AMBIÇÃO ESPIRITUAL
Quando Deus se torna o maior desejo do coração
“Também através dos teus juízos, SENHOR, te esperamos; no teu nome e na
tua memória está o desejo da nossa alma. Com minha alma suspiro de noite por ti
e, com o meu espírito dentro de mim, eu te procuro diligentemente.”
Isaías 26:8-9
Todos nós somos movidos por desejos. Algumas pessoas reorganizam toda a rotina para alcançar uma formação profissional; outras trabalham durante anos para adquirir um patrimônio, construir uma empresa ou realizar um projeto. Há quem esteja disposto a abrir mão de descanso, conforto e lazer porque considera determinado objetivo importante o suficiente para exigir sacrifício. Nada disso é necessariamente errado. Trabalhar, planejar, cuidar da família e construir o futuro fazem parte de uma vida responsável. O problema começa quando conseguimos encontrar tempo, força e disposição para quase tudo aquilo que desejamos, mas percebemos que nossa comunhão com Deus está recebendo apenas aquilo que sobra.
É provável que uma das perguntas mais reveladoras sobre nossa vida
espiritual seja esta: o que desejamos tanto que estamos dispostos a
reorganizar nossa vida para alcançar?
Nossa agenda costuma revelar prioridades que nossos lábios nem sempre
admitem. Podemos dizer que Deus ocupa o primeiro lugar enquanto a oração se
torna rara, a Palavra é negligenciada e nossa atenção permanece completamente
absorvida por trabalho, dinheiro, entretenimento, projetos pessoais e
preocupações cotidianas.
É nesse ponto que precisamos recuperar aquilo que podemos chamar de ambição
espiritual. Não estou falando de uma busca descontrolada por experiências
extraordinárias, posições ministeriais ou reconhecimento religioso. Ambição
espiritual é algo muito mais profundo: é desejar conhecer a Deus, crescer à
semelhança de Cristo e colocar nossa existência a serviço da vontade dele.
Podemos desejar muitas coisas que procedem de Deus e, ainda assim, precisar
aprender a desejar o próprio Deus acima de todas elas.
Quando Deus
se torna o desejo da alma
Isaías 26 apresenta um povo aprendendo a confiar em Deus enquanto espera
por sua intervenção. É nesse contexto que surge uma declaração extraordinária: “Com
minha alma suspiro de noite por ti e, com o meu espírito dentro de mim, eu te
procuro diligentemente.”
Não estamos diante de uma espiritualidade superficial. Todo o ser está
voltado para o Senhor. Existe uma fome interior que nenhuma segurança humana
consegue satisfazer.
É significativo que esse desejo apareça durante a espera. Buscar a Deus
quando precisamos desesperadamente de uma resposta pode ser relativamente
fácil. Uma crise nos leva à oração, uma enfermidade nos aproxima da presença de
Deus e uma situação impossível desperta nossa fé.
“A verdadeira maturidade, porém, começa a aparecer quando continuamos
buscando o Senhor mesmo quando não estamos tentando resolver uma emergência.”
Se a resposta que você espera demorar, ainda haverá oração? Se ninguém
reconhecer aquilo que você está fazendo, continuará servindo? Se não houver uma
experiência emocionante no próximo culto, a Palavra ainda será preciosa? Se
Deus não lhe der exatamente aquilo que você deseja, sua comunhão com Ele
continuará sendo importante?
Essas perguntas revelam aquilo que realmente sustenta nossa busca.
Ambição espiritual começa quando nossa relação com Deus deixa de existir
apenas em função daquilo que esperamos receber. Passamos a perceber que a
presença do Senhor é maior do que qualquer bênção que suas mãos possam colocar
nas nossas mãos.
O próprio texto de Isaías relaciona os juízos de Deus ao aprendizado da
justiça. Isso significa que desejar Deus inclui também desejar seus caminhos.
Não existe intimidade saudável com Deus sem disposição para ser transformado
por aquilo que Ele revela. Podemos cantar que queremos sua presença e, ao mesmo
tempo, resistir àquilo que sua Palavra já mostrou que precisa mudar. Nesse
caso, talvez estejamos desejando uma experiência espiritual, mas não
necessariamente desejando Deus como Ele realmente é.
A ambição
espiritual reorganiza nossas prioridades
Jesus declarou em Mateus 6:33:
“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas
estas coisas vos serão acrescentadas.”
O contexto dessa palavra trata de necessidades extremamente concretas:
alimento, vestuário, futuro e ansiedade. Jesus não despreza nenhuma dessas
coisas. Ele conhece nossas necessidades e sabe que precisamos trabalhar,
planejar e cuidar das responsabilidades que nos foram confiadas. Sua
preocupação é outra: impedir que essas necessidades assumam o governo do
coração.
Buscar primeiro o Reino significa permitir que Deus determine a ordem
das nossas prioridades. É reconhecer que sua vontade deve ter autoridade sobre
nossos negócios, relacionamentos, dinheiro, decisões familiares e projetos
pessoais. A espiritualidade bíblica não acontece apenas dentro de uma reunião
religiosa. Ela alcança todas as áreas da existência.
Por isso, ambição espiritual não pode ser medida pela quantidade de
atividades cristãs que realizamos. Uma pessoa pode participar de cultos,
conferências e inúmeros projetos e continuar resistindo ao governo de Cristo
dentro de casa. Pode desejar profundamente um ministério público enquanto
negligencia responsabilidades simples que Deus já colocou diante dela.
Buscar o Reino primeiro acontece quando a fidelidade pesa mais do que
uma vantagem financeira, quando preferimos perder uma oportunidade a
comprometer nossas convicções, quando reconhecemos um erro em vez de proteger
nossa imagem e quando tratamos as pessoas com justiça mesmo que isso nos custe
alguma coisa.
Colossenses 3 nos chama a buscar as coisas do alto, mas o próprio
capítulo mostra que isso não significa viver desconectado da realidade. Quem
busca as coisas do alto precisa abandonar práticas pecaminosas e revestir-se de
compaixão, bondade, humildade, mansidão e amor. Uma mente voltada para o céu
transforma nossa maneira de viver na terra.
Desejar as
coisas de Deus não é o mesmo que desejar Deus
Existe uma diferença sutil, mas muito importante, entre desejar aquilo
que Deus pode nos dar e desejar o próprio Deus. Podemos desejar dons,
oportunidades, respostas de oração, crescimento ministerial, conhecimento
bíblico e reconhecimento sem perceber que, silenciosamente, nós mesmos
continuamos ocupando o centro.
A Bíblia não condena todo desejo. Ana desejou profundamente um filho e
levou sua dor diante do Senhor. 1 Samuel 1 descreve uma mulher profundamente
angustiada, ferida pelas provocações de Penina e emocionalmente marcada por sua
impossibilidade de gerar filhos. Sua oração nasce de uma necessidade real. Ela
não precisava fingir que aquele desejo não existia.
Entretanto, há algo extraordinário em sua atitude: Ana apresenta seu
desejo a Deus com disposição de consagrar aquilo que receberia. Quando Samuel
nasce, ela cumpre o voto realizado diante do Senhor. Sua entrega demonstra que
a oração não era apenas uma tentativa de possuir alguma coisa; havia também
disposição para colocar a resposta nas mãos de Deus.
Isso nos conduz a uma questão muito séria: estamos dispostos a
consagrar ao Senhor aquilo que tanto desejamos receber?
Podemos pedir uma oportunidade profissional e, depois, precisar
exercê-la com integridade. Podemos pedir prosperidade e descobrir que Deus
deseja formar generosidade em nós. Podemos pedir conhecimento bíblico e ser
confrontados pela responsabilidade de obedecer ao que aprendemos. Podemos
desejar um ministério e perceber que servir pessoas exige renúncia, paciência e
humildade.
A bênção pode facilmente transformar-se em ídolo quando recebemos alguma
coisa de Deus e depois passamos a utilizá-la para construir nossa própria
importância. A consagração protege o coração exatamente porque reconhece que
tudo continua pertencendo ao Senhor.
Dons e
ministérios não foram dados para alimentar nossa vaidade
Essa questão torna-se ainda mais importante quando tratamos de dons
espirituais e responsabilidades ministeriais. As Escrituras nos encorajam a
buscar dons, mas Paulo deixa claro em 1 Coríntios 14 que essa busca precisa
estar direcionada para a edificação da Igreja.
Isso muda completamente nossa motivação, porque não desejamos pregar
para sermos admirados, mas para que pessoas sejam edificadas pela Palavra. Não
desejamos ensinar para demonstrar conhecimento, mas para que outros compreendam
a verdade. Não desejamos liderar porque gostamos de exercer autoridade, mas
porque estamos dispostos a servir, ouvir, assumir responsabilidade e prestar
contas.
Com maturidade, passamos a entender que não se trata mais só de “Qual
ministério gostaria de exercer?”, mas também de “Quais necessidades
estou realmente disposto a carregar?”
O Reino possui muitos serviços que dificilmente produzirão
reconhecimento público. Há pessoas que intercedem, aconselham, visitam,
acolhem, contribuem, ensinam crianças, ajudam famílias e servem de maneiras
praticamente invisíveis. Mesmo assim, aquilo que fazem pode ter enorme valor
diante de Deus.
Ambição espiritual saudável não precisa de palco para continuar
servindo. Seu grande desejo não é ser visto, mas ser útil ao propósito de
Cristo.
Quem deseja
ser usado por Deus precisa aceitar ser tratado por ele
João 13 apresenta um momento profundamente revelador da formação dos
discípulos.
Jesus se levanta da mesa, coloca
uma toalha e começa a lavar os pés daqueles homens. Quando chega a Pedro,
encontra resistência. Pedro não consegue compreender por que seu Mestre
realizaria uma tarefa associada a um servo.
Jesus precisa mostrar-lhe que receber aquilo que Ele estava fazendo era
indispensável.
Essa cena nos ensina algo muito importante: às vezes queremos fazer
grandes coisas para Deus enquanto resistimos ao trabalho que Ele deseja
realizar dentro de nós. Temos disposição para agir, falar, liderar e servir,
mas encontramos dificuldade quando somos confrontados, corrigidos ou chamados a
reconhecer que estávamos errados.
Pedro possuía intensidade, mas precisava de formação. E o mesmo pode
acontecer conosco. É possível ter entusiasmo espiritual e continuar carregando
orgulho, necessidade de reconhecimento ou dificuldade de receber orientação.
Podemos desejar compreender profundamente as Escrituras e, ainda assim,
procurar apenas interpretações que confirmem nossas ideias.
Ambição espiritual precisa caminhar com um coração ensinável. Quem
realmente deseja crescer não pergunta apenas: “O que Deus quer fazer através
de mim?” Também pergunta: “O que Deus precisa fazer em mim?”
A maturidade aparece quando permitimos que a Palavra confronte nossas
motivações, hábitos e comportamentos. É perfeitamente legítimo pedir que o
Espírito Santo ilumine nosso entendimento, mas a novidade de uma interpretação
não comprova sua origem divina. Aquilo que cremos ter recebido em oração
precisa continuar sendo examinado à luz das Escrituras.
Um ensino aparentemente simples, quando compreendido e obedecido, pode
produzir mais transformação do que uma ideia extraordinária que nunca alcança
nosso caráter.
Ambicionar Deus
significa oferecer a vida inteira
Romanos 12:1-2 oferece uma das definições mais completas de consagração
cristã. Depois de apresentar as riquezas do Evangelho, Paulo faz um apelo
baseado nas misericórdias de Deus:
“Apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus, que é o vosso culto racional.”
A ordem é importante. A entrega acontece como resposta à misericórdia
recebida.
Desta forma, não oferecemos nossa vida para convencer Deus a nos amar,
mas nos entregamos porque fomos alcançados por seu amor em Cristo. A
consagração cristã não é tentativa de comprar aceitação; é gratidão
transformada em obediência.
Paulo fala do corpo porque essa entrega precisa alcançar a vida
concreta. Nossa espiritualidade precisa tocar palavras, pensamentos,
sexualidade, trabalho, descanso, dinheiro, relacionamentos e maneira de
utilizar o tempo. Não existe uma parte religiosa da vida que pertence a Deus e
outra parte comum que permanece exclusivamente sob nosso controle.
Tudo pertence ao Senhor. É justamente aqui que precisamos tomar cuidado
com a ideia de um “desejo desenfreado pelas coisas espirituais”. O desejo por
Deus pode ser intenso, profundo e perseverante, mas precisa continuar submetido
à Palavra e à sabedoria. Fervor espiritual não nos autoriza a negligenciar o
casamento, abandonar os filhos, desprezar o descanso ou agir
irresponsavelmente.
Jesus jamais ensinou uma espiritualidade que nos torna irresponsáveis
com aquilo que Deus colocou sob nossos cuidados. A verdadeira ambição
espiritual não produz desordem, produz alinhamento.
Uma mente
renovada produz desejos renovados
Romanos 12 continua dizendo que não devemos nos conformar com este
século, mas ser transformados pela renovação da mente, para experimentar a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus. Isso significa que até nossos desejos
precisam ser discipulados.
Nem tudo o que desejamos deve ser automaticamente interpretado como
direção divina. Alguns desejos nasceram da cultura em que vivemos, outros de
nossas inseguranças, ambições pessoais ou feridas. Crescer espiritualmente
significa permitir que Cristo examine inclusive aquilo que desejamos.
A renovação da mente começa a alterar nossos critérios de sucesso.
Talvez antes desejássemos apenas crescer; agora queremos crescer sem perder a
alma. Talvez desejássemos reconhecimento; agora aprendemos a encontrar
segurança na aprovação do Pai. Talvez nosso maior objetivo fosse possuir mais;
agora começamos a perguntar como aquilo que possuímos pode servir ao Reino.
Essa transformação não acontece de maneira instantânea, na verdade, é um
processo que se torna visível em decisões simples: separar tempo para oração e
leitura bíblica, abandonar um hábito prejudicial, restaurar a comunhão com a
Igreja, pedir perdão, procurar reconciliação, servir alguém ou obedecer numa
área que há muito tempo estamos adiando.
Não precisamos esperar uma experiência extraordinária para começar a
responder a Deus. Muitas vezes, o próximo passo já está claro.
A
eternidade muda o valor das nossas ambições
1 João 2:17 nos lembra que “o mundo passa, bem como a sua
concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece
eternamente.” Essa verdade deveria reorganizar profundamente nossa maneira
de investir a vida.
Grande parte daquilo que hoje ocupa nossos pensamentos perderá
importância com o tempo. Conquistas envelhecem, bens se deterioram,
reconhecimento público desaparece e muitas coisas pelas quais sacrificamos anos
da vida serão rapidamente esquecidas.
Isso não torna o presente irrelevante. Pelo contrário, dá ao presente
seu verdadeiro significado.
Quando vivemos à luz da eternidade, começamos a perguntar quais escolhas
possuem valor duradouro. Não abandonamos nosso trabalho, família ou
responsabilidades terrenas; passamos a vivê-los debaixo de uma perspectiva
maior.
Podemos trabalhar para a glória de Deus, cuidar da família com zelo,
servir ao próximo com bondade e viver cada dia empenhados em fazer o bem,
porque nossas atitudes manifestam nossa fé e mostram o quanto estamos
comprometidos com os valores que desejamos honrar.
O que
realmente tem ocupado o centro do seu coração?
Chegamos ao ponto em que esta reflexão precise tornar-se pessoal. Todos
nós precisamos apresentar nossos desejos diante do Senhor e permitir que Ele os
examine.
Há pedidos legítimos que podemos fazer com liberdade. Podemos orar por
saúde, trabalho, família, provisão e oportunidades, porque Deus se importa com
essas coisas. Entretanto, nossas orações precisam crescer até incluir outra
dimensão: “Senhor, transforma-me enquanto respondes. Corrige minhas
motivações. Forma em mim o caráter de Cristo. Ensina-me a desejar aquilo que te
agrada.”
Jesus viveu em perfeita comunhão com o Pai e submeteu toda sua vida à
vontade dele. Depois, entregou-se por nossos pecados e ressuscitou para que
pudéssemos ser reconciliados com Deus. É somente por meio de Cristo que podemos
aproximar-nos do Pai e receber essa nova vida.
Nossa busca, portanto, não é uma tentativa de alcançar um Deus distante
pela intensidade do nosso esforço, mas uma resposta ao amor daquele que
primeiro nos alcançou.
É possível que alguns precisem reconhecer que perderam a fome pela
presença de Deus. Já outros precisam admitir que a ambição religiosa tomou o
lugar da ambição espiritual. Além disso, há quem deseje mais ser reconhecido do
que servir, e há pessoas que conhecem exatamente o próximo passo de obediência,
mas continuam adiando.
A resposta precisa ser sincera. Portanto, abra novamente espaço para
oração. Volte às Escrituras. Procure a reconciliação que precisa acontecer.
Sirva onde existe necessidade. Entregue ao Senhor os desejos que começaram a
governar sua vida.
Porque a verdadeira ambição espiritual não é possuir cada vez mais
experiências ou posições, mas desejar conhecer cada vez mais profundamente a
Deus, tornar-se semelhante a Cristo e viver inteiramente para sua vontade.
Que possamos desejá-lo durante a noite da espera, buscá-lo no início de
cada dia e honrá-lo nas decisões aparentemente comuns de nossa caminhada.
E que, quando outras ambições começarem a disputar nosso coração,
sejamos capazes de voltar à oração de Isaías:
“Com minha alma suspiro de noite por ti e, com o meu espírito dentro de
mim, eu te procuro diligentemente.”
Porque talvez a maior transformação espiritual comece quando deixo de orar
apenas por aquilo que Deus pode me dar e passo a orar:
“Senhor, faze com que eu te deseje acima de todas as coisas.”
Deus te abençoe!
Pr. Sérgio Luis

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