CALVINO, ARMÍNIO OU BÍBLIA?
Quando os sistemas teológicos precisam
permanecer debaixo da autoridade das Escrituras
Existem discussões dentro da Igreja que atravessam séculos e continuam
despertando grande interesse, produzindo livros, debates, conferências e,
infelizmente, algumas vezes, divisões entre irmãos. Uma das mais conhecidas
envolve as doutrinas normalmente associadas a João Calvino e Jacó Armínio,
especialmente quando tratamos de temas como eleição, predestinação, graça,
liberdade humana, perseverança e responsabilidade diante do Evangelho.
Não há problema em estudar essas questões. Pelo contrário, todo cristão deveria desejar compreender melhor aquilo que a Bíblia ensina sobre a salvação. O perigo começa quando passamos a ler as Escrituras principalmente através de um sistema e, pouco a pouco, o sistema deixa de ser uma ferramenta para interpretar a Bíblia e passa a funcionar como uma autoridade sobre ela.
Calvino não é nossa autoridade final. Armínio também não. Nenhum
concílio, confissão de fé, tradição denominacional ou grande teólogo ocupa esse
lugar. Todos podem contribuir, todos podem nos ajudar e todos também podem
estar equivocados em algum ponto. A autoridade final para aquilo que cremos
precisa continuar sendo a Palavra de Deus.
Paulo afirma:
“Toda a
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça” 2
Timóteo 3:16
Se a Escritura é nossa referência, ela precisa possuir liberdade para
corrigir até mesmo as estruturas teológicas pelas quais aprendemos a
compreendê-la.
O mais importante não é simplesmente se somos calvinistas ou arminianos,
mas se estamos realmente dispostos a permitir que a Bíblia diga aquilo que
ela diz, mesmo quando isso desafia o sistema teológico com o qual mais nos
identificamos.
Sistemas
teológicos podem nos ajudar, mas não podem governar a Bíblia
A teologia sistemática é útil. Não devemos tratar a tentativa de
organizar as doutrinas bíblicas como algo negativo. Todos nós fazemos algum
tipo de teologia quando procuramos compreender quem Deus é, como acontece a
salvação, qual é a condição humana, o que significa eleição ou como devemos
interpretar a perseverança cristã. O problema não está em organizar aquilo que
cremos, mas em tornar essa organização tão rígida que nenhum texto bíblico
possa mais surpreender-nos.
Existe uma diferença entre construir nossa teologia a partir da
Escritura e aproximar-nos da Escritura apenas para encontrar confirmação
daquilo que já decidimos acreditar. Quando isso acontece, podemos ler um texto
não para ouvi-lo, mas para encaixá-lo em uma estrutura previamente
estabelecida. E essa tentação não pertence exclusivamente a calvinistas ou
arminianos. Qualquer tradição pode cair nela, infelizmente.
O livro de Atos dos Apóstolos apresenta uma atitude muito saudável nos
cristãos de Bereia. Lucas registra que eles “receberam a palavra com toda a
avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de
fato, assim” (Atos 17:11). Aqueles irmãos ouviram Paulo, um apóstolo, e
ainda assim examinaram as Escrituras. Isso não foi considerado falta de
respeito. Pelo contrário, foi alvo de um grande elogio.
Precisamos, urgentemente, recuperar esse espírito. Não importa quem está
pregando, qual livro estamos lendo ou qual tradição herdamos. A pergunta
continua atual: aquilo que estamos ouvindo pode realmente ser sustentado
pelo conjunto das Escrituras?
A Bíblia
apresenta um Deus absolutamente soberano
Não precisamos diminuir a soberania de Deus para defender a
responsabilidade humana. A Bíblia é muito clara ao apresentar Deus como Senhor
sobre sua criação, sobre a história e sobre seus propósitos. Ele não é um
espectador impotente esperando para descobrir o que acontecerá. Ele age,
governa, conhece, chama, dirige e realiza seus propósitos.
Isaías registra a declaração do Senhor:
“O meu
conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” Isaías
46:10
Paulo também escreve que Deus “faz todas as coisas conforme o
conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). Não existe necessidade de
enfraquecer textos como esses.
Deus é soberano. Essa verdade deveria produzir confiança, adoração e
descanso. Nossa salvação não nasceu primeiramente de uma iniciativa humana. O
Evangelho começa em Deus. Foi Ele quem amou, enviou o Filho, providenciou a
redenção e tomou a iniciativa de reconciliar consigo um mundo perdido.
Entretanto, reconhecer a soberania divina não nos obriga a negar aquilo
que a própria Bíblia afirma sobre a responsabilidade humana. O problema surge
quando transformamos uma verdade bíblica em instrumento para apagar outra
verdade igualmente presente nas Escrituras.
A mesma
Bíblia que afirma a soberania de Deus responsabiliza o homem por sua resposta
Do início ao fim das Escrituras encontramos homens e mulheres sendo
chamados a responder a Deus.
Os profetas chamam Israel ao arrependimento. Jesus convida pessoas a
segui-lo. Os apóstolos anunciam o Evangelho e convocam seus ouvintes à fé.
Essas exortações não são apresentadas como encenações vazias, mas como chamados
reais.
Pedro, no dia de Pentecostes, responde à multidão:
“Arrependei-vos,
e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos
pecados” Atos 2:38
Paulo declara em Atenas que Deus “notifica aos homens que todos, em
toda parte, se arrependam” (Atos 17:30).
Existe responsabilidade. Existe chamado. E, existe necessidade de
resposta.
Isso aparece também nas palavras de Jesus. Em Mateus 23:37, ao lamentar
Jerusalém, Ele declara: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a
galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!”
O texto não descreve pessoas como máquinas executando inevitavelmente um
decreto. Há uma resistência real diante do chamado.
Não precisamos colocar a soberania de Deus contra a responsabilidade
humana como se uma destruísse a outra. A Bíblia consegue afirmar ambas. Talvez
nossa dificuldade esteja em querer explicar de forma exaustiva aquilo que a
própria revelação mantém em tensão.
A salvação
é inteiramente pela graça
Ao enfatizarmos a responsabilidade humana, precisamos evitar outro erro:
imaginar que o homem se torna autor de sua própria salvação. Ele não se torna. A
salvação é pela graça.
Paulo escreve:
“Porque
pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;
não de obras, para que ninguém se glorie.”
Efésios 2:8-9
Não existe espaço para mérito humano diante da cruz. Ninguém pode
apresentar sua fé como uma obra da qual deveria orgulhar-se. O pecador não
produz a expiação, não conquista a reconciliação e não pode exigir salvação com
base em qualquer justiça própria.
Cristo fez aquilo que não poderíamos fazer. Ele morreu, ressuscitou e abriu
o caminho.
A fé não é o preço da salvação. É a resposta pela qual recebemos aquilo
que a graça oferece.
Por isso, afirmar que o homem é chamado a crer não significa afirmar que
ele salva a si mesmo. Da mesma maneira que receber um presente não nos torna
autores do presente, receber pela fé a salvação não nos transforma em
salvadores de nós mesmos.
A glória continua pertencendo a Deus! Aleluia!
A eleição
precisa ser compreendida a partir de Cristo
Poucos assuntos provocam tanta discussão quanto a eleição. Efésios 1 é
frequentemente colocado no centro desse debate, e corretamente, porque Paulo
fala claramente sobre escolha e predestinação. Entretanto, algo extremamente
importante precisa ser observado: a linguagem do apóstolo é profundamente
cristocêntrica.
Paulo escreve:
“Assim como
nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e
irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção
de filhos, por meio de Jesus Cristo.”
Efésios 1:4-5
A expressão “nele” não é um detalhe. Cristo está no centro.
A eleição bíblica não deveria tornar-se uma especulação desconectada de
Jesus. Deus estabeleceu seu propósito redentor em Cristo. Nele encontramos
redenção, perdão, adoção, herança e todas as bênçãos espirituais descritas no
capítulo.
Isso nos ajuda a compreender a predestinação de maneira profundamente
relacionada ao propósito de Deus de formar um povo em Cristo. Romanos 8:29
afirma que aqueles que Deus conheceu de antemão também predestinou “para
serem conformes à imagem de seu Filho”. O foco não está apenas no destino,
mas também no propósito: Deus está formando uma família com filhos semelhantes
a Jesus.
É por isso que prefiro compreender a eleição a partir da filiação em
Cristo, sem transformar o assunto numa tentativa de desvendar uma lista secreta
de indivíduos que Deus teria decidido salvar e outros que jamais poderiam
responder ao Evangelho.
A questão central das Escrituras é Cristo. Estamos nele? É nele que
encontramos salvação.
O Evangelho
é anunciado como um convite verdadeiro
Quando observamos a maneira como Jesus e os apóstolos anunciam a
salvação, encontramos convites que possuem uma abertura impressionante.
Jesus declara:
“Vinde a
mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
Mateus 11:28
João 3:16 afirma:
“Porque
Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo
o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
E o último capítulo da Bíblia apresenta este convite:
“Aquele que
tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida.”
Apocalipse 22:17
Não vejo razão bíblica para transformar esses chamados em convites
apenas aparentemente universais.
A Igreja recebeu de Jesus a ordem de pregar o Evangelho a toda criatura.
Não fomos enviados a tentar descobrir antecipadamente quem está ou não dentro
de algum decreto secreto. Fomos enviados a anunciar Cristo.
Pregamos a todos. Chamamos todos ao arrependimento. Convidamos todos a
crer. E confiamos na atuação do Espírito Santo, que convence o mundo do pecado,
da justiça e do juízo.
Essa compreensão fortalece profundamente a missão da Igreja. Podemos
olhar para qualquer pessoa e anunciar sinceramente que há salvação em Jesus
Cristo.
A Bíblia
também revela o desejo salvador de Deus
Existem textos que não devem ser ignorados quando construímos nossa
compreensão da salvação. Paulo escreve em 1 Timóteo 2:3-4 que Deus, nosso
Salvador, “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno
conhecimento da verdade”.
Pedro também afirma:
“Não
retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário,
ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos
cheguem ao arrependimento.”
2 Pedro 3:9
Naturalmente, esses textos possuem contextos que precisam ser
respeitados, mas não devemos diminuir a força de sua linguagem simplesmente
porque ela cria dificuldades para determinado sistema.
Se nossa teologia precisa constantemente explicar por que um texto não
significa aquilo que parece afirmar de maneira bastante direta, talvez seja
saudável perguntar se não estamos defendendo demais nosso sistema.
A Bíblia precisa ter liberdade para corrigir nossa teologia
sistematizada.
Graça e
resistência aparecem juntas nas Escrituras
Outro aspecto importante é que a Bíblia mostra a ação de Deus e, ao
mesmo tempo, a possibilidade de resistência humana. Estêvão diz aos líderes
judeus:
“Homens de
dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao
Espírito Santo.”
Atos 7:51
Jesus também denuncia pessoas que recusavam aquilo que Deus desejava
realizar entre elas. A Escritura nunca retrata o ser humano como moralmente
neutro ou naturalmente inclinado para Deus. O pecado afetou profundamente a
humanidade. Precisamos da graça, da atuação de Deus e da ação do Espírito.
Contudo, essa atuação divina não é apresentada em todos os textos como
uma força irresistível que elimina qualquer possibilidade de resistência.
Aqui novamente precisamos permitir que a Escritura mantenha sua própria
tensão. A graça precede. A graça chama. A graça convence. A graça possibilita. E
o homem é responsabilizado por responder.
Nenhuma dessas afirmações precisa diminuir a glória de Deus.
A segurança
em Cristo não deve produzir descuido espiritual
Outro tema que divide calvinistas e arminianos é a perseverança. De um
lado, encontramos passagens extremamente consoladoras mostrando a fidelidade de
Deus em guardar seus filhos. Jesus declara sobre suas ovelhas: “Eu lhes dou
a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”
(João 10:28).
Essa é uma promessa maravilhosa. Nossa segurança não depende da
fragilidade de nossas emoções, mas da fidelidade de Cristo.
Entretanto, a mesma Bíblia que oferece segurança também apresenta
advertências sérias. Hebreus chama repetidamente os cristãos a não endurecerem
o coração, a permanecerem firmes e a perseverarem na fé. Jesus diz em João
15:4: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós.”
Precisamos respeitar os dois conjuntos de textos. Não devemos
transformar a vida cristã em insegurança permanente, como se Deus estivesse
procurando qualquer oportunidade para expulsar seus filhos. Mas também não
devemos ensinar uma segurança que faça do chamado à perseverança algo
irrelevante.
A segurança bíblica encontra-se em Cristo. Por isso permanecemos nele.
Nem todo
texto precisa escolher um lado do nosso debate
Uma das coisas que precisamos aprender é que os autores bíblicos não
escreveram pensando nas categorias teológicas que surgiriam muitos séculos
depois.
Paulo não escreveu Romanos perguntando se seria chamado calvinista. João
não escreveu seu Evangelho tentando definir-se como arminiano. Pedro não estava
organizando os cinco pontos de nenhum sistema. Eles estavam anunciando a
revelação recebida de Deus.
Por isso, talvez cometamos um erro quando lemos cada passagem
perguntando: “Este texto favorece qual lado?”
Existem textos que enfatizam a iniciativa de Deus. Outros enfatizam
fortemente a resposta humana.
Há passagens sobre eleição. Há convites universais. Há promessas de
preservação. Há advertências sobre perseverança. Precisamos ouvir todas elas.
A fidelidade bíblica não está em selecionar os textos que fortalecem
nossa tradição e reinterpretar todos os demais até que deixem de incomodar
nosso sistema. Está em permitir que o conjunto das Escrituras forme nossa
compreensão.
O problema
começa quando o sistema se torna nossa identidade
Podemos estudar profundamente uma tradição teológica sem transformar
essa tradição em nossa identidade principal. Entretanto, isso nem sempre
acontece. Algumas pessoas tornam-se tão identificadas com determinados rótulos
que qualquer questionamento à sua escola teológica parece quase uma agressão
pessoal.
A partir daí, as discussões deixam de ser busca pela verdade e passam a
funcionar como defesa de grupo. O outro lado deixa de ser formado por irmãos
com quem discordamos e passa a ser tratado como inimigo.
Começamos a selecionar apenas autores que confirmam nossas posições,
ouvir somente pregadores que concordam conosco e interpretar todo argumento
contrário pela versão mais fraca possível.
Isso não demonstra maturidade teológica, mas infelizmente, demonstra
orgulho teológico ou denominacional.
Devemos lembrar que existem cristãos sinceros, piedosos e profundamente
comprometidos com Jesus em diferentes tradições. Existem missionários,
pastores, estudiosos e homens de oração que foram calvinistas. Existem também
inúmeros servos fiéis identificados com tradições arminianas.
Isso não significa que todas as posições estejam igualmente corretas. A
verdade existe e devemos buscá-la. Significa apenas que discordância teológica
não nos autoriza a abandonar o amor cristão.
Nossa
teologia deve produzir humildade, não superioridade
Paulo trata de assuntos extremamente profundos em Romanos 9–11. Ele fala
sobre eleição, misericórdia, Israel, endurecimento, fé e propósito divino.
Entretanto, quando chega ao final de sua reflexão, não termina exaltando sua
própria capacidade de compreender Deus.
Ele termina adorando:
“Ó
profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão
insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!”
Romanos 11:33
Isso nos ensina uma coisa:
“Quanto
mais nos aproximamos dos mistérios da graça, menos espaço deveria existir para
arrogância.”
Se compreendemos tudo perfeitamente e chegamos ao final olhando com
desprezo para quem pensa diferente, talvez alguma coisa esteja errada.
A boa teologia produz reverência e faz-nos perceber o tamanho de Deus e
nossa própria limitação.
A Bíblia é
maior do que Calvino e Armínio
Podemos reconhecer contribuições importantes em João Calvino sem aceitar
todas as suas conclusões. Podemos estudar Jacó Armínio sem acreditar que sua
formulação seja perfeita. Podemos aprender com Agostinho, Wesley, Lutero, os
pais da Igreja e muitos outros homens e mulheres que refletiram seriamente
sobre as Escrituras.
Isso é saudável, posto que somos beneficiados por dois mil anos de
reflexão cristã e seria arrogante demais imaginar que não temos nada a aprender
com aqueles que vieram antes de nós.
Mas existe uma diferença entre aprender com a história e tornar-se
prisioneiro dela. Os grandes teólogos precisam permanecer sentados diante da
Bíblia conosco. Eles não ocupam a cadeira do juiz. A Escritura ocupa.
Se Calvino estiver correto em determinado ponto, devemos receber aquilo
que está de acordo com a Palavra. Se estiver equivocado, a Escritura precisa
ter autoridade para corrigi-lo. O mesmo vale para Armínio e para qualquer
outro. E também vale para nós.
O centro da
salvação não é uma doutrina isolada, mas Cristo
Talvez seja possível discutir tanto sobre a mecânica da salvação que
acabemos perdendo de vista o Salvador. Esse é um perigo real.
Podemos dominar conceitos como eleição, predestinação, depravação,
expiação, graça preveniente, perseverança e livre-arbítrio e continuar
conhecendo pouco a pessoa de Jesus.
A Bíblia não nos chama apenas para compreender um sistema de salvação. Chama-nos
para Cristo.
Jesus declarou:
“Eu sou o
caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.”
João 14:6
Ele é o centro. É nele que somos reconciliados. É nele que recebemos
perdão. É nele que somos adotados. E é nele que encontramos vida eterna.
Por isso, antes de perguntar qual sistema descreve melhor todos os
detalhes da salvação, existe uma pergunta infinitamente mais importante: Estamos
em Cristo?
Porque podemos vencer uma discussão sobre predestinação e continuar
longe daquele para quem toda a doutrina deveria apontar.
Calvino,
Armínio ou Bíblia?
Se a pergunta for apresentada dessa maneira, minha resposta é clara: Bíblia.
Isso não significa desprezar Calvino nem Armínio. Também não significa
imaginar que conseguimos ler a Bíblia sem qualquer influência, pressuposto ou
tradição. Significa simplesmente reconhecer a ordem correta das autoridades.
Primeiro, a Palavra. Depois, nossas interpretações.
Primeiro, Cristo. Depois, nossos sistemas.
Primeiro, aquilo que Deus revelou. Depois, aquilo que homens organizaram
a partir dessa revelação.
Podemos estudar teologia com profundidade e continuar dizendo: “Se a
Bíblia demonstrar que preciso rever minha posição, eu a reverei.” Essa
disposição é muito mais importante do que o rótulo que carregamos.
Talvez não consigamos resolver todas as tensões entre soberania divina e
responsabilidade humana. Talvez algumas perguntas continuem abertas. Isso não
deveria nos assustar. Existe algo profundamente saudável em reconhecer que Deus
é maior do que nossa capacidade de explicá-lo completamente.
O que não podemos fazer é sacrificar textos bíblicos para preservar a
elegância de um sistema.
Se a Bíblia afirma a soberania de Deus, vamos afirmá-la. Se afirma a
responsabilidade humana, vamos afirmá-la. Se ensina que a salvação é pela
graça, vamos proclamá-la. Se chama homens ao arrependimento e à fé, vamos
chamá-los. Se fala de eleição em Cristo, vamos colocar Cristo no centro. Se
oferece segurança, vamos descansar. Se adverte sobre perseverança, vamos
permanecer vigilantes.
Não precisamos escolher quais partes da Bíblia aceitaremos para proteger
nossa tradição. Precisamos permitir que toda a Palavra de Deus construa
nossa teologia.
No final, talvez o grande questionamento não seja se somos
suficientemente calvinistas ou suficientemente arminianos. Talvez seja se somos
suficientemente bíblicos para permitir que a Escritura confronte até aquilo que
mais gostamos de acreditar.
Podemos estudar Calvino. Podemos estudar Armínio. Podemos ouvir
diferentes tradições. Mas nossa consciência precisa permanecer cativa da
Palavra de Deus.
Porque homens podem nos ajudar a compreender a verdade. Todavia, somente
a Escritura, possui autoridade para julgar aquilo que cremos.
E acima de todos os nossos sistemas continua existindo uma pessoa para
quem toda teologia cristã precisa apontar: Jesus Cristo.
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis

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