar, algumas feridas podem novamente doer e determinadas conversas continuarão sendo difíceis. Isso não invalida aquilo que Deus está fazendo.

A diferença é que antes talvez repetíssemos determinados comportamentos sem percebê-los. Agora começamos a reconhecê-los. Antes justificávamos nossas reações; agora aprendemos a confessá-las. Antes responsabilizávamos apenas os outros; agora permitimos que Deus trabalhe também em nós.

Maturidade não significa ausência de processo, mas disposição contínua para ser transformado.

 

A cura pode alcançar gerações que ainda nem nasceram

Existe algo profundamente belo quando uma pessoa decide interromper um ciclo. Alguém que cresceu em um ambiente marcado por violência pode construir uma casa de paz. Quem conheceu abandono pode tornar-se presença constante. Quem nunca recebeu afeto pode aprender a abraçar. Quem cresceu ouvindo palavras destrutivas pode decidir abençoar seus filhos.

Talvez a geração seguinte nunca compreenda completamente aquilo que foi necessário para que essa mudança acontecesse, e isso não é um problema. Uma das maiores vitórias da cura é justamente quando os filhos não precisam conhecer as mesmas dores para entender o valor daquilo que receberam.

Deus pode usar uma pessoa para interromper padrões que atravessaram décadas. A história não precisa continuar sempre da mesma maneira. A restauração de uma pessoa pode mudar profundamente aquilo que será transmitido às próximas gerações.

 

Filhos curados revelam o Pai

Jesus declarou em Mateus 5:16:

“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”

O destino das boas obras é a glória do Pai.

Nossa transformação, portanto, não termina em nós. Quando alguém encontra em nossa vida graça, fidelidade, verdade, misericórdia, presença, perdão e amor, deveria conseguir perceber algo daquele que está nos formando.

É por isso que a cura da paternidade também possui uma dimensão missionária.

Pessoas precisam encontrar cristãos cuja vida torne o caráter do Pai mais compreensível. Pais que amem, líderes que sirvam, homens e mulheres que sejam presentes, irmãos que caminhem em aliança e pessoas que saibam corrigir sem destruir, perdoar sem negar a verdade e amar sem controlar.

Essas vidas tornam-se testemunhos do Pai.

 

A cura que recebemos precisa transbordar

Pode ser que você tenha chegado a esta série pensando principalmente naquilo que precisava receber. Isso é legítimo.

Existem feridas que precisam ser cuidadas, ausências que precisam ser choradas e histórias que precisam ser revisitadas diante de Deus. Entretanto, o Pai não deseja apenas curar nossa dor; deseja transformar nossa história em fonte de vida para outras pessoas.

Na primeira parte desta série, a pergunta era: “Quem sou diante de Deus?” Em Cristo, descobrimos que nossa identidade não precisa permanecer presa à orfandade.

Na segunda parte, perguntamos como devemos viver sabendo que Deus é nosso Pai e vimos que filhos são chamados à comunhão, dependência, oração, obediência e missão.

Agora a pergunta é diferente: o que nossa cura produzirá na vida das pessoas que estão ao nosso redor?

A paternidade que gera cura não termina quando a dor diminui ou quando conseguimos falar sobre o passado com mais serenidade. Ela também não termina quando compreendemos intelectualmente que Deus é Pai. A cura continua enquanto aquilo que recebemos dele começa a transformar nossa maneira de viver e alcançar outras pessoas.

 

Curados para começar uma história diferente

Talvez não seja possível mudar a história que recebemos. Não podemos voltar à infância, reconstruir todos os momentos perdidos ou ouvir determinadas palavras exatamente quando precisávamos ouvi-las. Alguns abraços não aconteceram, algumas conversas não poderão ser refeitas e certos momentos não retornarão.

Entretanto, existe algo que pode mudar: a história que continuará depois de nós.

Uma pessoa pode ter recebido rejeição e aprender a transmitir aceitação. Pode ter vivido frieza e começar a oferecer afeto. Pode ter conhecido ausência e tornar-se presença. Pode ter crescido debaixo de medo e construir segurança. Pode ter ouvido palavras destrutivas e decidir que sua boca será instrumento de vida. Pode ter aprendido controle e passar a exercer autoridade através do serviço.

Isso não significa negar o passado. Significa reconhecer que o passado não precisa ter a palavra final.

A redenção torna-se visível quando Deus não apenas cura aquilo que aconteceu conosco, mas transforma nossa vida de maneira que aquilo que aconteceu conosco deixe de determinar aquilo que acontecerá através de nós.

Quando o Pai cura um filho, talvez esteja fazendo muito mais do que restaurando uma única pessoa. Pode estar interrompendo uma sequência de feridas que atravessaria gerações. Pode estar restaurando uma família, formando uma maneira diferente de exercer paternidade, construindo outra forma de liderar e preparando alguém para tornar-se instrumento de cura na vida de muitas pessoas.

Por isso, a cura pode parecer profundamente pessoal no início, mas seus frutos podem chegar muito mais longe. Filhos curados podem construir famílias diferentes, formar discípulos diferentes, exercer autoridade de maneira diferente e interromper ciclos que pareciam destinados a continuar.

Acima de tudo, filhos curados podem revelar ao mundo algo do coração do Pai.

Deus te abençoe!

Pr. Sérgio Luis

 

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