CRISTÃOS NAS REDES SOCIAIS: ESTAMOS REPRESENTANDO CRISTO OU APENAS
DEFENDENDO NOSSAS OPINIÕES?
Quando nossa presença digital também precisa
estar debaixo do senhorio de Jesus
As redes sociais se tornaram uma extensão da vida. Nelas compartilhamos
opiniões, acompanhamos notícias, conversamos com amigos, divulgamos projetos,
comentamos acontecimentos, expomos parte da nossa rotina e participamos de
discussões que, em outros tempos, ficariam restritas a pequenos grupos. Aquilo
que antes era dito numa conversa entre poucas pessoas agora pode alcançar
centenas ou milhares em questão de minutos.
Essa mudança ampliou extraordinariamente nossa capacidade de comunicação, mas também aumentou nossa responsabilidade sobre aquilo que publicamos.
Para o cristão, essa realidade precisa ser examinada à luz de uma
pergunta espiritual muito mais profunda do que simplesmente saber se devemos ou
não utilizar redes sociais.
O que está em jogo é a maneira como representamos Cristo quando entramos
nesses ambientes. Podemos cantar sobre Jesus, compartilhar versículos, divulgar
cultos e publicar mensagens bíblicas, mas nosso testemunho digital não é
definido apenas pelo conteúdo religioso que colocamos na internet. Ele também
aparece na maneira como tratamos quem discorda de nós, nas palavras que
utilizamos quando estamos irritados, no cuidado com aquilo que compartilhamos,
na maneira como reagimos às críticas e até naquilo que escolhemos não publicar.
Paulo escreve:
“E tudo o
que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus,
dando por ele graças a Deus Pai.”
Colossenses 3:17
A abrangência desse texto é difícil de ignorar. Se tudo aquilo que
fazemos deve ser colocado debaixo do senhorio de Cristo, não existe uma parte
de nossa vida na qual podemos simplesmente suspender nossa identidade de
discípulos. O mesmo cristão que participa do culto continua sendo cristão
quando abre uma rede social. A mesma boca que louva a Deus no domingo está
ligada à mesma pessoa que escreve comentários na segunda-feira. A
espiritualidade não termina quando pegamos o celular.
Nossa
identidade digital também revela quem estamos nos tornando
As redes sociais criaram possibilidades extraordinárias de expressão,
mas também tornaram mais fácil construir versões cuidadosamente selecionadas de
nós mesmos. Podemos mostrar apenas os melhores momentos, as melhores
fotografias, os pensamentos mais espirituais, os dias mais produtivos e as
experiências mais interessantes.
Aos poucos, pode surgir uma distância entre aquilo que realmente somos e
aquilo que desejamos que os outros pensem que somos.
Esse problema não é exclusivo das redes sociais. Jesus já confrontava,
em seu tempo, uma religiosidade preocupada demais com a aparência pública. Em
Mateus 6, Ele advertiu contra práticas espirituais realizadas com o objetivo de
serem vistas e admiradas pelos homens. O problema não estava em orar, jejuar ou
contribuir, mas em transformar algo dirigido a Deus em instrumento de
construção de imagem.
Esse princípio continua profundamente atual. Podemos publicar um
versículo por devoção sincera, mas também podemos fazê-lo para sustentar uma
imagem espiritual. Podemos compartilhar uma obra de misericórdia para inspirar
outras pessoas, mas podemos também transformar o sofrimento alheio em cenário
para autopromoção. Podemos divulgar aquilo que Deus está fazendo sem precisar
transformar cada experiência espiritual em conteúdo.
Nossa presença digital precisa ser submetida à mesma integridade que
esperamos cultivar na vida fora das telas.
O objetivo do discipulado não é produzir uma versão pública convincente
de nós mesmos, mas permitir que Cristo transforme quem somos quando ninguém
está nos observando.
É possível
defender uma verdade de uma maneira que contradiga a própria verdade
Um dos problemas mais visíveis no ambiente digital é a maneira como
pessoas defendem suas convicções. As redes favorecem respostas rápidas, debates
públicos e confrontos permanentes. Nesse ambiente, o cristão pode facilmente
confundir firmeza com agressividade e começar a acreditar que quanto mais duro
for, mais fiel estará sendo à verdade.
A Bíblia apresenta um caminho diferente. Paulo orienta:
“A vossa
palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis
responder a cada um.”
Colossenses 4:6
O texto não pede que abandonemos nossas convicções ou evitemos assuntos
difíceis. Ele nos lembra que a maneira como respondemos também faz parte do
conteúdo que estamos transmitindo. Uma posição correta pode ser defendida com
arrogância, sarcasmo, desprezo e crueldade. Nesse caso, podemos preservar uma
formulação doutrinária enquanto demonstramos muito pouco do caráter daquele a
quem afirmamos seguir.
Isso merece atenção especial porque o ambiente digital frequentemente
recompensa a frase mais agressiva, a resposta mais irônica e a humilhação
pública do adversário. O problema é que aquilo que produz engajamento nem
sempre produz edificação. O que desperta aplauso de quem já concorda conosco
pode afastar alguém que precisava encontrar em nós um testemunho de graça e
verdade.
“Fidelidade
bíblica não consiste apenas em possuir argumentos corretos. Também envolve
falar de maneira coerente com o Espírito de Cristo.”
O anonimato
e a distância podem revelar áreas do coração que ainda precisam ser tratadas
Pessoas que jamais gritariam com alguém numa conversa presencial podem
escrever palavras duras quando estão atrás de uma tela. A distância reduz nossa
percepção da humanidade de quem está do outro lado. Vemos uma fotografia, um
nome, uma opinião ou uma frase, mas podemos esquecer que existe uma pessoa real
recebendo aquilo que escrevemos.
Tiago oferece uma advertência que se aplica com enorme força ao ambiente
digital:
“Com ela,
bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à
semelhança de Deus. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não
é conveniente que estas coisas sejam assim.”
Tiago 3:9-10
Hoje poderíamos acrescentar que aquilo que Tiago disse sobre a língua
também alcança nosso teclado.
O fato de uma palavra ser escrita não reduz seu poder. Comentários podem
humilhar, ferir, destruir reputações, alimentar conflitos e permanecer
disponíveis durante muito tempo. A ausência de contato físico não diminui nossa
responsabilidade.
As redes sociais podem funcionar, inclusive, como um espelho do coração.
A maneira como reagimos quando somos contrariados revela muito sobre aquilo que
ainda precisa ser tratado em nós. Se uma opinião diferente imediatamente
desperta desprezo, se uma crítica nos conduz à agressividade ou se sentimos
prazer em humilhar quem pensa diferente, o problema talvez seja maior do que a
discussão específica. Há algo em nosso coração pedindo transformação.
Nem toda
discussão precisa da nossa participação
A facilidade para comentar cria uma sensação de obrigação permanente.
Uma notícia aparece e sentimos que precisamos dizer alguma coisa. Uma
controvérsia surge e pensamos que permanecer em silêncio significaria covardia.
Alguém faz uma afirmação equivocada e imediatamente sentimos necessidade de
corrigi-la publicamente.
Entretanto, maturidade também inclui saber quando não falar.
Provérbios 17:27 ensina: “Quem retém as palavras possui o
conhecimento, e o sereno de espírito é homem de inteligência.” A Bíblia não
associa sabedoria à quantidade de opiniões emitidas, mas à capacidade de
governar as próprias palavras.
Existem conversas nas quais nossa participação pode acrescentar clareza.
Em outras, ela apenas aumentará o ruído. Há momentos em que uma correção
pública é necessária, mas existem situações nas quais uma conversa privada
seria muito mais adequada. Há debates que realmente envolvem princípios
importantes e outros que apenas alimentam vaidade, rivalidade e desejo de
provar superioridade.
O cristão não precisa responder a toda provocação para demonstrar
firmeza. Às vezes, a manifestação mais clara de domínio próprio é simplesmente
recusar-se a entrar numa discussão que não produzirá fruto algum.
O algoritmo
pode valorizar conflito, mas o discípulo é chamado à paz
Grande parte do ambiente digital funciona a partir de atenção. Conteúdos
que provocam emoções fortes tendem a receber mais comentários, reações e
compartilhamentos. Por isso, indignação, escândalo e conflito podem ocupar
espaço desproporcional em nossa experiência online.
Se não estivermos atentos, começaremos a adaptar nosso comportamento a
essa lógica. Descobriremos que determinadas palavras produzem mais reação, que
opiniões mais radicais geram mais alcance e que conflitos públicos mantêm as
pessoas olhando para nós. Aos poucos, podemos tornar-nos mais interessados em
provocar do que em edificar.
Jesus declarou:
“Bem-aventurados
os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”
Mateus 5:9
Ser pacificador não significa evitar qualquer confronto ou abrir mão da
verdade. Jesus confrontou o erro quando necessário. A diferença está no
propósito. O pacificador não busca conflito como combustível para sua própria
relevância; procura agir de maneira que a verdade não seja separada do amor, da
justiça e da possibilidade de reconciliação.
Essa postura é profundamente contracultural no ambiente digital. Num
espaço que frequentemente transforma discordância em guerra, cristãos deveriam
demonstrar que é possível possuir convicções firmes sem desumanizar quem pensa
diferente.
A
necessidade de ter razão pode tornar-se mais importante do que o desejo de
representar Cristo
Existe um perigo muito sutil nas discussões online: podemos começar com
o desejo legítimo de defender uma verdade e terminar apenas tentando proteger
nosso orgulho. A partir desse ponto, já não estamos interessados em compreender
o outro, corrigir um erro ou esclarecer um assunto. Queremos vencer.
Quando isso acontece, qualquer recuo parece derrota. Admitir que
exageramos torna-se difícil. Reconhecer um argumento válido no outro lado
parece enfraquecer nossa posição. Pedir desculpas se transforma numa ameaça à
imagem que estamos tentando preservar.
Mas o Evangelho não nos chama para proteger uma reputação de
infalibilidade.
Provérbios 12:15 afirma: “O caminho do insensato aos seus próprios
olhos parece reto, mas o sábio dá ouvidos aos conselhos.”
A capacidade de rever uma posição não é fraqueza. A disposição para
reconhecer um erro pode demonstrar muito mais maturidade do que a insistência
em permanecer numa discussão apenas para não parecer vencido.
Nosso testemunho vale mais do que a última palavra.
Curtidas,
compartilhamentos e seguidores também podem disputar nosso coração
As redes sociais não influenciam apenas nossa maneira de falar. Elas
também mexem profundamente com nossa necessidade de aprovação.
Publicamos alguma coisa e verificamos quantas pessoas curtiram.
Observamos o número de compartilhamentos. Comparamos alcance. Percebemos que
determinados conteúdos funcionam melhor e podemos começar a ajustar nossa
comunicação não apenas para servir pessoas, mas para receber reconhecimento.
Nada disso significa que métricas sejam inúteis. Para quem trabalha com
comunicação, acompanhar alcance pode ajudar a compreender quais conteúdos estão
chegando às pessoas. O problema começa quando os números deixam de ser
ferramentas e passam a determinar nosso valor.
Jesus já advertia contra a busca de aprovação humana. Em João 12:43, ao
falar de pessoas que criam nele mas temiam assumir publicamente essa fé, o
Evangelho registra que “amaram mais a glória dos homens do que a glória de
Deus.”
A lógica permanece atual. A aprovação digital pode tornar-se uma forma
moderna dessa mesma tentação. Podemos ajustar aquilo que pensamos, falamos e
até pregamos para preservar aceitação.
O discípulo precisa lembrar que sua identidade não é medida por alcance.
Comparação
digital pode roubar contentamento e gratidão
Outro efeito comum das redes sociais é a comparação. Vemos conquistas,
viagens, famílias sorridentes, ministérios crescendo, casas organizadas, corpos
cuidadosamente apresentados e projetos bem-sucedidos. O problema é que estamos
comparando nossa vida inteira com uma seleção dos melhores momentos da vida de
outras pessoas.
Essa comparação produz uma impressão falsa de normalidade. Parece que
todos estão prosperando, menos nós. Todos estão felizes, menos nós. Todos
avançam, enquanto permanecemos parados.
Paulo escreve em Filipenses 4:11: “Aprendi a viver contente em toda e
qualquer situação.”
Observe que contentamento foi aprendido. Ele não depende de possuir mais
do que os outros, mas de não permitir que nossa paz seja governada pela
comparação.
As redes sociais podem ser utilizadas de maneira saudável, mas
precisamos reconhecer quando estão alimentando inveja, insatisfação ou
sentimento constante de insuficiência. Às vezes, limitar aquilo que consumimos
não é sinal de fraqueza espiritual, mas de sabedoria.
Também
existe uma cultura de exposição que precisa ser examinada
Vivemos numa época em que experiências pessoais se transformaram
facilmente em conteúdo. Conquistas, dores, conflitos familiares, problemas
conjugais, enfermidades, reconciliações e até momentos espirituais podem ser
compartilhados publicamente quase no mesmo instante em que acontecem. Nem tudo
precisa tornar-se público.
A Bíblia valoriza comunidade e testemunho, mas também conhece o valor da
discrição. Provérbios 11:13 afirma: “O mexeriqueiro descobre o segredo, mas
o fiel de espírito o encobre.”
Existem histórias que não pertencem apenas a nós. Um conflito familiar
envolve outras pessoas. Um aconselhamento recebido envolve confidencialidade.
Uma experiência dolorosa pode ainda precisar ser processada antes de ser
transformada em postagem.
A exposição permanente pode produzir uma dificuldade crescente de
distinguir entre viver uma experiência e pensar em como ela aparecerá para os
outros.
O discípulo precisa preservar espaços da vida que existam apenas diante
de Deus, da família e de pessoas de confiança.
Nossos
filhos também estão aprendendo a partir da maneira como usamos as redes
Pais frequentemente se preocupam com o comportamento dos filhos na
internet, mas esquecem que parte do discipulado digital acontece pelo exemplo.
Se crianças veem adultos constantemente irritados com o celular,
discutindo com desconhecidos, verificando notificações durante as refeições,
expondo detalhes familiares ou medindo o próprio valor por reações online,
aprenderão muito antes de qualquer conversa formal sobre tecnologia.
Deuteronômio 6 apresenta a formação espiritual acontecendo na vida
cotidiana, enquanto a família está em casa, caminha, deita-se e levanta-se.
Esse princípio alcança também nossa relação com as ferramentas do nosso tempo.
Ensinar domínio próprio digital envolve praticá-lo. Ensinar respeito
online exige demonstrá-lo. Ensinar que ninguém precisa responder imediatamente
a todas as mensagens exige que nossos filhos nos vejam capazes de deixar o
telefone de lado.
A educação cristã para o mundo digital começa muito antes de qualquer
regra de uso. Começa com um exemplo coerente.
A verdade
continua sendo indispensável naquilo que compartilhamos
A rapidez das redes aumentou também nossa capacidade de espalhar
informação errada. Uma notícia falsa pode circular durante horas ou dias antes
que alguém verifique sua origem. Por isso, o compromisso com a verdade precisa
acompanhar toda presença cristã na internet.
Efésios 4:25 orienta:
“Deixando a
mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo.”
Isso inclui informações que confirmam nossa opinião. Se determinada
notícia favorece aquilo que já acreditamos, ainda assim precisa ser examinada.
Se um vídeo prejudica alguém de quem discordamos, ainda precisamos saber se é
autêntico e se está no contexto correto. A verdade não pode ser medida pela
utilidade que determinada informação possui para nossas discussões.
Esse compromisso também significa corrigir quando erramos. Compartilhar
algo falso e depois descobrir o erro deveria levar-nos a corrigir a informação
com a mesma disposição que tivemos para divulgá-la.
“Uma
comunidade cristã comprometida com a verdade precisa ser reconhecida por sua
confiabilidade.”
Não podemos
confundir testemunho cristão com propaganda religiosa
Existe uma diferença entre testemunhar de Cristo e simplesmente
preencher nossas redes com conteúdo religioso.
Uma pessoa pode publicar dezenas de versículos e ainda tratar pessoas
com crueldade. Pode compartilhar sermões e participar de fofocas. Pode escrever
sobre perdão enquanto mantém conflitos públicos intermináveis. Pode defender
santidade e utilizar linguagem ofensiva.
O Evangelho não é demonstrado apenas pelo conteúdo que repostamos. Ele
precisa aparecer em nossa conduta.
Jesus disse:
“Nisto
conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.”
João 13:35
O amor cristão não substitui a verdade, mas confirma que aquilo que
pregamos está produzindo fruto em nós.
Uma rede social repleta de linguagem religiosa e vazia do caráter de
Cristo comunica uma mensagem contraditória.
A maneira
como tratamos quem pensa diferente é parte do nosso testemunho
Poucas situações revelam tanto nosso caráter quanto lidar com alguém que
discorda de nós.
Enquanto todos concordam, gentileza é fácil. O teste acontece quando
somos contrariados.
Paulo escreve em 2 Timóteo 2:24-25:
“Ora, é
necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando
para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que
se opõem.”
O texto não exige ausência de posicionamento. Paulo fala em instruir
quem se opõe. A diferença está na postura: brandura, paciência e mansidão.
Esse padrão deveria mudar profundamente a forma como cristãos participam
de discussões online. Não é necessário insultar para corrigir. Não precisamos
ridicularizar para discordar. Não precisamos atribuir más intenções a todo
aquele que pensa de modo diferente.
Podemos argumentar com firmeza e, ainda assim, preservar a dignidade do
outro.
Também
precisamos aprender a discordar entre cristãos
O ambiente digital tornou públicas muitas discussões que anteriormente
aconteceriam em conversas privadas, salas de aula ou reuniões ministeriais.
Diferenças teológicas e metodológicas são frequentemente transformadas em
espetáculos.
Existem temas sobre os quais precisamos discutir. A Igreja sempre
refletiu, debateu e corrigiu erros. Mas existe diferença entre debate teológico
e destruição pública de irmãos.
Paulo confrontou falsas doutrinas com firmeza, mas também tratou
diversas divergências internas com consciência pastoral. Romanos 14 mostra que
nem toda diferença deve ser transformada em motivo de ruptura.
Precisamos reaprender a distinguir questões centrais da fé de temas
secundários, erros graves de simples diferenças interpretativas e pecados que
exigem confronto de preferências pessoais.
Se chamarmos qualquer divergência de heresia, a palavra perderá seu
significado. Se tratarmos todo irmão que discorda de nós como inimigo,
revelaremos que aprendemos pouco sobre comunhão.
Nossa
indignação também precisa ser discipulada
Existe muita coisa no mundo que deveria provocar indignação. Injustiça,
violência, exploração, abuso e mentira não deveriam encontrar um cristianismo
indiferente. Entretanto, indignação também precisa permanecer debaixo do
governo de Cristo.
Efésios 4:26 declara: “Irai-vos e não pequeis.” Isso significa
que até uma emoção legítima pode conduzir a comportamentos pecaminosos.
Nas redes sociais, indignação pode transformar-se rapidamente em
agressividade, julgamento precipitado e prazer em destruir reputações. Podemos
começar defendendo uma causa justa e terminar reproduzindo exatamente o tipo de
comportamento que condenávamos.
Uma fé madura não elimina indignação. Ensina-nos a governá-la.
Redes
sociais também podem ser utilizadas para servir
Apesar de todos esses riscos, seria injusto tratar as redes sociais
apenas como problema. Elas também oferecem oportunidades que outras gerações
não possuíam.
Podemos levar conteúdo bíblico a pessoas que dificilmente entrariam em
uma igreja, encorajar alguém que atravessa uma crise, ensinar, compartilhar
testemunhos e abrir portas para conversas sobre a fé. As redes sociais também
podem aproximar pessoas distantes e criar espaços de estudo, comunhão e
edificação que talvez não existissem de outra maneira.
Essas ferramentas ainda nos permitem divulgar projetos de misericórdia,
mobilizar ajuda e alcançar pessoas com uma velocidade que outras gerações não
possuíam. Um simples texto pode chegar a alguém no momento exato em que
precisava lê-lo, uma pregação pode atravessar fronteiras e um conteúdo pode
continuar sendo encontrado e produzindo fruto muitos anos depois de publicado.
Por isso, o problema não está na existência da ferramenta, mas na
maneira como a utilizamos e, sobretudo, em quem governa nosso coração enquanto
fazemos isso.
As redes sociais podem servir ao Reino, desde que continuem submetidas
ao senhorio de Cristo e sejam usadas com verdade, sabedoria, amor e
responsabilidade.
Nosso
conteúdo pode ser relevante sem perder profundidade
Existe uma pressão constante por conteúdos rápidos, simples e
impactantes. Isso exige adaptação de linguagem, mas não deveria obrigar-nos a
abandonar profundidade.
Jesus comunicava verdades profundas utilizando imagens compreensíveis.
Paulo adaptava sua comunicação aos diferentes públicos sem alterar o Evangelho.
O desafio contemporâneo é semelhante: precisamos comunicar a verdade de
maneira compreensível sem torná-la superficial, utilizar formatos modernos sem
transformar o Evangelho em entretenimento e exercer criatividade sem recorrer à
manipulação emocional. Também podemos buscar maior alcance, desde que números,
visualizações e engajamento não assumam o lugar de importância que pertence à
fidelidade da mensagem.
A comunicação cristã não deve ter como objetivo apenas chamar atenção,
gerar reação ou fazer com que as pessoas parem para olhar. Seu propósito
precisa continuar sendo conduzir pessoas à verdade, apresentar Cristo com
clareza e utilizar cada recurso disponível de maneira responsável, sem permitir
que a forma se torne mais importante do que o conteúdo.
Nem toda
postagem precisa falar explicitamente de religião para expressar nossa fé
Às vezes criamos uma divisão
artificial entre aquilo que chamamos de “conteúdo cristão” e todo o restante da
vida. No entanto, uma cosmovisão bíblica não alcança apenas momentos de culto,
devocionais ou publicações explicitamente religiosas. Ela influencia a maneira
como trabalhamos, pensamos, nos relacionamos, reagimos às circunstâncias e
interpretamos o mundo ao nosso redor.
Um cristão pode falar sobre
trabalho demonstrando integridade, responsabilidade e respeito pelas pessoas.
Pode tratar a família com honra, cultivar gratidão e comentar acontecimentos
com equilíbrio, sem precisar transformar cada publicação em uma mensagem
religiosa.
Também pode divulgar arte,
cultura, conhecimento e experiências pessoais sem abandonar sua identidade.
Pode celebrar uma conquista sem cair em autopromoção excessiva e expressar
tristeza ou frustração sem perder a esperança que encontra em Deus.
A presença cristã nas redes
não se resume à quantidade de versículos publicados nem à frequência com que
mencionamos temas espirituais. Ela se revela, sobretudo, na forma como
enxergamos a realidade, reagimos às situações e tratamos aqueles que estão ao nosso
redor.
Nossa fé deveria ser percebida
tanto naquilo que dizemos sobre Deus quanto na maneira como falamos com as
pessoas, lidamos com opiniões diferentes, celebramos vitórias, atravessamos
dores e conduzimos nossa vida cotidiana. É justamente essa coerência que torna
o testemunho cristão mais verdadeiro e reconhecível.
Há momentos
em que desligar também é uma decisão espiritual
O uso constante das redes pode produzir uma mente permanentemente
fragmentada. Notificações, vídeos, mensagens, notícias e opiniões competem
continuamente por atenção. Se não houver limites, silêncio, oração e reflexão
podem tornar-se cada vez mais difíceis.
Jesus frequentemente se retirava para lugares solitários a fim de orar.
Lucas 5:16 registra: “Ele, porém, se retirava para lugares solitários e
orava.”
Se o próprio Jesus preservava espaços de silêncio e comunhão com o Pai,
precisamos considerar seriamente o que acontece quando nossa mente nunca se
desconecta do fluxo permanente de informações.
Estabelecer limites para tecnologia pode ser um ato de mordomia da
atenção.
Nem toda mensagem precisa ser respondida imediatamente. Nem todo momento
precisa ser registrado. Nem toda experiência precisa ser compartilhada.
Existem momentos que precisam ser simplesmente vividos diante de Deus.
A presença
digital precisa estar submetida ao mesmo senhorio que governa o restante da
vida
O grande erro seria imaginar que existe uma versão religiosa de nós
mesmos e outra versão digital. O discipulado bíblico não permite essa
separação.
Cristo é Senhor de nossa fala presencial e escrita, de nossos
relacionamentos físicos e digitais, de nossa igreja e de nossa timeline,
daquilo que dizemos diante de centenas de pessoas e daquilo que escrevemos numa
conversa particular.
Isso significa que nossa presença digital também precisa ser
discipulada.
Precisamos avaliar aquilo que consumimos porque isso forma nossos
pensamentos. Precisamos governar aquilo que publicamos porque isso revela nosso
coração. Precisamos observar como reagimos porque nossas reações também
testemunham. Precisamos colocar limites porque nossa atenção pertence a Deus e
às pessoas que Ele colocou ao nosso redor.
O objetivo não é produzir cristãos com perfis perfeitos, cuidadosamente
higienizados e sem qualquer humanidade. É formar discípulos inteiros, cuja fé
continue reconhecível quando passam do templo para o celular.
O mundo
digital também precisa enxergar o caráter de Cristo
As redes sociais estão cheias de opiniões. Encontramos especialistas
sobre praticamente tudo, debates intermináveis, disputas ideológicas, respostas
rápidas e pessoas tentando convencer umas às outras.
O cristão pode contribuir com ideias, argumentos e posições. Há momentos
em que devemos fazê-lo. Mas existe algo ainda mais poderoso que precisamos
oferecer: caráter.
Num ambiente marcado por agressividade, mansidão torna-se visível. Num
ambiente de autopromoção, humildade chama atenção. Onde mentira e exagero
circulam facilmente, confiabilidade torna-se rara. Em meio à polarização,
tratar com dignidade quem discorda de nós pode revelar uma maneira
completamente diferente de viver.
Esse tipo de testemunho não significa abandonar convicções. Significa
demonstrar que nossas convicções realmente passaram pelo coração.
Antes de
publicar, precisamos lembrar quem estamos representando
A presença cristã nas redes sociais não deveria ser governada apenas
pela pergunta sobre aquilo que temos liberdade para dizer. Precisamos
considerar se nossas palavras são verdadeiras, se tratam pessoas com dignidade,
se ajudam ou apenas alimentam conflitos, se revelam domínio próprio e se são
coerentes com o nome de Cristo que carregamos.
Paulo resume de maneira extraordinária:
“Portanto,
quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus.”
1 Coríntios 10:31
“Outra coisa qualquer” alcança também nossa vida digital. As redes
sociais são ferramentas. Podem amplificar sabedoria e insensatez, verdade e
mentira, amor e hostilidade, serviço e vaidade. Aquilo que elas amplificam
dependerá muito daquilo que já está sendo formado dentro de nós.
O mundo não precisa apenas encontrar mais perfis com versículos
bíblicos. Precisa encontrar pessoas cuja maneira de conversar, discordar,
corrigir, ouvir, compartilhar e servir revele alguma coisa do caráter de Jesus.
Podemos defender nossas opiniões e ainda assim esquecer quem estamos
representando. Podemos vencer uma discussão e perder uma oportunidade de
demonstrar graça. Podemos ganhar seguidores e perder gradualmente o domínio
sobre nosso próprio coração.
Por isso, nossa presença digital precisa permanecer debaixo do mesmo
senhorio que governa todas as outras áreas da vida. Quando isso acontece, as
redes deixam de ser simplesmente um espaço no qual expressamos tudo o que
pensamos e podem tornar-se também um lugar no qual nossa maneira de viver
aponta para Cristo.
No final, a questão não se resume ao que publicamos, mas ao que nossas
publicações revelam sobre quem estamos nos tornando.
A fé cristã precisa continuar reconhecível quando estamos online, porque
o discipulado não possui botão de desligar.
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis

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Obrigado pelo seu comentário! Palavras de pessoas maduras servem para edificar aqueles que desejam este amadurecimento. Que Deus continue te abençoando!